Neste 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, é convidado da Renascença e da Agência Eclésia o padre Miguel Neto, sacerdote da Diocese do Algarve e autor da recém-defendida tese de doutoramento “Os Católicos e as Redes Sociais: competências digitais para uma vivência judaico-cristã no digital. O caso do clero português”

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
Na sua mensagem para esta jornada, o Papa alerta para os riscos da inteligência artificial, pedindo uma comunicação capaz de preservar vozes e rostos humanos. Há mesmo risco de uma certa mecanização na comunicação e como é que isso se evita?
Há riscos de uma certa mecanização da comunicação. Como é que se evita? Com uma palavra que continua o seu caminho e a ter importância na Igreja, depois da chamada de atenção a essa característica pelo Papa Francisco, que é o discernimento. Aqui é necessário o discernimento digital e o discernimento digital passa por conhecer a inteligência artificial, olhar para essa questão e ver como é que se pode usar sempre a favor do ser humano e para o anúncio dos valores éticos.
Acho que a palavra-chave em tudo aquilo que se fala é o discernimento digital.
E com as novas tecnologias ficamos também mais vulneráveis à manipulação, contra a qual o Papa também escreve. Que instrumentos estão à nossa disposição para evitar este risco?
Neste caso, os instrumentos já são os próprios da inteligência artificial. Ou seja, o que serve para fazer mal também pode servir para fazer bem. Depende da forma como nós estamos no ambiente digital. Aquilo que está no nosso interior pode ser bom ou pode ser mau. Um exemplo, saindo fora deste âmbito: um carro é uma coisa boa, mas ultimamente até tem havido pessoas que atropelam, atentados e tudo o mais.
Aqui é a mesma coisa. Há uma ferramenta muito interessante a nível de IA, de inteligência artificial, ‘perplexity’, que é oferecido nalguns serviços em promoções de bancos ou de redes, de cadeias, de serviços de internet.
O ‘perplexity pro’, por exemplo, é uma ferramenta muito útil para saber as fontes e para combater a desinformação.
Nós estamos numa fase de aprendizagem, o que é natural, quanto à utilização da IA, em particular na comunicação. Tem encontrado vontade em perceber os limites e as vantagens desta utilização? A Igreja Católica também está atenta a esta problemática?
Eu tenho encontrado vontade por parte das pessoas e essa vontade manifesta-se, por exemplo, nas perguntas que me têm feito depois da tese e mesmo antes. Toda a gente me pergunta e, ultimamente, fazem as mesmas perguntas, isso é interessante. Essa vontade também se manifesta naquilo que é o pensamento da Igreja.
Por exemplo, em janeiro de 2025, houve um documento ‘Antiqua et Nova’, dos Dicastérios para a Doutrina da Fé e da Cultura e Educação, também sobre a questão da utilização da inteligência artificial. Esso manifesta essa vontade, quer na Igreja, quer fora da Igreja. Os nossos bispos, por exemplo, nas próximas Jornadas Pastorais do Episcopado, vão conversar sobre a questão da inteligência artificial e sobre o lado antropológico e relacional de como é que podemos usar a inteligência artificial. Teoricamente, nós estamos despertos para esta realidade. Na prática, é mais difícil e temos de fazer muito caminho, ou seja, do ponto de vista teórico, há muito tempo que a Igreja chama a atenção para o digital: que não é uma ferramenta, mas um lugar, um ambiente onde o homem se relaciona. Na prática, as coisas não são assim e, por isso, fiquei bastante alegre quando o Papa enalteceu a questão da literacia mediática na sua mensagem [para o LX Dia Mundial das Comunicações Sociais] e quando, por exemplo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil editou um documento de 32 páginas a explicar como é que nós podemos estar perante o digital, inspirando-se na mensagem do Papa. São pequenos caminhos e que também nós podemos fazer em Portugal, é necessário fazer esse caminho.
A sua investigação revela que quase 72% dos padres portugueses, 71,8%, usam as redes sociais, mas regista também uma diminuição na intencionalidade do uso na pós-pandemia. A que é que se deve este recuo ou cansaço?
Essa pergunta até foi feita precisamente por um elemento do júri do doutoramento e é uma pergunta que se explica porque em 2021 era necessário – e o meu trabalho incidia muito sobre isso, a questão da utilização do pós-pandemia – o uso do digital para o contato direto.
E em 2023 diminuiu, como está a dizer. Porquê?
Lá está, pela falta de literacia mediática e falta de conhecimento de que é um lugar. Ou seja, quando for necessário utilizamos aquela ferramenta, quando não é necessário não usamos. E até achamos que aquilo é perigoso, que pode ser manipulável, que pode dar-nos mal a informação, que as coisas podem ser destruídas, que pode haver questões de ódio, desinformação. Temos medo. Em vez de conhecermos, temos medo e deixamos de usar. Ou seja, usamos, mas não com intencionalidade. Usamos por uma questão prática.
