Esta semana viajamos para conhecer uma comunidade erguida pelas irmãs franciscanas após as trágicas cheias de 2000. A maternidade e o centro de saúde locais enfrentam hoje uma carência extrema, lutando para cuidar de milhares de famílias sem medicamentos básicos. Para nos falar da missão de jovens universitários que partem em breve para apoiar estas mães e crianças, a entrevista conjunta Ecclesia/Renascença recebe a responsável pelo projeto, Teresa Mello e Castro

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
Um dos eixos do trabalho é o apoio a dois orfanatos. É uma das questões que também faz com que esta entrevista seja emitida no Dia da Mãe. Como é que surgiu a ideia de ir ao encontro destas pessoas e de as ajudar?
Em 2023, eu viajei a África com a minha família e lá nós conhecemos o bairro de Mumemo e, na altura, as irmãs deram-nos a explicar a história do bairro, que, como explicaram no início, nasceu na sequência das cheias de 2000. Na altura foi a irmã responsável que pediu um terreno ao governo de Moçambique para começar o projeto de recenseamento. O terreno era apenas mata. Foram as próprias irmãs que carregaram os materiais todos para a construção de casas e Mumemo nasceu. Atualmente acolhe cerca de 10 mil pessoas e as irmãs construíram um projeto inacreditável de casas, dois orfanatos, quatro escolas, um centro de saúde. E o dia-a-dia delas é a entrega constante a cada pessoa e a cada necessidade do bairro. E, por isso, quando as irmãs nos deram a conhecer a história do bairro, disseram também que tinham quartos só para voluntários, que estavam quase sempre vazios com a falta de ajuda que têm e eu, nesse momento, regressei a Portugal, assim com o desejo de voltar lá para fazer voluntariado e foi em outubro de 2025 que este desejo ganhou forma. Foi através do contato que eu ainda tinha de um responsável local, que é o Dércio. E disse-lhe que desde 2023 Mumemo não me saía da cabeça e queria voltar lá e queria saber se precisavam da minha ajuda e ele disse, claro que sim, traz quem quiseres. Então desafiei assim uns amigos meus mais próximos e pronto, somos agora 21 jovens que vamos para lá entre 12 de julho a 8 de agosto.
Estamos a falar de centenas de crianças e não só, e de mães e do outro trabalho que as irmãs fazem. O que é que os voluntários vão procurar fazer neste contexto particular e difícil?
Nós sabemos que não vamos acabar com a pobreza em Mumemo. O nosso principal objetivo é levar alegria e dignidade àquele bairro, mostrar que eles não são esquecidos e não estão sozinhos. Lá há dois orfanatos, um feminino e um masculino, e cada um tem capacidade para acolher cerca de 150 crianças. Nós vamos estar a acompanhar as crianças tanto na escola, como após a escola, vamos estar a fazer atividades com elas. Vamos integrar o trabalho diário das irmãs e estar preparados para qualquer eventualidade.
A Teresa já aqui falou das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, como é que descreve a força destas mulheres consagradas, que ao longo de mais de duas décadas construíram orfanatos, escolas e um centro de saúde, assumindo um verdadeiro papel maternal com esta comunidade?
Sim, é verdade, elas são umas verdadeiras mães, não só para as crianças dos orfanatos, mas para todas as pessoas daquele bairro. O Estado de Moçambique, o governo não apoia em quase nada. Por exemplo, o Estado exige que o centro de saúde tenha certos tipos de materiais, mas depois também não dão apoio para que elas consigam ter esses materiais, não apoiam também a escola profissional que as irmãs têm, e por isso as irmãs estão sempre disponíveis para qualquer necessidade que possa surgir e encaram todas as dificuldades com um sorriso na cara e com uma alegria, que transmitem às pessoas também. As crianças, por exemplo, não são só as que são levadas pela segurança social. Há muitas crianças que são abandonadas pelas famílias e que vivem sozinhas, elas próprias batem à porta dos orfanatos de Mumemo a pedir ajuda às irmãs. E as irmãs disseram-me também que quando as raparigas, os rapazes saem dos orfanatos para irem trabalhar, para construir uma família, para se integrarem na sociedade, muitas delas voltam para agradecer às irmãs e explicarem a importância que elas tiveram na vida delas.
Sabemos que falta equipamento fundamental, especificamente material de maternidade e um ecógrafo. Que relatos lhe chegam sobre o impacto desta carência extrema nas mulheres grávidas e nas mães daquela comunidade que precisam de dar à luz ou cuidar dos seus filhos doentes?
