No dia em que se deu a conhecer a “marca” da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, a Renascença e a ECCLESIA conversam com Duarte Ricciardi, secretário-executivo da organização da JMJ 2023. Uma entrevista em que se abordam os desafios colocados pela pandemia e o desejo de que os atuais projetos se concretizem

 Entrevista conduzida por José Pedro Frazão (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Duarte Ricciardi.
Foto: Agência ECCLESIA/PR

 

Este é um momento de relançamento mediático da Jornada? É um novo elã que marca a partir de agora a Jornada Mundial da Juventude?

Sim. É um dos primeiros passos mais mediáticos, internacional, desta jornada que se realiza em Lisboa. O logo em si pretende exaltar o caminho que queremos fazer nos próximos três anos, juntar tanto portugueses como estrangeiros. O próprio logo fala do caminho que vamos fazer agora, em conjunto, para este que vai ser o maior evento de juventude que vai acontecer em Portugal.

 

O que se encontra da identidade e religiosidade portuguesa nesta que vai ser a imagem de marca nestas jornadas?

É um logo que tem as cores de Portugal, em primeiro lugar. O centro e o ponto de partida foi a cruz. Nela temos um caminho, que tem a ver com o sentido de peregrinação, muito português; por outro lado, mostra a vontade de que os jovens se levantem e saiam que vão em caminho. Depois temos uma componente muito portuguesa que é o terço, com referência muito grande a esta vivência e a Nossa Senhora de Fátima. Somos um povo muito mariano. É um logótipo que, sendo internacional, é também muito português. Fala de Portugal para o mundo.

 

O próprio tema escolhido pelo Papa inspira-se na Virgem Maria…

Sim, o tema é ‘Maria levantou-se e partiu apressadamente’ (Lc 1, 39). O logo pretende inspirar os jovens, todos, para fazer isso.

 

Agora falta o hino. Quando será divulgado?

Falta o hino e faltam algumas outras coisas… O hino vai ser um marco também importante, mas ainda não existe data para a divulgação. Queremos lançá-lo em breve, está a decorrer o processo, como o do logo. É um momento para unir as pessoas em torno das jornadas…

 

Vai ser divulgado até ao final do ano ou só em 2021?

Não consigo precisar, neste momento.

 

Ainda está em processo de seleção?

Sim, ainda está em processo de seleção.

 

A decisão final vem do Vaticano…

Sim, o que aconteceu com o logo é que fizemos um grande concurso internacional, onde participaram centenas de pessoas de muitos países. Foi analisado por uma equipa internacional, mas em última instância quem escolheu foi o Dicastério [Leigos, Vida e Família] do Vaticano. É o processo normal.

 

Foto: Ricardo Fortunato/RR

Estamos em contexto de pandemia, com os números de infetados a crescer, números recorde… Tudo isto não faz repensar formatos, mesmo num cenário em que a pandemia já não exista? Há a perceção de que poderá não ser uma Jornada igual às outras, que poderá ter elementos diferentes, porque esta pandemia pode levar a alterações de comportamento?

É um ponto importante no nosso planeamento. Não conseguimos prever o que vai acontecer até 2023. Sabemos que, tipicamente, esta jornada tem um ponto alto, um encontro com centenas de milhares de pessoas. Tem um lado presencial muito forte, com destaque para a Vigília e a Missa final, num espaço onde não se cumprem os requisitos de distanciamento social. Neste momento, não temos a visibilidade do formato, mas queremos que se mantenha a essência da Jornada. O acolhimento, o encontro entre a Igreja e os jovens, entre os próprios jovens, de Portugal para o mundo. Quanto ao formato em si, obviamente, vamos acompanhar o que for acontecendo.

 

Já tivemos um adiamento para o verão de 2023. Em 2025, vai haver um Ano Santo, pelo que não é previsível que tenhamos mais adiamentos…

Existe uma vontade muito grande de todos que a Jornada aconteça em 2023. Inclusive do próprio Papa. Todos temos muita vontade, mas nesta fase não conseguimos dar certezas de nada… Queremos que seja mesmo em 2023 e estamos a trabalhar para isso.

 

A pandemia tem mexido com a organização? É só uma questão de as reuniões serem online?

Temos de nos adaptar a este tempo, como todos. Por exemplo, o lançamento do logo foi um acontecimento praticamente 100% digital. Isso já foi uma adaptação ao tempo do Covid. No futuro provavelmente teremos de fazer atividades parecidas. Estamos a adaptar os formatos, a maneira como trabalhamos, com as reuniões em videoconferência, por exemplo. Mas mantemos o mesmo espírito e essa é a vontade, sempre.

 

Além da questão sanitária, sabemos que a crise económico-financeira vai ficar nos próximos anos. Isso vai afetar as estruturas de acolhimento a milhares de jovens?

Não sabemos o que vai acontecer até 2023, mas temos muita esperança de que esta pandemia passe e Portugal recupere, também em termos económicos e sociais. Não conseguimos prever os impactos sociais que esta pandemia possa ter, mas temos esperança de que em 2023 estejamos recuperados.

 

O compromisso das autoridades mantém-se, em ter tudo pronto para que Lisboa receba a Jornada?

Tem havido sempre um grande empenho por parte de todos os intervenientes. Sentimos que existe uma grande vontade por parte de todos.

