O postal do Sr. Luís

Lígia Silveira, Agência Ecclesia

Chegou às minhas mãos sem que nada dependesse de mim; testemunhei apenas o que os encontros, mesmo que breves, podem fazer pelas pessoas.

Foi num final de tarde que, indo buscar o meu filho a atividades de férias numa colónia, um postal escrito e desenhado pelo mesmo autor me foi entregue com o cuidado que o seu conteúdo merecia – não só pelas palavras escritas, pelos desenhos cuidados e cheios de significado, mas pelo momento que dele resultou: um encontro intergeracional marcou uma tarde entre crianças e utentes de um centro de dia em que a conversa os uniu, com perguntas dos mais novos e histórias dos mais velhos.

O tempo em que a televisão dava os primeiros passos da sua presença em Portugal, o acesso era restrito a algumas casas que se abriam para que, à volta do pequeno ecrã, miúdos e graúdos se reunissem, era ali descrito e deve ter conduzido a animada conversa.

“A televisão estava em casa do padre e ele dizia que para ver desenhos animados tínhamos que ir à missa”, leio no postal assinado.

A tarde foi animada e o pequeno postal, desenhado e escrito, foi uma forma de agradecimento pelo interesse e pelas perguntas curiosas do interlocutor.

Por ocasião da celebração do Dia dos Avós, dou por mim a valorizar estes encontros, não apenas porque são ocasião de recordar a vida noutras condições, porque nos confrontam com vivências bem diferentes das atuais, mas principalmente porque são ocasião de escuta e de laços.

Crescer com o tempo dos outros, ser convidado à atenção e ao silêncio para que alguém se conte, é um caminho que todas as gerações devem ser convidadas a percorrer; semeá-lo entre crianças é investir na contracorrente dos dias que nos centram, nos ‘umbigam’, dos desejos ao alcance da mão.

O postal do Sr. Luís não só me deu conta de um encontro que aconteceu mas é também sinal de reconhecimento e amabilidade, e revela um cuidado – nas palavras e nos desenhos – que vale a pena assinalar, agradecer e engrandecer.

Uma tarde, um encontro, uma conversa à volta da mesa, duas pessoas – uma curiosa e outra com histórias para contar. Simples, gratuito, encantador. Que também as nossas férias se possam construir desta forma.

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