Luísa Gonçalves, Diocese do Funchal
A campanha promovida pela Diocese do Funchal para apoiar as vítimas dos sismos na Venezuela atingiu um resultado que merece ser sublinhado. Os 122.736,36 euros já reunidos representam muito mais do que um valor financeiro. Para uma diocese com apenas 96 paróquias, trata-se de uma resposta absolutamente extraordinária e de uma demonstração clara da capacidade que a sociedade madeirense continua a ter para olhar para lá das suas próprias dificuldades e responder quando alguém precisa.
O montante resulta do ofertório realizado em todas as missas celebradas na Diocese no passado fim de semana, 4 e 5 de julho, ao qual se juntaram contributos de comunidades religiosas e ofertas individuais. A Diocese anunciou que a totalidade desta verba será transferida para a Cáritas da Venezuela, entidade que fará chegar a ajuda às populações atingidas pelos sismos. À medida que continuem a chegar novos donativos aos serviços diocesanos, serão efetuadas novas transferências.
Vivemos tempos em que é frequente ouvir dizer que as pessoas estão mais fechadas sobre si mesmas, mais preocupadas com os seus próprios problemas e menos disponíveis para ajudar os outros. Por isso, uma resposta desta dimensão merece ser destacada. Não apenas porque representa uma quantia muito significativa, mas porque resulta de milhares de pequenos gestos de pessoas comuns, que decidiram transformar a sua preocupação em ajuda concreta.
A comparação feita por D. Nuno Brás ajuda a perceber melhor a dimensão do que aconteceu. Habitualmente, as campanhas de renúncia do Advento rondam os 15 mil euros e as da Quaresma chegam, nas mais generosas, aos 30 mil. Reunir agora mais de 122 mil euros mostra que esta causa mobilizou os madeirenses de uma forma verdadeiramente excecional.
Há uma explicação evidente. A Venezuela nunca foi um país distante para a Madeira. Durante décadas acolheu milhares de emigrantes madeirenses que ali construíram as suas vidas, criaram famílias e ajudaram a desenvolver aquele país. Muitas famílias madeirenses continuam a ter filhos, pais, avós, tios ou primos do outro lado do Atlântico. Quando a Venezuela sofre, há sempre alguém na Madeira que sente essa dor como sendo também sua.
Mas reduzir esta campanha apenas aos laços da emigração seria injusto. A resposta veio das paróquias, das comunidades religiosas e também de muitos fiéis que quiseram contribuir individualmente. Isso revela um sentido de comunidade que continua vivo e que, em momentos decisivos, consegue ultrapassar diferenças, dificuldades económicas e preocupações pessoais.
Num tempo em que tantas notícias alimentam a divisão, o conflito e a desconfiança, iniciativas como esta recordam que existe outra forma de construir sociedade. A solidariedade não resolve todos os problemas do mundo, mas faz uma diferença concreta na vida de quem recebe ajuda e transforma também quem decide ajudar.
Ultrapassar os 122 mil euros tem ainda um simbolismo muito especial. Como referiu anteriormente o bispo do Funchal, este valor aproxima-se da ajuda disponibilizada pelo próprio Vaticano para responder à emergência na Venezuela. Que uma diocese insular, com uma população muito inferior à de tantas outras dioceses portuguesas e europeias, consiga reunir uma quantia desta dimensão em poucos dias é um feito que merece ser reconhecido. Não pela competição dos números, mas porque demonstra a força de uma comunidade quando se une em torno de uma causa maior do que ela própria.
Naturalmente, o verdadeiro sucesso da campanha não se mede apenas pelo montante angariado. Mede-se na rapidez com que esse apoio chegará à Cáritas da Venezuela e, sobretudo, no alívio que poderá proporcionar às famílias atingidas pelos sismos. A Diocese informou que a transferência da verba já recebida será efetuada de imediato, garantindo que a ajuda chegará o mais rapidamente possível ao terreno.
No comunicado divulgado esta quinta-feira, D. Nuno Brás agradece “este verdadeiro sinal de solidariedade e proximidade do povo madeirense para com os irmãos da Venezuela, que continuam a viver momentos de verdadeira aflição e necessidade”. O bispo deixa ainda um apelo para que esta corrente de solidariedade não termine com o contributo financeiro: “Continuemos a acompanhar estes nossos irmãos, sobretudo com a proximidade da oração.”
Num mundo habituado a contabilizar quase tudo, há números que contam histórias. Estes 122.736,36 euros contam a história de uma Madeira que não esquece as suas raízes, que mantém uma ligação afetiva à Venezuela e que, perante o sofrimento, escolheu responder com generosidade em vez de indiferença.
É uma notícia que merece ser celebrada. Não pelo valor em si, mas pelo que ele representa: a prova de que a solidariedade continua a ser uma das maiores riquezas do povo madeirense e que, mesmo sendo uma diocese pequena, quando se trata de ajudar quem sofre, consegue realizar coisas verdadeiramente extraordinárias.
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