Terra Santa: «É o momento para mostrar proximidade», apela chanceler do Patriarcado Latino de Jerusalém

Chanceler do Patriarcado Latino de Jerusalém, o padre Davide Meli diz que minoria cristã no enclave palestiniano tem sido um “pequeno grão de fé” na sobrevivência da população, mas precisa de ser ajudada. Em entrevista à Ecclesia e Renascença fala do “impacto negativo” do cancelamento das peregrinações à Terra Santa, comenta os incidentes crescentes contra cristãos, e diz acreditar que a aposta que a Igreja católica ali está a fazer na educação vai capacitar as futuras gerações a valorizarem mais o diálogo e a paz

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

 Para começarmos, pedimos um retrato do atual momento: como é que descreve o panorama do cuidado pastoral e a situação diária das comunidades cristãs na Terra Santa, neste contexto de guerra?

O Patriarcado Latino de Jerusalém é uma diocese que é muito vasta, geograficamente, vai da ilha de Chipre até ao reino da Jordânia, incluindo Palestina e Israel, zonas muito distintas, diferentes, com idiomas, religiões e tecido social específico. Então, é muito difícil generalizar. Podemos dizer que, de forma geral, há necessidade de ficar perto. É por isso que o patriarca, o cardeal Pierbattista Pizzabala, continua fazendo as visitas pastorais, nas quais fica três dias dentro da mesma paróquia, dormindo lá, visitando os doentes, vendo todas as realidades que têm a ver com a paróquia. Há a necessidade de ficar perto das ovelhaas.

 

A diminuição do número de peregrinos está a ter impacto na vida concreta das comunidades cristãs?

Tem um impacto muito grande, negativo. A ausência dos peregrinos é uma ausência de uma presença que é natural na Terra Santa. Não é uma coisa de fora, é uma coisa natural a presença cristã na Terra Santa. Os peregrinos são uma grande graça para a comunidade cristã, e não só, também para todos os que não são cristãos e que veem o testemunho concreto de um mundo que muitas vezes parece ser muito longe, distante da realidade do Médio Oriente, mas que na está ligado.

É o momento, e o patriarca já falou muitas vezes disso, para mostrar proximidade, na oração e, na medida do possível, também, como já acontece, com pequenas peregrinações. Podem não ser grandes em número, ser mais pequenas, até ao momento em que se possam fazer (de novo) peregrinações maiores, e perto da realidade. Então, a visita às paróquias, aos grupos de jovens, às realidades dos escuteiros, é uma das formas concretas de animar a comunidade local, que aprecia muito.

 

Continuam a conseguir garantir ajuda humanitária no terreno? A Igreja continua a dar essa resposta?

Com certeza. O Patriarcado Latino continua a dar uma resposta de ajuda humanitária, principalmente em três campos: um é a assistência com alimentos e bens de primeira necessidade; a segunda é uma assistência educativa, as nossas escolas educam em cada ano mais ou menos 20 mil jovens, a maioria deles não são cristãos. É uma plataforma cultural para conhecer o outro, criar amizades que permaneçam para o resto da vida. E a terceira forma de ajuda é a saúde, ajudar no campo médico. Estas três formas de ajuda continuam.

Precisamos de apoio das pessoas, da Igreja universal, para poder continuar a proporcionar essa ajuda.

 

Qual é a maior urgência hoje?

Eu diria que a maior urgência, e a que tem mais futuro, é a educação. Queremos investir na educação. Temos um canal concreto, através do site do patriarcado latino www.lpj.org/, para receber donativos, que dão bolsas de estudo e permitem também manter muitas famílias que trabalham nas escolas católicas, como professores ou administrativos, por exemplo. Essa é uma forma concreta de dar apoio à Igreja na Terra Santa.

 

Além das estruturas educativas e do trabalho da Cáritas de Jerusalém, há um foco que é muito mediático, que é a presença em Gaza, na Paróquia da Sagrada Família. Esta comunidade católica, neste momento de guerra, quantas pessoas é que está a apoiar?

Os cristãos em Gaza, antes do começo da guerra eram pouco mais de mil. Agora são mais ou menos 600. O número baixou muito, por causa das mortes e das migrações. Mas, esse pequeno grão de fé ajudou muitíssimas pessoas que não são cristãs ao longo do tempo, porque é através dessa paróquia que podemos dar ajuda humanitária a dezenas de milhares de pessoas que não são cristãs, dentro de Gaza. Temos distribuído milhares e milhares de toneladas de ajuda humanitária, ao longo dos últimos dois anos, precisamente graças à presença desses 600 cristãos. Então, é um pouco a parábola de Jesus, que fala de ser fermento.

