Peregrinar a Fátima – Para quando, causa nacional?

Luís Silva, Diocese de Aveiro

Este texto é um lamento… E quer tornar-se um grito de projeção nacional. (Não peço pouco!)

Por todos os que, enquanto peregrinos de Fátima, já ficaram na berma das estradas, e para que todos, no futuro, possam chegar ao ‘altar do mundo’ sem temer, a cada passo, pela vida.

Começo em 1997…

Participei, entre os dias 19 e 24 de agosto desse ano, na XII Jornada Mundial da Juventude, em Paris. Foi a primeira vez que o programa da Jornada previu os dias nas dioceses. Passei-os em Nantes.

Fui acolhido numa família de três filhos, duas raparigas, mais velhas, e o ‘Benoît’, mais novo.

Chegámos, ao final da tarde, e, ao jantar, mal nos sentámos à mesa, pedem-nos (éramos dois jovens da Diocese de Aveiro, acolhidos por aquela família): ‘falem-nos de Fátima!’.

Imaginem-se os olhos atentos, voltados para nós, olhos de quem é ‘só ouvidos’.

Virei-me para o meu colega, em silêncio interrogativo, como que inquirindo: ‘o que vamos dizer?’.

Percebi, nesse momento, eu, um jovem de 24 anos, que o mundo olhava para Portugal pela lupa de Fátima. ‘Portugal’ era ‘Fátima’!

E se a minha vivência o evidencia com um ‘saber de experiência feito’, bastaria olhar para os cerca de 6 milhões e meio de peregrinos, provindos de 84 nacionalidades diferentes, que visitaram Fátima, em 2025, para se perceber a dimensão do impacto de Fátima no mundo.

Mas, curiosamente, Portugal parece desconhecer que tem Fátima.

Portugal parece continuar a pensar Fátima como a pensavam os primeiros que dela ouviram falar: ‘coisa de miúdos’, uma ‘construção que cairá, por si’, ’coisa de uns poucos’!

Estranhamente (ou talvez não!), para os portugueses que dirigem os destinos da nação e as políticas municipais, assim como para os focos mediáticos, o assunto parece reduzido a ‘interesse paroquial’ (no preconceituoso sentido que a palavra ‘paroquial’ adquiriu, no uso habitual).

Regressemos, com estes dados da minha história e da estatística, ao foco da minha reflexão.

Percorri, com o meu filho mais velho, de 19 anos, entre os dias 22 e 25 de julho de 2026, os 163 quilómetros que separam a Igreja de São Tiago de Beduído e o Santuário de Fátima.

Acompanhei, como ‘carro de apoio’, o demorado peregrinar do meu filho, mas sofri, na alma, as dores de todos os que somam às bolhas nos pés e às dores musculares, o sobressalto da velocidade dos carros (e camiões, principalmente!) que parecem acelerar quando se aproximam de quem faz daquele caminhar uma metáfora viva da existência.

Os sobressaltos com que percorri a nacional 1, com desniveladas bermas de uma estrada que parece servir provas não autorizadas de competição automobilística e em que se nos anuncia a cada passo que pode colocar-se em fole o colete com que nos iludimos de proteção ou ser-nos arrancado, da nossa cabeça, o ligeiro chapéu que nos abriga do tórrido sol… estes sobressaltos continuam pungentes e vívidos, no meu coração de pai. E, no meu sentir, o de tantos que, ano após ano, fazem o mesmo percurso. Como peregrinos de um existir que se faz de conta não saber…

Assumi, ao longo deste caminho, que esta seria uma nova causa que abraçaria: exigir, junto de quem governa, colocar os percursos de Fátima como matéria de disponibilização de meios para que não se tenha de acrescentar, às dores próprias do caminhar, os medos de se ser levado, arrastado pelo vento de quem tem uma ‘arma de quatro rodas’.

Inquieta-me que, num tempo em que todas as causas são abraçadas como de ‘vida ou de morte’, se abandone à morte aqueles que só querem é caminhar ‘pela’ vida.

Confesso que não compreendo…

Bem certo que, à medida que nos aproximamos do Santuário, as sinaléticas vão auxiliando a orientação, mas podia pedir-se mais… Muito mais!

Fátima tem uma localização exata. Não seria necessário fazer reforço de passeio de ambos os lados da estrada. Não se vai de Viseu para Fátima dirigindo-se para norte. É fácil identificar o lado do passeio que necessitaria de ser ampliado para permitir que os peregrinos caminhassem seguros. Ou outras soluções poderiam ser adotadas, como, a título exemplificativo, melhorar estradas paralelas já existentes, cujo pó soma boca seca à secura do sol… Deixo o repto de que esta seja matéria para projetos de empreendedorismo de escolas e autarquias, por exemplo.

Observei que, paradoxalmente, em muitos casos, o lado do passeio mais reforçado é o que leva de volta a casa… O peregrinar faz-se, contudo, no sentido contrário…

Ironias à parte, toma-me o desejo de que este seja o início de uma causa de muitos, para que todos possam ser peregrinos até ao seu destino, antes que o ‘destino’ os impeça de terminar o seu peregrinar, por, de vez, se findar a sua condição de peregrinos na história.

Haverá maior resiliência do que a de quem sai do seu conforto para pôr pés ao caminho? Bastaria, então, somar-se-lhe um qualquer programa de recuperação, para quando tiver, finalmente, chegado ao seu destino!…

Ah, como é simbólica a condição do peregrino! E quão simbólica é, também, do fazer-se político o abandono a que se tem votado o peregrinar autêntico de Portugal!

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