Muitas das imagens que chocaram o país, há um ano atrás, aquando das enxurradas que atingiram a Madeira, vinham das localidades da Ribeira Brava e da Serra de Água.

Muitas das imagens que chocaram o país, há um anos atrás, aquando das enxurradas que atingiram a Madeira, vinham das localidades da Ribeira Brava e da Serra de Água. A Agência ECCLESIA falou com o padre Bernardino Trindade, pároco local, que aborda o esforço de reconstrução, material e espiritual, confessando que não pára de descobrir pessoas que ainda precisam de ajuda.

 

Agência ECCLESIA (AE) – Como é que a comunidade paroquial viveu esta tragédia em 2010 e como acompanhou as vítimas, imediatamente a seguir?

Pe. Bernardino Trindade (BT) – As pessoas ajudaram-se mutuamente, compreenderam a situação, todos se uniram em esforços, bens e meios e também em solidariedade, para socorrer aquelas pessoas que tinham sido vítimas da tragédia. A união fez-se sentir… E aos poucos fomos recompondo a vida, estabelecendo esperanças mas, sabemos que quando há chuvas em maior abundância há sempre sobressaltos. E as pessoas vão continuando as suas vidas.

 

AE – Passado um ano, quais são as preocupações em relação às pessoas que foram afectadas, tanto materialmente como pela perda de familiares?

BT – As pessoas têm de sentir que não estão sozinhas, que estão apoiadas na comunidade paroquial e nas outras instituições. Continuamos com o acompanhamento, na escuta, nas visitas que se fazem… estamos sempre despertos para ajudar mas ainda há pessoas que não pediram ajuda, que ficaram caladas… Ainda estamos a descobrir pessoas que realmente precisavam de ajuda e não chegámos lá! Ainda há duas semanas descobrimos famílias que precisaram de ajuda e nada pediram, fizeram como puderam. Há essa vertente das pessoas que têm vergonha e uma certa timidez em pedir ajuda porque sempre se tiveram de desenrascar sozinhas… Mas o que é mais importante para nós na paróquia é perceber quem é que precisava de ajuda e não foi ajudado porque não falou, nós não soubemos ou simplesmente não houve sinais.

Agora a Igreja sempre esteve presente, os meios que dispõe sempre fizeram tudo, continuamos a disponibilizar instalações, as conferências de S. Vicente de Paulo e a Caritas Diocesana continuam a ajudar diariamente muitas vítimas da catástrofe e outras pessoas que vêm à Igreja para dar ajuda. Eu mesmo recebo dinheiro de pessoas que me entregam para ajudar quem mais foi afectado por aquela trágica situação, porque confiam no padre. A Igreja tem um papel importante na distribuição das coisas que têm chegado, na divisão de verbas, porque há confiança na Igreja, na paróquia local. Claro que nós temos a sensibilidade, aqui na paróquia da Ribeira Brava, em fazer uma gestão certa da entrega dos donativos, se as pessoas precisam de dinheiro ou de outros bens… A Igreja está aqui desperta para as necessidades das pessoas, pronta para a ajudar mas nem sempre é a imagem que passa, as paróquias abriram as suas portas e merecemos muito mais respeito por todo o trabalho realizado.

 

AE – Falava-nos há pouco de acompanhamento, nomeadamente espiritual… Está presente nesse acompanhamento às pessoas que perderam familiares?

BT – Estou presente mas ao mesmo tempo estou ausente… É a minha maneira de ser. Nós não podemos estar sempre a dizer, coitadinhos… O lamento não resolve nada! Temos de dar apoio às pessoas para que elas possam resolver as situações concretas e aí poderem erguer a cabeça. Quando é necessário há sempre uma conversa amiga, um encontro pessoal, e nem falámos dos psicólogos que tanto trabalharam também… Mas as pessoas têm de se erguer e com fé superar a situação sabendo que não estão sozinhas, para que em cada uma nasça aquela esperança de dar a volta; ao sermos muitos, poderemos voltar à normalidade na união e andarmos para a frente.

AE – A zona da Ribeira Brava e da Serra de Água foi das mais afectadas pela tragédia. Como tem decorrido o esforço de recuperação de bens e das rotinas quotidianas?

BT – Daquilo que eu sei na Serra de Água o processo tem sido acompanhado a par e passo e ajudar as pessoas monetariamente. Por exemplo a congregação dos Sacerdotes Coração de Jesus (responsáveis pelas paróquias desta área, ndr) tem ajudado directamente as pessoas. É evidente que uma casa não se faz da noite para o dia, há pois um certo desespero e uma certa pressa porque quem perdeu os seus haveres e os seus bens anda à mercê de ajudas…Mas continuamos no terreno e acolhemos as ajudas monetárias para tudo ser mais rápido, concretamente na reconstrução das casas.

Posso já dizer que está a avançar o projecto do bairro de 12 casas, mas é tudo muito moroso e nem sempre é fácil porque há muito burocracia a tratar. Outro exemplo é a reformulação que o antigo centro de saúde está a ter para se transformar num pequeno lar e acolher muitos dos idosos que perderam as suas casas e agora não têm forma de reconstruir. Neste momento são 9 idosos que estão lá.

Eu e os meus colegas que estamos no terreno sentimos uma certa pressão e um frenesim de pressa das pessoas que querem regressar à normalidade das suas vidas mas isso muitas vezes não depende de nós. No entanto as pessoas não podem ficar iludidas que a sociedade, as instituições, as organizações ou o Estado, vão fazer a parte delas.

 

AE – Que lições devem tirar a comunidade eclesial e a sociedade civil deste acontecimento?

BT – As pessoas têm de lutar pelos seus direitos e arregaçar as mangas. Muitas vezes temos de ajudar as pessoas a discernir esta questão. Sei que depois de uma tragédia daquelas é difícil mas o desafio é mesmo esse… Ver, julgar e agir. Nestes momentos tem de haver sempre pessoas a ajudar e a discernir o mais importante e ajudem nestas angústias.

No meio de todo o rebuliço destas aflições havia alguém que dizia: “estamos vivos”, e estas duas palavrinhas são o mote mais importante de apoio e esperança.

SN

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