 

Foto: Ricardo Fortunato/RR

As jornadas realizam-se em Lisboa. De que forma vão envolver as outras dioceses portuguesas?

A Jornada em si, fisicamente, acontece em Lisboa, mas sentimos que é algo de todo o país. Já temos uma estrutura que envolve todas as dioceses de Portugal, reunimo-nos regularmente e partilhamos muitas coisas. Por norma, na semana anterior à Jornada, existem as pré-jornadas, em várias dioceses, é um evento onde estarão os próprios jovens que vêm do estrangeiro. Além disso, na preparação, todas as dioceses participam nas atividades, farão as suas próprias dinâmicas.

 

Estamos num momento em que as pessoas vão protelando deslocações, mas a organização precisa de ter uma ideia de quem vem. Estamos a ver menos afluência a Portugal, como no caso de Fátima. Espera que tudo esteja normalizado até 2023.

Esperamos que sim. Por todos nós, pelo mundo inteiro. Agora, de facto, é difícil dizer quantas pessoas virão, nós trabalhamos com essa incerteza, com cenários… Vai depender da evolução da situação.

 

A entrega da Cruz e dos símbolos da JMJ já foi adiada e agora está prevista para a Solenidade de Cristo Rei, no encerramento do ano litúrgico. Ainda se prevê essa data? Quem irá a Roma?

A data mantém-se (22 de novembro), mas tínhamos inicialmente uma comitiva grande para ir a Roma, em março deste ano, mas foi adiado devido à pandemia. Já cancelamos com todos estes jovens, face à situação sanitária não vamos ter uma peregrinação de 900 pessoas ou uma comitiva portuguesa muito grande. Não sabemos ainda o formato, quem vai efetivamente receber os símbolos.

 

Até porque a situação na Itália também se está a agravar…

Na Itália, no Panamá (sede da JMJ em 2019), porque a ideia é que houvesse também jovens de lá. A pandemia tornou tudo isso mais difícil. Mas sabemos que vai acontecer no dia 22 de novembro.

 

A peregrinação dos símbolos pelos países lusófonos também está condicionada?

A vontade mantém-se, para que isso aconteça nalgum momento, mas nesta fase não conseguimos ter ajuntamentos de pessoas. Não sabemos ainda como é que vamos tratar os símbolos, quando chegarem a Portugal, mas nesta fase não vai haver essa peregrinação.

 

Os símbolos nasceram para peregrinar… Vai ser contranatura estarem fechados?

A nossa vontade é manter a natureza das coisas, essa natureza da peregrinação. Esperamos arranjar uma forma criativa – e a criatividade é o ponto de ordem nesta fase da pandemia – para que possa acontecer.

 

Em relação ao espaço físico da Jornada, junto ao Tejo, como está a decorrer o diálogo com as Câmaras de Lisboa e de Loures?

Sim, junto ao Trancão, de um lado é Lisboa, do outro é Loures. As conversas estão a decorrer muito bem, é o processo normal. Obviamente, com a pandemia, houve assuntos urgentes a tratar, mas já retomamos as conversas. Há muita vontade, nas duas câmaras.

 

Foto: Agência ECCLESIA/PR

A organização já está no terreno, há trabalho feito? O que é que se vai seguir, depois da apresentação da imagem?

Existe um Comité Organizador Local, que é a estrutura central, que trata dos assuntos da Jornada. Há muitas pessoas a trabalhar, muitos jovens voluntários, nas diversas frentes. Nas redes sociais, por exemplo, há páginas em 22 línguas. Nesta fase, estamos mais dedicados ao planeamento, mas penso que a partir de agora vamos começar a comunicar mais, porque demos o primeiro passo de um caminho mediático.

 

É uma estrutura complexa, com pessoas de várias áreas.?

Não diria complexa. Acho que tem todas as áreas que são importantes, para a realização de um evento desta dimensão: logística, pastoral, conteúdos, contactos entre a organização, peregrinos e voluntários. Depois temos a comunicação, a coordenação geral, o financiamento, a secretária geral. No fundo, toda uma estrutura, como numa empresa.

 

Como surgiu este convite para as funções que está a desempenhar e como é que encarou esse desafio?

O convite surgiu em que se sentiu no Comité Organizador que era necessário um pivot na coordenação. Eu vi isto como oportunidade única de participar num acontecimento tão grande, para Portugal, para a Igreja, para os jovens. Eu já participei em duas JMJ (Colónia e Madrid) e foram sempre momentos muito fortes. Fazer parte desta organização é um privilégio muito grande. Foi uma decisão rápida.

 

O Comité Organizador Local da JMJ tem dito que continua “a dar prioridade às necessidades daqueles que têm sido afetados pela pandemia”… Em abril, foram oferecidos 35 computadores portáteis à Cáritas de Lisboa, para ajudar alunos carenciados a terem aulas à distância. Que outras ações solidárias estão previstas?

Está no espírito do Comité este apoio às pessoas que sofrem com esta pandemia. Aconteceu esse ação, dos computadores, a partir de um donativo que recebemos e conseguimos partilhar. Mas temos pensadas muitas atividades de voluntariado, para que haja um caminho não só de oração e comunicação mas também de ação.

No início do Advento (29 de novembro) vamos fazer uma ação de voluntariado em todo o território nacional, dinamizada pelas dioceses. Tudo isso focado nas pessoas que estão a sofrer e nas possibilidades que temos para as ajudar.

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