 

Este ano, o patriarca latino de Jerusalém, o cardeal Pizzabala, de que já falou, publicou uma importante carta pastoral sobre a Igreja na Terra Santa. Há uma passagem na qual diz que a guerra se tornou objeto de um culto idolátrico e denuncia o fracasso da comunidade internacional. Vemos que a guerra persiste. A partir de Jerusalém, e da sua experiência pessoal, como é que observa esta mudança de paradigma global em que o conflito parece inevitável?

Não poderia responder a essa pergunta sem falar de Jesus Cristo. Sou um sacerdote católico… na carta, o patriarca fala na “luz do Cordeiro”. Essa é a chave, o que nos permite ver a história, com todas as suas faltas e feridas, de forma nova é a luz do Cordeiro. O que é que isso quer dizer?

 

A ideia de que o mal, no fim…

A certeza de que o mal, no fim, e mesmo agora, não está vencendo. Mas também a capacidade de dizer: é verdade que não posso solucionar todos os problemas, mas há problemas que eu posso e devo solucionar. É o discernimento. A luz do Cordeiro dá discernimento na situação em que estás hoje, para identificar quais são as oportunidades que podes solucionar, e fazer e atuar.

 

Pensa que a comunidade internacional, neste caso, tem feito tudo o que está ao seu alcance para travar a violência?

Não conheço as capacidades gerais da comunidade internacional. Acho que temos visto, e o patriarca fala disso, que algumas coisas que tínhamos pensadas como conceitos preconcebidos, intocáveis, não têm dado resultado. Então, como comunidade internacional, temos de nos interrogar aos níveis mais altos para fazer uma avaliação e ver o que funcionou e não funcionou, como podemos trabalhar concretamente para chegar a um funcionamento melhor. Porque está claro que temos visto algumas bancarrotas do sistema, situações que não têm tido em conta para nada o direito internacional, e temos de ver quais são as situações que podem ser melhoradas.

 

Em termos da comunidade internacional, há outras guerras que têm dispersado a atenção? Olha-se mais para outros conflitos, e não tanto para este específico da Terra Santa?

Não sei se estou de acordo com essa afirmação, porque é muito difícil fazer uma comparação da dor. Há conflitos muito grandes, por exemplo no Sudão, com centenas de milhões de mortos.

 

Que também parecem esquecidos…

Temos a situação no leste europeu, que ainda continua, temos muitas situações de violência no mundo. É muito difícil dizer se a comunidade internacional fez, ou não fez. Eu acho que o ponto aqui é tentar encontrar uma linguagem e uma forma, e esse também é um papel importante para os meios de comunicação católicos: como podemos falar e fazer, de uma forma construtiva. Não indicar apenas qual é a ferida, mas também qual é a cura.

 

Escreveu num texto, quando lhe pediram um comentário à criação cardinalícia do patriarca Pizzaballa, que “a Terra Santa é um lugar onde todos são chamados a encontrar-se”. É uma mensagem que os líderes cristãos passam repetidamente. Como é que se concilia essa vocação de Jerusalém como casa “de portas abertas”, com a realidade atual de bloqueios, desconfiança e de conflitos?

Lembro-me de uma coisa que um exorcista me disse uma vez: os lugares onde existe a mais forte manifestação de Deus têm perto os lugares onde se tem também uma manifestação muito forte do diabo. Então, a Terra Santa, sem dúvida, é um lugar onde tem toda a realidade da encarnação e da história da salvação.

O mal que vemos na Terra Santa, não somente nesse momento, está também ligado a uma guerra espiritual, contra essa realidade salvífica. Como pessoas de fé, somos chamados a reconhecer isso e a atuar em consequência.

