Sacerdote considera que deve existir na Igreja «um grupo de estudo que possa ajudar os outros setores a estarem no digital» associado à pastoral das comunicações sociais
Lisboa, 25 mai 2026 (Ecclesia) – O padre Miguel Neto, doutorado em comunicação, reafirmou hoje o “papel fulcral” da Igreja “na humanização do ambiente digital”, sugere a criação de um grupo de estudo e salientou que a Inteligência Artificial “não é má em si”.
“A Igreja não pode esquecer o seu papel de humanizar as pessoas, de tornar o mundo mais humano. E nós neste momento precisamos disso. Na questão da Inteligência Artificial que o Papa chama a atenção, e vai chamar a atenção disso na encíclica, como em outras mensagens, que é necessário, por exemplo, conhecer quem está por detrás de cada plataforma, de cada ‘chat’ de Inteligência Artificial. É necessário porque nada é gratuito”, disse o sacerdote da Diocese do Algarve, esta segunda-feira, dia 25 de maio, em entrevista à Agência ECCLESIA.
O Vaticano publicou hoje a primeira encíclica de Leão XIV, intitulada ‘Magnifica Humanitas’ é um documento histórico totalmente dedicado aos desafios da Inteligência Artificial (IA) e ao seu impacto no futuro da humanidade, o Papa apela à proteção da dignidade humana face à revolução digital.
O padre Miguel Neto salienta que a IA “não é uma coisa má em si”, e sublinha essa necessidade de conhecer, “e apostar sempre numa questão humana e antropológica”, exemplificando que “um carro é uma coisa boa, serve para nos transportarmos do ponto A a B, mas ultimamente até tem havido ataques terroristas com carros”, e não deixam de usar os carros.
O sacerdote algarvio que defendeu a tese de doutoramento em comunicação com foco no clero português e as competências digitais, no dia 22 de abril, na Universidade de Huelva em Espanha, considera que esta área “deve perpassar todas as áreas em que a Igreja presta atenção”.
“Penso que associado à questão das comunicações sociais deve haver um grupo de estudo com gente que possa ajudar os outros setores, todos, a estarem no digital como deve ser”, indica o padre Miguel Neto, que gostava de ter tempo para “continuar esse trabalho de investigação” e aplicar as questões de humanismo, “apontando à realidade portuguesa usando aquilo que se faz lá fora”, como no Brasil, onde “a própria Conferência Episcopal, a CNBB, tem documentos muito bons”, e a própria América Latina.
‘Os Católicos e Redes Sociais: Competências Digitais para uma Vivência Judaico-Cristã no Digital: o Caso do Clero Português’, é o título da tese de doutoramento, e, segundo o especialista, o clero nacional “sabe que o ambiente digital é bom, que pode ser útil para a evangelização”, mas usou-o quando foi necessário, devido à pandemia.
“Revela que olham para o digital não como um espaço, não como um ambiente onde a Igreja tem que estar presente, mas como uma ferramenta que é usada quando se precisa, e quando não se precisa não é usada. E não se sentem que existe a necessidade da contínua comunicação e da contínua evangelização”, explica, alertando que a falta de literacia digital provoca um desfasamento entre a sociedade e a Igreja.
“Revela uma incompreensão da linguagem, revela que se vê o digital unicamente e simplesmente como uma ferramenta, ao contrário daquilo que o Vaticano vem dizendo desde 2022, e revela um certo medo, que é fruto do desconhecimento. Nós temos medo do ambiente digital, porque muitas vezes não o conhecemos. Achamos que são campos de batalha do discurso de ódio, ou temos medo porque aquilo permanece permanentemente ali, o vídeo, e não sabemos lidar, e não sabemos estar no ambiente digital, porque não há esse conhecimento.”
O padre Miguel, que realizou inquéritos ao clero português que usou na sua investigação, lembrou que a utilização do digital na pandemia foi com Eucaristias, orações, terços, “mas não havia o cuidado”, o que revela “mais um aspeto de pouca literacia mediática”, de transmitir com qualidade aplicado ao digital, que não é o mesmo conteúdo do ambiente físico
“Um exemplo clássico: O tempo de homilia, temos que adaptar, porque no digital uma homilia de cinco minutos é muito; ou a questão da qualidade, ou do som, a questão da transmissão da música, a própria linguagem, o olhar do celebrante. Tem que haver um contacto visual, uma interação com a pessoa, são pequenos aspetos concretos que se passaram em 2021”, desenvolveu, no Programa ECCLESIA, transmitido na RTP2, onde falou também da diferente entre missionários digitais e influenciadores católicos.
O padre Miguel Neto recebeu a classificação máxima de Summa Cum Laude por parte do tribunal constituído pelos professores Nelson Costa Ribeiro, da Universidade Católica Portuguesa, Marisa Ester Ruiz, da Universidade de la Matanza (Argentina), e Ángel Hernando Gomez, da Universidade de Huelva (Espanha).
LS/CB
