A antropologia do ‘mar à vista’

A insularidade como potencial lugar teológico e a experiência da omnipresente finitude

Luís Silva, Diocese de Aveiro

O século XIX, pela pena de Ludwig Feuerbach, Karl Marx e demais membros da dita ‘esquerda hegueliana’, acusou a religião de alienar. Segundo estes, a religião, ao prometer uma salvação meta-histórica e ao conceber Deus que estes apelidavam (segundo L. Feuerbach) de não ser mais do que uma projeção do humano, ao ponto de considerar que a teologia não seria senão uma antropologia, constituía-se como fonte de uma alienação das debilidades da história, descomprometendo o sujeito de se transformar e de transformar o mundo.

A tese fez escola e continua a ser repetida, ao longo do século XX e, ainda hoje, em pleno século XXI. Mas a leitura merece olhar atento.

Observe-se, desde já, que a constatação de poder haver projeção em Deus daquilo que o ser humano deseja não se constitui, por si só, como uma conclusão de inexistência d’Aquele sobre o qual se projetam os desejos humanos. A Hans Küng devemos esta constatação, formulada no seu famoso «Deus existe?». Como o mesmo recorda, a projeção, no nosso pai, dos nossos desejos de um super-homem ou de um grande protetor, como acontece na infância, não cria o nosso pai, antes necessita dele para que a projeção possa efetivar-se.

Acrescente-se que a dimensão da projeção é apenas parte da problemática da ‘correspondência’ de Deus aos desejos humanos. Na verdade, de Deus diz-se muito mais do que o projetado, como evidencia a teologia apofática que se acerca de Deus com a humildade de Dele só ousar dizer o que não é, pressuposto o Seu excesso.

Mas socorramo-nos da categoria de ‘alienação’.

Os ‘heguelianos’, concluída a alienabilidade da natureza por ação da religião, consideravam necessária esta denúncia (de que a religião é alienação) para daí partirem para a afirmação da real natureza do Homem. O übermensch (‘além-do-Homem’, ‘super-Homem’, ‘sobre-Homem‘) de Friedrich Nietzsche e o seu necessário eterno retorno emergem como consequências inevitáveis dessa libertação da alienabilidade religiosa.

Com estas, a vontade de poder, a recusa de ‘não viver’, o abandono da fragilidade. O Homem que emerge da recusa da religião como alienação está à vista… Um Homem sem limites, autocriado, autodeterminado, sem fragmentos nem fragilidades.

A história encarregou-se de evidenciar os custos desta conclusão. O Homem ‘infraturado’, ‘infragilizado’, ‘invulnerável’ deixou na berma da História o homem real.

E continua a estender a largura da berma… E os cadáveres nela depositados.

Ousemos, por isso, reler a crítica.

Comecemos por aceitar que, em muito, coincida o desejo humano de superar-se com o que Deus oferece. E que, também, em determinadas circunstâncias, a religião, ao prometer a eternidade, possa gerar alheamento dos horrores da História. Mas não estamos a falar da condição essencial da religião. Antes, do seu uso e abuso.

Pelo contrário, ao recordar a intrínseca dependência do transcendente, ao afirmar que o ser humano não nasce de si, a religião é o verdadeiro antídoto contra as mais radicais alienações: as que distraem o Humano da sua condição frágil, aquela que, genuinamente, solidariza os humanos uns com os outros e com as suas comuns debilidades e fragilidades.

Tomemos a metáfora da condição insular, que chamámos a título. O Homem insular vive com a omnipresente consciência dos limites. Sabe-se ‘efinito’ (e/ex – preposição latina com significado de ‘a partir de, proveniência, etc), ser que só pode pensar-se e viver ‘a partir da finitude’, ‘a partir do limite’, com a consciência permanente da fronteira (‘limes’, em latim, oferece-nos esta multiplicidade semântica.

Por oposição, o ‘Homem continental’ vive a ilusão do ilimitado, da invulnerabilidade, a ilusão de se auto-bastar. Até que um tsunami (quando o mar assoma ao seu mundo) ou a necessidade de chegar a outro continente (quando o seu mundo assoma ao mar) lhe denuncia, de forma incontornável, a sua intrínseca limitação: o seu mundo não é, afinal, infinito. Ele, como o islenho, é, mesmo ‘efinito’: não pode conceber-se sem o limite.

Esta condição efinita pode constituir-se, a esta luz, como autêntico ‘lugar teológico’, superando os lugares identificados por Melchor Cano.

A fragilidade, a finitude, o limite não são fatores de alienação, antes, autênticos ‘despertadores’ para a real condição humana, sem os quais o Humano se aliena de quem é, gerando, aí sim, uma identidade inexistente. A religião não só não é, assim, alienante, mas, por oposição, a voz que lembra o ‘húmus’ de que se faz o humano. Não fosse, o Homem ‘da’ religião, Adão!

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina, e vinculam apenas os seus autores.)

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