Estamos a falar de redes sociais e falava dos receios que existem. Sabemos que os algoritmos alimentados por essa inteligência artificial recompensam muitas emoções rápidas e penalizam a reflexão. Isto também tem ajudado a promover espaços de incitamento ao ódio, a polarização, à promoção da indignação. Há alguma forma de travar esta lógica?
É com formação. Eu não consigo travar essa lógica sem ser com formação. Não só na Igreja, mas fora da Igreja.
O que eu noto, por exemplo, a partir do interesse no meu trabalho, mesmo antes dele ser defendido e de eu iniciar o foco na investigação, é que as pessoas que estudam isto e que se preocupam com isto fora da Igreja – mesmo quem é indiferente à vivência cristã, pessoas que têm um cristianismo social ou não têm o sentido cristão da vida e ético que nós vivemos, que a Igreja difundiu na Europa – pedem ajuda para que a Igreja transponha os seus valores para este ambiente, precisamente para combater essa questão. Ou seja, para os estudiosos é necessário que a Igreja esteja no digital, não só para anunciar a questão pastoral, as suas festas, pôr as coisinhas muito religiosas nos grupos de Facebook, mas que a Igreja, sobretudo, transmita os valores que fez com a sociedade europeia. E isso é algo em que eles pedem ajuda.
Por exemplo, a mim, como sacerdote, pede: “ajudem-nos, por favor, a humanizar o digital. Ajudem-nos, por favor, a colocar ética no digital”. Porque a verdade é essa, os valores a que agora nós chamamos humanistas, éticos, são inspirados no cristianismo, no Evangelho. E pedem-nos ajuda. A mensagem do Papa fala precisamente nisso.
O problema aqui é que a Igreja não conhece estas realidades para além da componente técnica, para além da componente de como usar as coisas tecnicamente, ou como fazer um vídeo, ou muitas vezes coloca imagens ou coloca vídeos que não é evangelizar, é propagar atividades da Igreja, é explicar coisas da liturgia, não há essa questão do interesse.
Por outro lado, há um outro problema que neste momento está a surgir: mesmo dentro da própria Igreja, há desinformação propagada por membros da Igreja ou por pessoas que se dizem católicos praticantes. E isso é um outro problema que leva a uma fragmentação, de que o Papa também fala na mensagem. É uma outra questão.
O terceiro e último problema que é uma questão muito preocupante e que no Brasil, por exemplo, já desde 2024 se falam disso: a questão dos influencers. Os influencers fazem com que as pessoas vivem à volta deles. E isso é propagado pelas bolhas, pelos algoritmos, pela questão do tribalismo digital.
No Brasil, e está a começar a haver também em Portugal, os influencers ditos cristãos não são missionários: utilizam a parte do digital para criarem comunidades à sua volta, em vez de anunciarem a comunidade enquanto vivência cristã.
Também nos estão a pedir ajuda para isso, para que a Igreja chame à atenção dos seus influencers, para não criarem comunidades à sua volta. O conceito de comunidade mudou com o digital, mas tem de haver uma passagem de influencers digitais católicos para missionários digitais. E isso é uma questão que também nos preocupa muito. As pessoas que estudam a literatura mediática sentem que a Igreja pode ter um papel importante nisso, só que não está a ter, a Igreja neste momento está a usar o digital consoante as mesmas regras que os que não são cristãos usam. É essa a minha questão.
De volta à sua tese, ela conclui que existem lacunas formativas significativas e propõe um modelo de competências em literacia mediática, exatamente o que o Papa agora pede. O que é urgente mudar na formação dos sacerdotes e já agora, que conselhos dá aos profissionais dos media na utilização das redes sociais?
Quanto aos profissionais dos media nas redes sociais, o conselho que eu dou é investigar antes de publicar e não acreditar em tudo aquilo que se vê. Investigar, fazer pesquisa crítica, o tal discernimento, é importante fazer pesquisa crítica e conhecer. Na questão da formação dos sacerdotes, é precisamente a formação, conhecer as coisas.
O que se passa neste momento é que existe uma utilização acrítica do que está no digital, porque não há formação. Temos sacerdotes a veicular informações falsas, sacerdotes que se calhar utilizam perfis falsos para propagar discursos de ódio ou criticar os seus bispos ou fazer anúncios de coisas de que não gostam. Não há formação, é necessário o conhecimento, é necessário ter a experiência e é necessário conhecer a realidade, literacia mediática. Eu proponho na tese um modelo que fui convidado a explorar e a concretizar pelo grupo de investigação de que faço parte: um quadro de competências mediáticas para os cristãos.
