Ricardo Perna, Diretor de Comunicação da Diocese de Setúbal

Desde o ano de 516 d.C., no concílio provincial em Tarragona, Espanha, que há registo da necessidade dos bispos realizarem visitas regulares aos territórios sob a sua jurisdição, hoje vulgarmente designados por paróquias, capelanias, santuários, entre outras nomenclaturas.
No início, o objetivo era não apenas fortalecer a fé das comunidades locais, mas também o de supervisionar o funcionamento das estruturas locais, procurando acabar com eventuais desvios das normas definidas pela diocese ou, em última análise, pela Igreja Universal em Roma.
Hoje em dia, o conceito foi-se alterando e as Visitas Pastorais podem assumir-se (devem?) como uma forma muito eficaz de não apenas cumprir com os propósitos iniciais, mas de expandir aquilo que é o conhecimento local e as relações não apenas com as autoridades civis, económicas e sociais, mas também de chegar a um público que está afastado da Igreja e que, por esta via, volta a ter contacto com uma realidade que desconhece ou da qual está afastado.
Na Diocese de Setúbal, só para dar um exemplo, o bispo está a concluir a visita à Vigararia de Almada-Caparica. Serão 13 visitas pastorais onde o bispo teve contacto com cerca de 300 empresas/instituições/movimentos eclesiais e da sociedade civil, algumas com 2 ou 3 trabalhadores, outras com centenas de trabalhadores ou estudantes, no caso das escolas.
Creches, Jardins de Infância, escolas básicas e secundárias, privadas e públicas, Juntas de freguesia, Câmaras municipais, empresas privadas, empresas públicas, instituições de solidariedade, coletividades desportivas e culturais, a diversidade tem sido, e é, a chave para esta Igreja em saída. Porque temos a obrigação de chegar a todos, todos, todos, e porque, temos visto, todos têm interesse/disponibilidade para nos acolher, mostrar o que são e de que forma podemos todos trabalhar em conjunto em prol da comunidade.
Em todas as visitas o acolhimento tem sido fantástico e a oportunidade de dialogar com um mundo habitualmente não acessível à igreja tem sido muito rico na sua capacidade de gerar não apenas unidade, mas também desejo e vontade de sinergias e parcerias no trabalho. Não são visitas proselitistas, ou catequéticas, mas são espaços onde é possível transmitir aquela que é a mensagem cristã e os valores subjacentes a ela, que são valores partilhados por muitos daqueles que não estão próximos da Igreja.
Não sabemos se esses contactos levarão a conversões, batismos, participação na eucaristia ou qualquer outra aproximação à fé, mas há registos de instituições que nunca tinham recebido a visita do pároco e que passaram a contar com a sua presença regular, apenas e só porque nunca se tinham encontrado e nunca tinham conversado sobre essa possibilidade, ou de estudantes que nunca tinham podido confrontar alguém da Igreja com uma inquietação sua e o puderam fazer e obtiveram uma resposta.
O tempo de a Igreja se limitar a abrir as portas para acolher todos os que a procuram já terminou há muito, apesar de alguns ainda não estarem convencidos disso. É preciso, como já dizia o Papa Francisco, uma Igreja em saída, que saia do adro e vá ao encontro dos outros, que já são muito mais que aqueles que temos connosco. As visitas pastorais são, nesse sentido, uma ferramenta essencial para que o bispo conheça a realidade do território, para que o pároco desenvolva relações com toda a comunidade, mas acima de tudo para que a comunidade que está afastada da Igreja perceba que há valores comuns, que queira estabelecer um caminho de conjunto na prossecução do Bem Comum, e que se deixe tocar pela bondade da mensagem cristã que afeta o seu dia-a-dia, seja ela uma empresa, uma autarquia ou uma instituição de apoio social.
O mais bonito de tudo tem sido verificar, no terreno, que a Igreja continua a ter, apesar do que se diz nas redes, um acolhimento muito bom, porque há a compreensão, da parte de todos, daquilo que ela aporta ao terreno, à comunidade local e a cada uma das pessoas que são visitadas. E essa é uma das grandes mais-valias das visitas pastorais, um instrumento que está ao dispor de todas as diocese, que já faz parte do seu dia-a-dia, mas que pode ser muito mais valorizado do que eventualmente ainda será em alguns casos.
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