Num outro dia estava numa reunião com o Dércio, que é o responsável local, e ele no telefonema disse-me que no dia anterior uma mãe tinha dado à luz gêmeos no centro de saúde e nem sequer havia fraldas para receberem as crianças. Por isso estamos a falar não só em termos dos materiais como o ecógrafo, mas dos materiais mais básicos. Não têm pensos, não têm luvas, não têm ataduras. Neste momento o centro de saúde apenas tem paracetamol, não tem mais nenhum medicamento e mesmo as caixas onde os documentos do centro de saúde e dos pacientes são guardados são caixas de cartão. As paredes também têm tinta a cair, por isso falta mesmo dar dignidade àquele centro de saúde.
No vosso apelo sublinham também que cada contributo pode representar a diferença entre a vida e a morte. Perante estas escassez de antibióticos, material de esterilização e luvas, que tipo de ajuda urgente pretendem garantir para este centro de saúde através do apoio financeiro direto que estão a tentar angariar?
Eu diria que qualquer ajuda é mesmo muito importante para este centro de saúde e para que consigam continuar a responder a todas as necessidades. Não são só os habitantes de Mumemo que vão a este centro de saúde, há bairros também nas periferias em que os habitantes vão até este centro de saúde e falta muita ajuda médica de profissionais de saúde. O apoio financeiro é essencial para que as irmãs consigam ter o material básico para conseguirem responder às múltiplas necessidades que encaram, é preciso de tudo.
A Teresa já em dois momentos falou da escassez de apoio por parte do Estado e estamos a falar de um país onde ainda se sentem grandes dificuldades. Eu perguntava-lhe que ideia tem de como é que o Estado está a agir no apoio à maternidade?
O Estado não apoia este centro de saúde. Claro que Moçambique é um país muito pobre e por isso tem muitos lados para onde precisa de intervir e Mumemo eles exigem que tenham certos tipos de materiais, mas não dão estes materiais, não apoiam, não ajudam para que as irmãs consigam ter estes materiais. São as irmãs que têm de constantemente lutar e ver as várias maneiras que conseguem suprir as necessidades.
Falavas ainda há pouco do que foi a mobilização, e estamos a falar de um grupo de mais de 20 pessoas que vão dedicar semanas da sua vida a colaborar com as escolas, com os orfanatos, com a preparação de refeições. Do contacto com as pessoas, e da tua própria motivação, o que é motiva mais as pessoas a querer fazer esta experiência e a querer partir?
Em primeiro lugar é o completo contraste da realidade de Mumemo com a nossa realidade. Eu acho que ninguém está preparado para enfrentar assim, esta realidade que eu acho que é impossível de imaginar. As condições com que eles vivem e o tão pouco que têm…
Mesmo as imagens que nós vemos de vez em quando na televisão não chegam para descrever aquilo que tu viste?
Não, não, eu acho que é preciso mesmo estar para perceber e o que me motiva é não só ver estas diferenças de realidades como também este desejo de não poder ficar indiferente, de saber disto e não fazer nada. E também é ir para lá com a certeza de que Mumemo não vai ficar completamente transformado com a nossa presença, mas ao menos durante aquele mês conseguem ter alegria e conseguem perceber que pessoas de outros continentes sabem deles e se preocupam com eles.
É uma diferença abissal mesmo comparado com a situação portuguesa, por exemplo, que vive nos últimos anos uma crise ao nível das urgências da obstetrícia?
Sim, sim, é outra realidade e claro que eu não desvalorizo também estas dificuldades que vivemos cá em Portugal, que também não podem ser ignoradas.
Mas que não são comparáveis, não é?
Sim, claro.
Para quem nos está a ouvir na Renascença e na Ecclesia e se sinta tocado por esta realidade e pela vulnerabilidade destas mães e crianças, como é que se pode apoiar, como é que podem entrar em contacto convosco?
Nós temos uma conta do Instagram que se chama ‘Missão Mumemo’ e por isso podem seguir e a partir de lá mandar-nos mensagens, que nós estamos completamente disponíveis para responder a tudo.
E podem ajudar através de várias formas. Podem ajudar a partir do apadrinhamento de crianças e ajudar a partir de cá de Portugal uma criança específica lá de Mumemo, podem mesmo ir para Mumemo e fazer voluntariado para ajudar o centro de saúde, com os orfanatos, porque é preciso mesmo ajudar em tudo. Apoio financeiro é mesmo uma das coisas mais importantes também e que ajuda a que este bairro consiga também ter continuidade. Por isso há várias formas de ajudar e basta contactar-nos.
Este é um dia especial. Falámos da realidade de ser mãe num contexto como aquele que descobrimos em Moçambique. Que mensagem é que gostavas de deixar aos ouvintes, neste Dia da Mãe?
Eu gostava de dizer que mãe é mesmo uma lutadora que luta pelos filhos para que eles consigam ter o mínimo. E estas mães de Mumemo, com tão pouco, lutam tanto para que os filhos todos os dias continuem a ter comida e continuem a conseguir ir à escola e continuem a estar enquadrados na sociedade. Por isso eu acho que o papel da mãe é um papel fundamental na vida de qualquer um.
