Paulo Rocha, Agência Ecclesia
Em cada ano, assinala-se o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Uma rotina no calendário, tantas vezes esquecida nas comunidades, que tem o propósito de refletir sobre a relevância da comunicação. Não se trata de uma questão da atualidade, mas de todos os tempos, desde as parábolas dos Evangelhos aos “gostos” das redes sociais.
Este ano, em 2026, na emergência da inteligência artificial nos diferentes domínios da vida pessoal e social, o Papa alertou para a necessidade de preservar “vozes e rostos humanos”. Esse foi o tema da mensagem de Leão XIV para a 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Sim, trata-se de uma jornada, a única que Concílio Vaticano II instituiu e que se assinala no domingo anterior ao Pentecostes, desde os anos que se seguiram à conclusão desta reunião magna de representantes da Igreja Católica de todo o mundo, no Vaticano.
Entre as várias iniciativas que assinalaram esta jornada, nas várias dioceses, o Secretariado Nacional das Comunicações Sociais promoveu um encontro que decorreu na Agência Lusa (com toda a gratidão pelo acolhimento). Uma oportunidade para conhecer, no local, o trabalho que a maior redação de jornalistas do país desenvolve, na sua sede e em tantas delegações por todos os distritos do país e por todo o mundo, nomeadamente o lusófono, e para debater um tema que é impossível esconder: o lugar o jornalismo especializado nas redações generalistas.
Infelizmente, o jornalismo é cada vez mais generalista, o que exige ao jornalista ser “especialista” sobre um tema de cultura, num dia, por exemplo, e, no seguinte, ser-lhe pedido que trate qualquer coisa sobre economia ou desporto. É a condição dos meios de comunicação social na atualidade, com consequências muito impactantes no jornalismo do futuro.
Nestas circunstâncias, quando em causa está a religião, é ainda mais difícil que seja considerado como um tema para o jornalismo que exige especialização, conhecimento, relação com diferentes protagonistas, de diferentes religiões. Por outro lado, quando um meio de comunicação social trata este tema, quase em exclusivo, como acontece com a Agência Ecclesia, imediatamente é catalogado como “confessional”. Como se fosse possível um jornalismo “confessional”. Deixaria de ser jornalismo… Como deixaria de ser o jornalismo declaradamente de um clube de futebol ou de um partido político. Seria propaganda, publicidade, não jornalismo.
Quando em causa está uma temática, relacionado com religiões, desporto ou política, é sempre possível fazer jornalismo, seguindo as indicações deontológicas que definem a forma de atuar do jornalista. E essa é condição única.
Se pensarmos a forma como a religião foi sendo abordada na comunicação social, nomeadamente a Igreja Católica, verificamos que, nas últimas décadas, a aposta crescente aconteceu na assessoria de imprensa, na constituição de gabinetes de comunicação que divulgam, com o propósito de criar impacto, a instituição e as iniciativas que promove. E bem!
Infelizmente, a mesma aposta não aconteceu no jornalismo, na mediação necessária que os profissionais de comunicação devem fazer entre qualquer acontecimento e todos os públicos. E essa mediação é missão exclusiva dos jornalistas. Por isso, urge apostar no jornalismo, também no contexto da Igreja Católica. Essa é a condição para criar distâncias da autorreferencialidade, da propaganda, e ter a possibilidade de falar para todos os públicos. Foi assim há dois mil anos; assim terá de ser também hoje!
PS. O Dia Mundial das Comunicações Sociais é celebrado no Domingo das Ascensão, uma semana antes do Pentecostes. Uma jornada que convoca todos os crentes e todas as comunidades para a importância de assegurar uma comunicação verdadeira e transparente. E todos podem contribuir para que assim seja: na paróquia, na diocese e em todo o país.
