A fragilidade que nos salva

Octávio Carmo, Agência ECCLESIA

Foto: Lusa/EPA

Vivemos a braços com a perigosa ilusão de que a máquina nos pode salvar de nós mesmos. Num mundo embriagado pela hipervelocidade e pela cultura da produtividade, a inteligência artificial generativa é-nos imposta como o novo oráculo. É urgente que não haja enganos: a máquina não tem corpo, não vive experiências, nem conhece a vertigem dos nossos abismos interiores. Sem mediação crítica, ela apenas recombina padrões estatísticos, regurgitando um falso conhecimento que amplifica e cristaliza preconceitos e vieses ideológicos.

É contra esta anestesia do sentir e do pensar que a encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, se ergue como um reduto de resistência. Pessoalmente, vejo neste documento muito mais do que um guia ético: é um manifesto visceral pelo resgate da nossa humanidade ferida.

O texto papal rasga a utopia tecnocrática ao lembrar-nos de que absolutizar a inteligência técnica significa obscurecer o que temos de mais sagrado: o afeto, a dedicação e a relação autêntica. A máquina não sabe o que é a compaixão ou o perdão. De nada nos serve “ser inteligentes” nos ecrãs se, na vida concreta, desaprendemos a escutar e passamos a ver o próximo como uma mera função ou um dado utilitário.

A verdadeira ameaça não é a máquina em si, mas a submissão voluntária a um sistema que desvaloriza a identidade, a dignidade infinita e as liberdades fundamentais. Permutámos a busca da verdade pela eficiência algorítmica. A desinformação e a padronização do conhecimento estão a devorar o nosso discernimento e a própria confiança social democrática.

O Papa exige, em contracorrente, que devolvamos tempo e espaço às relações comunitárias. Precisamos, com a máxima urgência, de cultivar uma “ética da presença” que valorize a carne, a mesa partilhada e o serviço aos mais frágeis, em detrimento da mera performance digital.

O alerta sobre o mundo do trabalho é particularmente duro: “Sem escolhas corajosas, preveem-se mais pobreza e desigualdades, com uma multidão de excluídos rodeados por máquinas e sistemas automatizados que usurparam o seu lugar”.

Não há neutralidade na técnica; ela carrega o rosto e a ideologia de quem a programa e a detém. Uma governação autêntica da IA tem de limitar a concentração deste poder tecnológico, garantindo que a inovação sirva o bem comum e não apenas os interesses de quem lucra com a exclusão e o colonialismo de dados. Sem verdade, transparência, literacia mediática e uma responsabilização clara das decisões algorítmicas, corremos de olhos vendados para o precipício.

“Humanizar o digital” não se faz ensinando apenas competências técnicas; faz-se procurando o sentido, resgatando a pausa e o silêncio, e fomentando as inteligências emocional, espiritual, social e ecológica.

Num tempo que foge da ferida e idolatra a perfeição ilusória, a salvação não virá de um pós-humanismo estéril ou de uma conexão abstrata. Virá da nossa coragem de assumir a fragilidade que nos torna humanos. Porque é exatamente na aceitação do nosso limite, e na esperança indizível que ousamos partilhar, que Deus se manifesta.

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