 

Pergunto se aquele muito mediatizado incidente da restrição do acesso ao Santo Sepulcro, no Domingo de Ramos, já está superado? Vimos que, infelizmente, no contexto da guerra, dá a impressão de que os católicos passaram a ser alvo de agressões nas ruas, nalgumas operações militares também, especificamente pela sua condição de cristãos…

Acho que esse incidente que aconteceu no Domingo de Ramos manifestou a importância global da Igreja do Santo Sepulcro, a relevância universal de Jerusalém.. novamente, é importante olhar a história, o passado, com discernimento, que nos permite aprender. Não tanto dizer ‘fizeram bem, fizeram mal’. Isso é importante, mas temos de aprender. Isso reforçou em mim a consciência profunda de que Jerusalém, a Basílica do Santo Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo, tem uma importância mundial, global, não apenas para os cristãos, mas para toda a comunidade internacional. E isso é, sem dúvida, uma estrela que temos de seguir e agir em conformidade, a todos os níveis.

 

Num momento em que tantos cristãos sentem a tentação de sair da Terra Santa, de onde pode vir hoje a alegria e a esperança de quererem permanecer?

O patriarca fala muito claramente que essa alegria vem do encontro, o encontro com a pessoa de Jesus Cristo. Esse encontro não pode prescindir de uma realidade dura, a que na teologia cristã chamamos a cruz. Mas não estamos sozinhos. A alegria chega, sobretudo, quando experimentamos a providência de Deus em situações limite. Isso não muda, não transforma uma situação difícil numa situação fácil, mas dá-nos força para ficar dentro dessa situação, como um barco na tempestade, seguros de que não estamos sozinhos.

Os cristãos descobrem isto – mesmo aqui em Portugal, frente ao preço da gasolina que vai subindo, têm uma esperança concreta. Eles sabem que não estão sozinhos frente a coisas que não dominam.

 

Sabemos que, infelizmente, o nome de Deus e os textos sagrados são muitas vezes usados para justificar atos de violência e de guerra. Neste ambiente, muitas vezes, de ódio profundo, como é que os católicos abrem caminho também na Terra Santa para o diálogo com os seus irmãos judeus e muçulmanos?

O testemunho de Cristo. Significa fazer como fez Jesus: muitas vezes acolher sobre si os defeitos dos outros. Isso não quer dizer que o outro não tenha defeitos, que é perfeito e nunca comete erros. Mas, no diálogo, na relação, essa atitude permite ser uma pessoa que acolhe.

É o acolhimento cristão, que parte do testemunho cristão, que pode levar a ser fermento dentro da nossa sociedade, que pode – e nós vemos isto – dar frutos bons, frutos de diálogo, de construção comum, frutos que levam, no meio de uma história difícil, a zonas onde se pode experimentar essa alegria, concretamente.

 

Ainda há pouco falava da questão da educação e das escolas. Estamos a falar de jovens, aqueles que têm, provavelmente, maior capacidade de mudar a situação. É possível ensinar estes jovens de diferentes confissões, de várias origens, a discordarem com respeito, no atual clima da Terra Santa?

Sim. Os jovens precisam de guias e atuam, muitas vezes, pela imitação. Temos de estar muito atentos à formação dos formadores e à educação de grupos de jovens. Por exemplo, o Patriarcado Latino, graças ao cardeal Pizzaballa, criou centros de formação teológica em língua árabe para os cristãos locais, nos quais se fala da Trindade, da divindade de Cristo, também da Doutrina Social da Igreja, da Sagrada Escritura, das diferenças do movimento ecuménico. Tudo isso cria um ambiente que forma pessoas, que depois serão formadores de formadores. É um trabalho difícil, lento, mas é um trabalho que, como uma boa planta, pode dar fruto.

 

Olhando de novo para o seu percurso pessoal: é arquiteto de formação, formou-se nos Estados Unidos, mais tarde estudou Teologia Dogmática em Roma e está agora no coração administrativo e pastoral da Igreja em Jerusalém. De que forma é que a sua mente de arquiteto também o ajuda nesta difícil tarefa de projetar caminhos de diálogo e de tentar reconstruir pontes numa terra em ruínas?

Eu lembro-me de uma frase que me escreveu uma das minhas irmãs, quando saí de casa: “não sabemos o que vais fazer com esses talentos que Deus te deu. Poderias construir casas ou poderias ajudar a construir a Igreja”. Eu acho que a providência de Deus me ajudou a seguir esse caminho. Tudo o que Deus tem feito comigo é por um motivo que não entendo imediatamente, no momento, mas que depois dá frutos. Então, com certeza que tudo o que Deus tem feito na minha vida pode ser utilizado para um bem, no diálogo, no contacto com pessoas que têm uma história e uma cultura totalmente diferentes da minha, mas temos uma boa relação.

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