António Salvado Morgado, Diocese da Guarda
No mistério daquela noite, uma energia celestial escancarou o sepulcro cavado na rocha de onde saiu, glorioso e vitorioso sobre a morte, o Ressuscitado da Nova Páscoa. E da Vida, Outra.
Encontramo-nos ainda sob a luz da liturgia pascal. Aí está essa Outra Vida, a ser celebrada com o Aleluia das núpcias do Cordeiro. A segunda vinda de Cristo começou com a Ressurreição. O Ressuscitado floresceu em Cristo Cósmico na linguagem de Teilhard de Chardin [1881-1955] que assim escreve: «Cristo tem um corpo cósmico que se estende por todo o Universo.» Aquele túmulo cavado na rocha absorveu todas as mortes dos mortais de todos os tempos e lugares e os cemitérios de terra passaram a ser jardins de flores da Ressurreição. O fim do mundo já começou. Já está a ser. É o apocalipse do Futuro presente. É nele que vivemos desde que a Terra foi assim cristificada, mesmo que se encontre pouco cristianizada e as guerras de todas as frentes nos entorpeçam os ouvidos e mal possamos ouvir a Palavra. Que sempre fala.
Entretanto, as guerras não acabaram, e não houve um raio que destruísse os armamentos com que elas se fazem, mas o Ressuscitado que venceu a morte aí está com Nova Vida. Aleluia por tal, mesmo que o não possamos cantar, afinados, nos campos de guerra. Ou talvez possamos para a afugentarmos para todo o sempre.
Aleluia. Uma palavra que possui um sabor musical. Entoado e cantado por três vezes na Vigília Pascal, o som ascendente dos três tons desta misteriosa palavra ecoa iluminando a noite dos lugares e dos espaços. Misteriosa palavra, misteriosa mesmo, se bem que a possamos encontrar nos dicionários de muitos idiomas.
Todos o saberemos. A palavra “aleluia” não só integra o dicionário de muitos idiomas, como aparece na linguagem cultual do Judaísmo e do Cristianismo. Contudo, aparecendo, embora, com alguma frequência no Antigo Testamento, designadamente no Salmo 150, o último do saltério, de que é a primeira e a última palavra, e no final do livro de Tobias [13], não aparece em nenhum dos quatro evangelhos canónicos e nem sequer nas cartas de S. Paulo. Curiosamente, no Novo Testamento, o termo “Aleluia” só aparece no Livro do Apocalipse [19, 1-7], o último dos livros que compreendem a Bíblia Sagrada. Aí surge quatro vezes e já num dos últimos capítulos, como que a anunciar um estado festivo final. E anuncia, de facto.
“Aleluia”, misteriosa palavra, dizia. Transliteração do termo hebraico “Halleluyah”, dizem os entendidos que é formada pela composição de “Hallelu” [louvar/adorar] e “Yah”, forma abreviada de “Yahweh” [Senhor/Javé]. Do Hebraico passou para o Grego, do Grego para o Latim e daí para as outras línguas, tantas, incluindo o Português. Sendo assim, literalmente, “aleluia” significará «Louvai o Senhor». Ou, numa expressão mais liberal e familiar entre nós, «Louvado seja Deus».
Não esqueço que a palavra é usada noutros contextos conotando, com frequência, o alívio e a satisfação suscitada pela superação de um obstáculo que se apresentava insuperável ou usada com alguma comicidade numa ocorrência de tal modo extraordinária que parece ferir a ordem natural das coisas. Mas isso será porque primeiro, literal e realmente, aleluia é um grito de louvor a Deus, uma palavra que é uma oração, uma das mais pequeninas e belas orações pelas quais o fiel, rejubilando, louva. E, louvando, venera, agradece e adora Deus. Com alegria.
Não será pura coincidência que o “Aleluia” apareça a encerrar o saltério e o “Aleluia” surja a fechar a Bíblia Sagrada. Adentremo-nos, modestamente, neste cenário festivo.
Como acontece no capítulo final do Livro de Tobias que é um cântico de louvor a terminar no “Aleluia” entoado pelas ruas de Jerusalém, o salmo 150 é um hino de louvor entoado entre um “Aleluia” inicial e outro “Aleluia” final. Entre um e outro “Aleluia”, aparece dez vezes o convite «Louvai». Pela grandeza das Suas obras e pela Sua infinita majestade [2], Deus deve ser louvado no santuário e no firmamento [1] em harmonia sinfónica com todos os instrumentos musicais [3-5], de corda, de sopro ou de percussão, habitualmente utilizados no templo: com trombetas, com a lira e a cítara, com o tímpano, com a harpa e a flauta, com címbalos sonoros e retumbantes. E também com a dança. A música orquestral dos instrumentos inventados pelo Homem para cantar no santuário harmoniza-se com a música celestial imanente ao Universo criado. Porque no princípio tudo era bom e belo.
O Saltério termina com este belo convite dirigido a toda a Humanidade: «Tudo quando respira louve o Senhor». Um final que coroa a bem-aventurança dirigida ao Homem fiel no primeiro salmo: «Feliz o homem […] que se compraz na lei do Senhor e nela medita dia e noite.» [Salmo 1, 1-2]. Um início e um final de um círculo de poesia e oração constituído pelo Saltério.
Música e louvor de cá antecipa a música e o louvor de Lá, do Aleluia do Além. É a voz do misterioso Apocalipse de João onde encontramos a palavra “Aleluia” quatro vezes, numa espécie de liturgia festiva desenvolvida em três tempos. Primeiro [19, 1-4], em Aleluia, uma numerosa multidão celebra, por duas vezes, a glória e a vitória de Deus salvador que, com seus verdadeiros e justos juízos, condenou e venceu o mal corruptor; depois vinte e quatro anciãos e os quatro seres viventes prostram-se e adoram Deus que se encontra sentado no trono e dizem: «Ámen! Aleluia!», enquanto do trono saía uma voz que dizia: «Louvai o nosso Deus, vós todos, os seus servos, vós que o temeis, pequenos e grandes!» Finalmente, uma numerosa multidão, semelhando o fragor das águas torrenciais e o estrondo de fortes trovões, correspondeu ao convite daquela voz, entoando: «Aleluia! Porque o Senhor nosso Deus, o Omnipotente, começou a reinar. Alegremo-nos, exultemos e dêmos-lhe glória, porque chegaram as núpcias do Cordeiro, e a sua esposa está preparada.»
Termino olhando para o Cristo Cósmico ao qual Teilhard de Chardin rezou e nos ensinou a rezar quando escreveu: ««Quanto mais o Homem se tornar homem, mais será tomado pela necessidade, uma necessidade sempre mais explícita, mais refinada, mais luxuosa, de adorar.» Não será bom sinal quando o Homem não sentir esta necessidade de adorar. Adorar que é, usando ainda palavra do Teilhard, «perder-se no insondável, mergulhar no inesgotável, pacificar-se no incorruptível, absorver-se na imensidão definida, oferecer-se ao Fogo e à Transparência.»
Não encontramos nos Evangelhos a palavra “aleluia”. Talvez para transpormos o Evangelho para a concretude da existência. Vamos, então, aleluiar a vida. Com louvor, júbilo e acção de graças. Apesar do calvário das guerras. Importa não desesperar da Humanidade. Importa que a fé seja mais forte que o ódio e a soberba de alguns. Ou de muitos.
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