A Vida Consagrada enfrenta hoje desafios que vão desde a resposta firme à crise dos abusos até à reinvenção do anúncio do Evangelho num tempo de “fé líquida”. Para nos ajudar a ler este momento, recebemos a irmã Ângela Coelho, recentemente eleita presidenta da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP) e também da União das Conferências Europeias dos Superiores Maiores (UCESM)

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
A Irmã Ângela assumiu recentemente a liderança dos Institutos Religiosos não só em Portugal, mas também à escala europeia, na UCESM. Com esta visão de conjunto, que retrato faz hoje da Vida Consagrada na Europa e no nosso país? Quais são as nossas maiores fragilidades e as nossas principais esperanças?
De facto, estar a liderar a UCESM permite uma visão muito mais ampla da realidade da Vida Consagrada na Europa. E a primeira palavra é esta: como somos diferentes, a grande diversidade entre os países do Sul, do Leste, do Ocidente Europeu, de que não tinha tanta consciência. Uma coisa é ler artigos e notícias, outra coisa é contactar com as pessoas, com os superiores maiores desses países e ver que, apesar das diferenças, há um grande desejo de comunhão. A palavra sinodalidade é, efetivamente, uma palavra muito presente na Vida Consagrada. Há fragilidades, sim, e prendem-se desde logo com a diminuição do número de membros e os desafios.
A famosa crise de vocações, não é?
Exatamente. E isto dá um desafio às instituições que têm de enfrentar, desde o repensar e reordenar missões até, às vezes, repensar carismas. Isto é uma fragilidade que também coincide com a nossa sociedade europeia.
Isto, sim, está mais ou menos unificado entre o Norte da Europa e o Sul da Europa, que é uma sociedade secularizada. Mas sabe que vejo nisto, nesta sociedade secularizada, precisamente uma esperança, ou seja, é neste contexto europeu e português que a Vida Consagrada pode ser aquilo que é, que é sinal profético na radicalidade do seguimento de Cristo. E isto, os jovens europeus, tanto quanto me consigo aperceber, e a minha experiência ainda é muito limitada, querem respostas radicais, sabe? sinto isto. E rejeitam esta tibieza, ser morno, pelo menos na nossa sociedade ocidental. Ou seja, ou eles se empenham ou não se empenham. Isto, respostas a meio gás, parece que não encaixam muito bem com a juventude da Europa deste tempo.
Ora, a Vida Consagrada é chamada, precisamente, a isto, a não dar respostas a meio gás. Se somos ou não capazes de o fazer é outra coisa. Mas vejo nesta característica das nossas sociedades da Europa um desafio ao qual a Vida Consagrada pode, de alguma forma, responder. E também reparo o sentido da vida, não é? Que numa sociedade materializada, ou que tem tudo, ou aparentemente tudo, mas que faltando Deus, falta um pouco este sentido de vida, também a Vida Consagrada pode aqui responder, é uma esperança.
E um elemento que reparei, agora que estive na Assembleia Geral na Croácia, onde fui eleita, é que o quanto a nossa vida em comum, ou seja, os consagrados têm, os religiosos, como definição identitária, a vida em comum, pode ser também um sinal profético para uma sociedade onde as relações interpessoais são tão frágeis.
A necessidade da comunhão?
Exatamente. Onde o sentido de compromisso mesmo relacional nas famílias, nas instituições, não existe ou está mais fragilizado; a Vida Consagrada na sua dimensão de vida em comum – concretamente a vida religiosa – pode ser um sinal profético que é uma esperança.
No comunicado da vossa última Assembleia, a CIRP comprometeu-se de forma muito clara com o apoio às vítimas de abusos sexuais e à proteção de menores.
Que passos concretos estão a ser dados pelas diferentes congregações em Portugal para passar do documento à ação, garantindo que as vossas instituições são espaços verdadeiramente seguros?
É uma boa questão, e de facto estamos a centrar-nos numa grande área que é a prevenção. Não podemos deixar acontecer estes casos outra vez, um só já será uma tragédia e um fracasso das nossas instituições. A prevenção passa pela formação contínua, que não podemos baixar os braços na formação, e também pelo fixar de procedimentos no nosso agir, nas nossas missões, nas nossas comunidades, nas pessoas com quem lidamos. Portanto, fixação de procedimentos que deem garantia que a vida religiosa é e oferece um ambiente seguro com quem contactamos.
A forma como a Igreja conduziu o processo tem sido criticada até por grupos de católicos. Existem razões para isso?