Inicialmente esse grupo quis falar sobre a questão das competências mediáticas aplicadas ao clero, aos catequistas, isso tudo, e eu achei – depois vimos que, de facto, é verdade – que é necessário partir do geral para o particular. Temos de criar um quadro de competências mediáticas para os cristãos. E tudo isto parte daqueles três pilares de que o Papa fala na sua mensagem: primeiro, a responsabilidade. Somos responsáveis por aquilo que publicamos; temos de ser responsáveis por aquilo que dizemos, publicamos, divulgamos. A cooperação entre todos, cooperar, ver o que é que o outro faz, perguntar. E a questão da educação, educar para o uso das redes. São esses três pilares.
A Igreja pensa nas coisas do digital muito bem desde 2002. Não é só agora que o Papa fala da necessidade de literacia mediática. Podíamos usar outras palavras, mas a Igreja desde 2002 fala que o digital é um ambiente de evangelização. Está tudo escrito, só é preciso colocar em prática.
O problema é que os documentos da Igreja, neste âmbito, como noutros, não chegam a concretizar-se.
Temos também de refletir como é que se comunica atualmente, em particular, as grandes potências, os grandes líderes, a influência que as novas tecnologias têm, aquilo que se designa por pós-verdade. Não podemos deixar de perguntar pela polémica que, nas últimas semanas, tem colocado o Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, a atacar o Papa Leão XIV. Como é que se consegue perceber isto? É uma forma de encobrir problemas, decisões erradas na questão do Irão? Ou é esta a incapacidade de olhar para as consequências daquilo que se publica e que se diz?
Nada é inocente. Primeiro aspeto: nada é inocente. Pode ser inocente no campo da Igreja, mas neste caso o Papa comunicou muito bem. Mas nada na comunicação, em grande escala, é inocente. Nada.
Uma das coisas que é importante e que faz parte da literacia mediática é conhecer quem são os proprietários destas plataformas de inteligência artificial, destes chatbots, e as plataformas e as redes sociais. É interessante, temos de saber quem são os proprietários, o que é que eles pretendem, o que é que eles buscam.
Obviamente, há desvios de atenção. Isso é uma estratégia comunicativa que existe, pode faltar a estratégia de comunicação à Igreja, mas neste caso não é. Não é só o Irão, é o Irão, é o que se passa em Israel e no Líbano, é os famosos ficheiros Epstein. É um desvio de atenção, sim, nitidamente. Acontece com o Trump e acontece em Portugal. Acontece em Portugal e, se nós não tivermos cuidado, isto volta-se contra a Igreja, porque há gente que está aparentemente usando aquilo que é o cristianismo para difundir uma coisa que não é cristianismo.
Quando se diz que os bispos são “comunistas” porque querem aceitar imigrantes, é necessária uma estratégia da Igreja. Isso é dito, por exemplo, pela extrema-direita em Espanha. Quando a extrema-direita em Espanha diz que a Igreja está a favor do governo porque precisa do dinheiro que o governo dá à Cáritas, é necessário que a Igreja mostre, numa estratégia de comunicação, como é usado esse dinheiro. Nós não temos estratégia, mas eles têm e é necessário fazer isso. Há cristãos não católicos, neste momento, a usar o ambiente digital para propagar uma mensagem aparentemente cristã, mas que é pouco cristã, é pouco evangélica e isso nada é inocente, nada, absolutamente nada. Neste momento, em muitos casos, como a Igreja Católica se está a voltar a chamar a atenção contra essas plataformas, já se começa a dar mais importância a grupos evangélicos ou de outras confissões, aparentemente seitas cristãs, que são menos controladas porque a Igreja ainda assim tem uma estrutura piramidal e é mais difícil de contornar.
Na sua mensagem para este dia, o Papa diz que não se podem enterrar os talentos recebidos. Depois de estudar tão a fundo a vivência no digital, mantém a esperança? Como é que estas tecnologias podem ser colocadas, de facto, ao serviço da evangelização e do bem comum?
O primeiro aspeto é difundir a verdade e atacar o que não é verdade nas redes. E o seguinte: anunciar a verdade do Evangelho. Há uma coisa boa no digital, há várias, mas uma das coisas boas é a questão da difusão de conteúdos quando o povo se une para pedir ajuda, e isso é bom, que há espaço para as coisas boas no digital.
É necessária uma estratégia para anunciar a verdade, combater a mentira, a tal responsabilidade, e ter sempre presente que não nos interessa anunciar somente uma pessoa que esteja aqui, interessa-nos anunciar a figura de Jesus Cristo e a sua mensagem. E isso faz-se pela verdade e pela autenticidade, pelo pensamento crítico, pelo anúncio da comunidade, pelo anúncio da dignidade da pessoa e do outro. Uma das coisas com que nós temos de ter cuidado, por causa do tribalismo digital e dos algoritmos, é que estamos a deixar de pensar nos outros e a focar-nos naqueles que pensam como nós.
E temos de combater isso, com a preocupação pelo outro, ver que o outro, por pensar diferente de nós, não é o nosso inimigo. Simplesmente, ver as coisas de outra forma e tentar entender. Isso faz parte do tal discernimento digital e humano.
