Presidente da CEP aponta para «solução em determinados contextos» e em outros não, também sobre a ordenação de mulheres e o celibato dos padres

Lisboa, 11 abr 2026 (Ecclesia) – O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) espera que o tema do diaconado feminino na Igreja católica “não seja esvaziado nem considerado resolvido”, assume que a Igreja tem de conciliar “diferenças”, percebendo o que é “essencial” na fé.
“Os temas não são fáceis. Não são simplesmente uma questão dogmática – a meu ver, não o é. O celibato, o diaconado são questões disciplinares e é preciso chegar a uma orientação que, por exemplo, em determinados contextos, pode não ser a solução melhor. Mas em outros, pode afigurar-se como uma grande mais-valia”, indica D. José Ornelas em entrevista à Agência ECCLESIA.
O responsável da CEP, que termina esta segunda-feira o segundo mandato, refere-se à reflexão sobre o diaconado feminino, à ordenação de mulheres, e ao celibato dos padres.
“Temos de determinar o que é o essencial da fé, o que é o essencial da Igreja e fazer isso verdadeiramente, para que depois também se possam encontrar soluções adaptadas em cada lugar, tendo em conta a diversidade da Igreja. Eu posso aceitar que se diga ‘aqui, no nosso contexto, esse problema não se põe, neste momento’. A Igreja precisa de viver com as diferenças”, aponta.
D. José Ornelas recorda a participação no Sínodo dos bispos e de “colegas bispos da Igreja grego-católica, que tem padres casados, dizerem: ‘Não percebo porquê vocês fazem problemas por terem padres casados. Nós temos e estamos contentes’.
“Agora, não vão é pensar que isto que vai resolver os problemas de vocações, não é por aí. A Igreja greco-católica tem problemas hoje de filhos de padres. Ter uma família nem sempre é mais fácil do que ter um padre celibatário. Mas isso são questões práticas. O que temos de perceber é a mudança de mentalidade, perceber que pode ser diferente – porque dentro da Igreja temos diferenças em coisas que não são essenciais”, reconhece.
O relatório final do grupo de estudo do Sínodo sobre o papel das mulheres denunciou, em março, atitudes de “machismo” e apelou a uma “mudança de mentalidade” nas estruturas eclesiais; a segunda comissão de estudo sobre o diaconado feminino reafirmou, em dezembro, o “não” à possibilidade de alargar sacramento da Ordem às mulheres, num relatório divulgado pelo Vaticano, após quatro anos de trabalho.
“Espero que o tema não seja esvaziado nem considerado já resolvido e decidido simplesmente porque não se tratou. Porque, na realidade, não se chegou a tratar dele no Sínodo e de uma verdadeira auscultação que é preciso fazer”, sublinha.
D. José Ornelas explica que o Sínodo, iniciado pelo Papa Francisco, em 2021, tinha como tema a Sinodalidade, ou seja “criar espaço” onde as “reorganização possa acontecer”, a “conversão de processos, de locais, de lugares” e de “relações”.
“O Papa sempre disse que isto não se resumia simplesmente ao Sínodo que se abriu e fechou e publicou um documento. Isto tem de entrar na vida da Igreja e, portanto, é isso que está a acontecer. Aquilo que o Sínodo iniciou foi só o início. Ou isto tem uma continuidade, para converter o coração, converter as relações – o Sínodo diz que fundamentalmente a questão da fé é uma questão de relações”, recorda.
O bispo de Leiria – Fátima dá como exemplo a “grande transformação estrutural” no seu território, através da reorganização em unidades pastorais com “quatro ou seis paróquias”, onde o responsável lê “vários graus de adesão”: “Os padres estão verdadeiramente convencidos – e é a grande maioria – e já se vê um discurso totalmente diferente”.
“Criar as unidades pastorais e o mapa da sua organização é só o início: é como preparar o terreno onde se vai fazer festa, é limpar um terreno para plantar. Estamos nesta fase e isso vai levar gerações. É para mudar o sistema que nós temos de ‘O senhor padre é que sabe’”, aponta.
Num panorama nacional, o presidente da CEP fala numa “compromisso” e do “sonho de uma Igreja sinodal”, entendendo não ser fácil “o modo para chegar lá”.
“Encontro relatos das pessoas, a partir das suas Igrejas locais, das suas dioceses: é positivo e há processos que estão em curso”, reconhece.
No final de dois mandatos à frente da CEP, D. José Ornelas analisa, em entrevista à Agência ECCLESIA, os principais temas que marcaram os anos de 2020 a 2026, no panorama nacional e mundial; a entrevista será emitida no programa 70X7, com emissão na RTP2, e publicada na íntegra no portal de informação.
PR/LS