Eu penso que a Igreja Católica em Portugal está a dar passos concretos de responsabilidade, de compromisso, verdadeiramente a tocar-nos, ou seja, estamos envolvidos, está a ser uma resposta conjunta entre as dioceses e a vida religiosa, desde o princípio.
Claro que tem sobressaltos, claro que nunca é perfeito, claro que provavelmente nunca estamos satisfeitos e nunca, nunca responderemos à grande ferida que causamos nas pessoas a quem servimos. Mas penso que estão a ser dados passos concretos que significam claramente um pedido de perdão, um compromisso com as vítimas, que é quem queremos proteger, cuidar e ajudar, a quem estamos a dar assistência desde o princípio, do ponto de vista psicológico e agora, com as compensações financeiras. Portanto, eu acho que estão a ser dados passos concretos, sim.
Ainda nessa última Assembleia, o comunicado evocava um contexto de “fé líquida”. A nota referia um paradoxo de um afastamento da Igreja, mas aliado a uma intensa busca espiritual. Isto é um desafio para os consagrados, a ideia de ler o tempo presente e inventar novas formas de estar, e de anunciar o Evangelho?
Sim, esse é o grande desafio, e de facto é uma daquelas perguntas às quais temos sempre de responder e nunca gostamos da resposta que damos, nunca é a cabal. Eu penso que na vida consagrada, na vida religiosa, temos sempre de partir de Cristo. Ele é o ponto de partida, é o ponto de chegada do nosso agir e de nos compreendermos, da nossa identidade, e se olharmos para o Senhor Jesus e para aquilo que na teologia chamamos o realismo da encarnação, ou seja, nós vemos que Ele ao encarnar foi sempre fiel à sua identidade, a quem é: o Filho do Pai, mas muito adaptado e veiculando a mensagem de forma que aquela cultura onde ele viveu o pudesse compreender. Portanto, Cristo ao encarnar é sempre fiel à sua identidade, é o Filho do Pai, mas por outro lado é fiel à humanidade concreta, à cultura onde viveu, e isto é o grande desafio para nós consagrados. Não podemos ceder à tentação de exprimir a nossa fé de forma líquida, ou seja, sem consistência, sem a força da coerência do nosso testemunho de vida e da nossa identidade, quem somos, mas por outro lado temos também de saber, diria, inculturar-nos, adaptar-nos às pessoas concretas e às sociedades a quem servimos, com muita ternura, com muita compaixão – eu acredito muito nisto – e ter a consciência de que sim, somos cada vez menos, também se falava nisso na nossa Assembleia Geral, na formação.
Se calhar estamos a assumir aquilo que o Senhor disse que nós seríamos, fermento na massa, sal e luz. O sal na comida, obviamente o sal não é a refeição, a refeição é outra, mas o sal faz a diferença. Fermento na massa, pois nós os consagrados se calhar não somos a massa, não somos a realidade total, mas sem o fermento a massa não vai levedar, não vai crescer.
Sermos luz, pois a realidade é a cidade, estamos numa belíssima cidade do Porto. A realidade é esta, as pessoas a quem servimos, mas somos chamados a ser luz, sobretudo quando a cidade está às escuras, e ser pequeno, mas não perder a força da sua identidade, creio que poderá ser uma forma de respondermos a esta fé líquida que toca um bocado a nossa sociedade.
Nós assistimos recentemente à criação da nova Comissão Mista, que junta a Conferência Episcopal e a CIRP, e D. Nélio Pita dizia que ganhamos todos com este diálogo. De que forma é que esta articulação mais estreita com os bispos vem valorizar o papel dos religiosos e esbater aquela ideia de que por vezes a vida consagrada e a Igreja diocesana caminhavam em vias paralelas?
A pergunta é muito interessante, e sim, ora bem, a realidade eclesial é una, é única, tem dioceses, tem vida consagrada, mas não são realidades paralelas. Poderá ter havido épocas em que isto poderá ter sido, se calhar era a sensação que dava, mas efetivamente a vida consagrada…
Se calhar era um defeito da abundância, não?
