Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva

Há coisas que só o nosso tempo consegue produzir. Um grupo de influenciadores portugueses foi convidado por Israel, entrou na Faixa de Gaza e voltou com conteúdo.
Conteúdo. É esta a palavra que fica.
Imagino a mala de cabine: aro de luz, powerbank, tripé desmontável. Imagino a dúvida séria do dia — legenda com emoji ou sem emoji? Imagino alguém a pedir para repetir o plano porque o vento estragou o cabelo. Ali. Naquele chão.
Ninguém viaja milhares de quilómetros até uma guerra para mudar de ideias. Vai-se para confirmar as que já se levam na bagagem. E é aqui que o Byung-Chul Han acerta em cheio: chama-lhe a expulsão do distinto. O outro deixou de existir. Sobrou o espelho.
O mesmo homem diz uma coisa que devia estar afixada em todos os telemóveis: nas redes sociais, a função dos “amigos” é principalmente aumentar o nosso narcisismo.
Não são amigos. São plateia.
E uma plateia não nos contraria. Aplaude.
Daí vem o resto — esta ditadura mansa da positividade. Tudo é jornada. Tudo é gratidão. Tudo é abençoado. Ninguém falha, ninguém hesita, ninguém tem uma quarta-feira medíocre. E depois há um rapaz de dezenove anos, no quarto, às duas da manhã, convencido de que é defeituoso porque a vida dele não tem banda sonora nem cor corrigida.
O esforço desapareceu do enquadramento. A desilusão também. E sem desilusão não há maturidade — há só ansiedade com boa luz.
Repare-se onde chegámos: já não é o mundo físico que alimenta o digital. É o digital que decide o físico. O prato é feito para a fotografia. A viagem é escolhida pelo cenário. A guerra transforma-se em programa de comunicação com convidados. Primeiro o plano, depois a realidade a obedecer.
E agora chegou à Igreja.
Não me entendam mal. Conheço padres e leigos que usam as redes com verdade e fazem bem a muita gente. Deus sabe que precisamos de vozes nesse deserto. Mas há um risco que ninguém quer nomear em voz alta: uma fé desencarnada. Sem cheiro. Sem incómodo. Sem ninguém.
Porque a fé cristã tem cheiro, sim. Tem o peso de uma mão magra que agarra a nossa e não larga. Tem silêncios que não rendem visualizações. Sem silêncio incómodo diante do sofrimento que não tem hashtag
Cristo escolheu doze. Um traiu-o, outro negou-o três vezes, quase todos fugiram na hora má. Métricas horríveis. Nenhum gestor de redes teria aprovado a estratégia.
E foi assim que se salvou o mundo.
O perigo não é o telemóvel. É trocarmos o discipulado por subscrição. É ganharmos seguidores de nós próprios e chamarmos-lhe evangelização.
Sigam quem quiserem. Mas cuidado: um dia alguém pergunta de quem éramos seguidores.
E não vale ir ver ao telefone.
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