A tecnologia é para servir a humanidade

Padre Vítor Pereira, Diocese de Vila Real

Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real

No livro “Os Problemas de Fim de Século”, o filósofo e antropólogo francês Edgar Morin, recentemente falecido, escreve: «Vamos cada vez mais compreender que o nosso desenvolvimento material, técnico, económico produzia subdesenvolvimento mental, psíquico, moral. Vamos compreender, em suma, que o nosso conceito de desenvolvimento é que era subdesenvolvido.». E mais à frente reafirma: «Somos levados a recolocar o problema do desenvolvimento rejeitando a noção tão grosseira e tão bárbara que reinou durante muito tempo, quando se julgava que a taxa de crescimento industrial significava o desenvolvimento económico e que o desenvolvimento económico significava o desenvolvimento humano, moral, mental, cultural, etc, quando a verdade é que, nas nossas civilizações ditas desenvolvidas, há um atroz subdesenvolvimento cultural, mental, moral e humano».

Como quase sempre acontece com as pessoas sábias, muito do que dizem e escrevem tem um forte cariz profético. Não nos é difícil comprovar todos os dias como as palavras de Edgar Morin são atuais. Proclamou-se triunfalmente que os avanços técnicos e científicos trariam todas as soluções para as necessidades e anseios do ser humano, ou pelo menos para grande parte delas. E não há dúvida que trouxeram inúmeros benefícios para a humanidade, que se devem assinalar. Mas nem sempre foram acompanhados com a devida reflexão moral e humana, e a seu tempo começou-se a perceber os riscos e os perigos que lhes estão associados. Se trouxeram alguns avanços, também promoveram alguns retrocessos na relação do ser humano consigo mesmo, com os outros e com a natureza. Não é por acaso que neste momento se está a promover uma grande reflexão sobre os efeitos perniciosos dos telemóveis e das redes sociais e muitas escolas já estão a estabelecer limites, alguns países já estão a pensar definir regras para o seu uso.

Neste campo, preocupa-me sobretudo as transformações que estão a acontecer com a nossa atenção, pelo facto de abusarmos do uso da tecnologia. Estamos num tempo em que é preciso conquistar a atenção das pessoas, tarefa que se revela quase hercúlea, neste turbilhão de ruído, informação, estímulos e impulsos em que vivemos. Bem percebo por que é que os jornais recorrem a títulos bombásticos e espampanantes, cujas notícias depois nem sempre o são, ou as televisões recorrem a alertas ou reclames luminosos a dizer última hora, ou até a publicidade recorre a cenas provocadoras e patéticas. Tudo se faz para se conquistar a atenção das pessoas a todo o custo, porque vivemos tempos de atenção dispersa e fragmentada. Estamos atentos a tudo e não estamos atentos a nada, ou atentos a muitas coisas ao mesmo tempo, sem prestarmos atenção a nada. Escuto a miúde, por exemplo, professores e até catequistas a lamentar a desatenção patológica das gerações atuais, que estão permanentemente distraídas, não retêm conhecimentos, têm dificuldade em refletir, em fazer raciocínios e desenvolver pensamentos. Quem não tem atenção, também não pensa bem, e não aprende bem. Não me é difícil perceber, quando estou à frente de uma assembleia, como facilmente as pessoas se distraem e têm dificuldade em manter a atenção e o foco.

Num dos capítulos do seu livro, “A Sociedade do Cansaço”, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han discorre sobre o tema. E não tem a mínima dúvida em afirmar que estamos a viver um retrocesso civilizacional, uma mudança perniciosa na estrutura e na economia da nossa atenção. Uma atenção perdida e dispersa em muitas tarefas e estímulos é uma destruição da atenção, com graves consequências para a pessoa humana e a sua atividade. A nossa atenção está a tornar-se como a do animal selvagem, que ao mesmo tempo que executa uma tarefa, tem de estar atento a tudo à sua volta para sobreviver. A humanidade evoluiu porque é detentora de uma atenção contemplativa, profunda, reflexiva. Cria-se cultura quando há espaço para uma atenção profunda. Tarefa quase impossível quando a nossa atenção (agora hiperatenção) anda dispersa e muda constantemente de foco entre diversas informações, atividades e processos. Uma sociedade hiperatenta e hiperativa é uma sociedade que não tem atenção profunda. Nas palavras do pintor Paul Cézanne, somos uma sociedade que “não vê o perfume das coisas”, e Nietzsche não tem dúvidas em afirmar que a vida humana acaba numa hiperatividade mortal quando fica destituída do seu elemento contemplativo, tornando-se o caminho aberto e limpo para a barbárie.

Na senda dos perigos do mau uso da tecnologia, saiu a primeira Encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. O Papa aborda as novas questões sociais que se levantam na atualidade, onde há o sério risco de se degradar ou diluir a pessoa humana, nomeadamente com o uso pouco ético, ponderado e criterioso da ferramenta poderosa e extraordinária que é a inteligência artificial, usada já em vários âmbitos da vida humana.

Alguns já insinuaram que mais uma vez a Igreja parece estar contra o progresso e o desenvolvimento, o que não é verdade, empresa que se revelaria, aliás, inglória e infrutífera, como quando se quer parar o vento com as mãos. O Papa não diaboliza a inteligência artificial, mais do que uma vez elogia o contributo importante que teve o progresso científico e tecnológico ao longo da história, permitindo uma melhoria significativa e assinalável na qualidade de vida do ser humano. A tecnologia é boa, é bem-vinda, contudo é preciso saber usá-la de forma responsável ao serviço da pessoa humana e do bem comum de toda a humanidade. Esta é, aliás, a ideia mestra desta Encíclica: no centro da vida deve estar a pessoa humana, sempre o respeito pelo humano, a humanidade, e não ferramentas que a possam substituir, distorcer ou apagar, como é a inteligência artificial.

São muitos os desafios que a inteligência artificial coloca à humanidade, que exigem uma séria reflexão. Primeiro que tudo, está nas mãos de poucos, que se estão a tornar cada vez mais poderosos, cujo conceito de bem e de mal desconhecemos, assim como intenções e interesses. Muito poder nas mãos de poucos não é bom para a humanidade. Depois, ninguém tem dúvidas de que a inteligência artificial vai tirar muitos empregos. O que fazer com muito trabalhador que não tem emprego? Para onde direcionar a ação humana e que outras formas de sustento haverá para a pessoa humana? No campo da informação, de forma traiçoeira, vemos proliferar muita notícia falsa e a engorda da manipulação. Como salvaguardar a verdade? No âmbito da ética, a inteligência artificial não sabe o que é o bem e o que é o mal. Não pode ter um protagonismo excessivo nas decisões da humanidade. E como usá-la corretamente no contexto da guerra, retirando o ser humano de cena, favorecendo a ideia de guerra justa e a desresponsabilização humana? Eis alguns desafios, que pedem reflexão ética. A tecnologia deve servir o humano e a humanidade e cabe-nos a todos a responsabilidade de ela não ser mal usada e não se vivar contra a humanidade.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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