Pois, provavelmente. Agora sim, estamos juntos e somos juntos porque servimos as mesmas pessoas, temos como ponto de partida o batismo, somos todos batizados, e este é o ponto que nos une. A colaboração entre as dioceses e a vida consagrada esteve sempre presente, sempre estará presente, mas eu penso que a opção desta comissão valoriza precisamente a comunhão. O que nos une esta mútua integração na missão, que no fundo é a mesma, é levar o Evangelho de Jesus cada um com os seus carismas específicos. Estamos a começar e estamos também a pensá-la e a estruturá-la bem. É interessante, é que esta comissão pode permitir que processos de elementos ou de pessoas que toquem concretamente e mais especificamente estas duas realidades sejam pensados e sejam apresentadas soluções a estes problemas em comum, ou seja, que o processo de compreender e de encontrar soluções seja comum desde o princípio até ao final. Isto, creio que é uma mais-valia para todos nós.
Acabamos de celebrar o primeiro aniversário da eleição do Papa Leão XIV. Há uma curiosidade, os dois últimos Papas vieram da Vida Consagrada, penso que é um sinal interessante. Gostava que comentasse também isso e gostava de saber o que é que a tem marcado mais nas palavras e nos gestos do Santo Padre nestes primeiros 12 meses de pontificado?
Sabe que eu acredito muito que o Espírito Santo sabe o que faz, e acredito obviamente, totalmente na ação do Espírito Santo na Igreja. Efetivamente a riqueza da Igreja é plural e é muito grande, e efetivamente a pluralidade desta riqueza exprime-se na diversidade de carismas, quer nos institutos de Vida Consagrada, quer também no clero diocesano, e o Papado também reflete essa riqueza da Igreja e essa pluralidade da Igreja, por isso que os últimos Papas que sejam ou tenham sido religiosos, é interessante, mas os anteriores não eram. O Papado, a escolha dos Papas está a exprimir concretamente que cada carisma tem o seu lugar numa Igreja que é plural e que estamos em comunhão. E aí parto já para aquilo que mais me tem tocado no pontificado do Papa Leão XIV. Eu estava na Praça São Pedro quando ele foi eleito, porque coincidia com um encontro de União das Superioras Gerais do mundo, portanto foi muito interessante, a providência divina quis-me ali, assim como a tantas outras religiosas. E perceber em primeiro lugar o seu lema – a unidade – eu não sabia, não conhecia muito bem, esta unidade naquilo que é um, somos um, que nos permite ver o quanto este homem tem como pensamento e como ação a unidade, a reconciliação, e é daqui eu creio que nasce outra marca fortíssima, o seu profundo apelo à paz. Desde aquele momento que sai, e da paz desarmada e desarmante, até aos gestos concretos, às palavras que tem dito até aos tempos de hoje, sem medo. Gosto muito desta sobriedade, desta liberdade interior que não tem medo de dizer, com palavras muito simples, estamos para anunciar o Evangelho. E o Evangelho da paz e da reconciliação…
E sem medo das críticas de Donald Trump, por exemplo?
É extraordinária a liberdade deste homem, e ao mesmo tempo a simplicidade com que o faz. Ver as suas entrevistas, por exemplo, a bordo do avião, é de uma forma tão simples, tão serena, mas tão segura, que se vê que estas palavras saem de uma profunda experiência de Deus e de um profundo estar enraizado em Cristo e no Evangelho. Claro que obviamente se percebe que é um Papa também em continuidade com o papado anterior, com o pontificado anterior, não há rutura, mas ele está a fazer o caminho com o seu estilo. Um estilo, direi, mais discreto, mas com uma grande capacidade de objetivar e de concretizar alguns passos, algumas intuições, que no pontificado de Francisco começaram, mas que ele agora consegue levar a cabo.
Nós estamos quase a terminar a nossa conversa, e estamos às portas de mais um 13 de maio. A irmã Ângela é vice-postuladora da causa de canonização da irmã Lúcia e também uma profunda estudiosa de Fátima. Olhando para Lúcia e para a essência desta mensagem, que apelo gostaria de deixar aos milhares de peregrinos que neste tempo de tantas incertezas e de guerras estão a rumar à Cova da Iria?
Boa questão. De facto, vivemos num momento de conflitos, como em 1917, e eu penso que os peregrinos podem encontrar em Nossa Senhora o que ela foi para Lúcia e para nós desde há cem anos, que o seu coração é este refúgio, que nos dá esperança, que nos ilumina nas noites da história e desta noite da história que vivemos com a instabilidade, com a guerra, que Nossa Senhora continua a ser e quer ser este refúgio, que nos dá segurança e onde podemos caminhar com ela até Deus e também encontrarem na irmã Lúcia – a quem faço apelo para rezarem pela canonização dela – encontrarem uma amiga que nos acompanha, ela que se chamava a si mesma Peregrina Oculta da Cova da Iria, que caminhe com os peregrinos até ao coração de Deus.
