Vila do Conde: Centro para pessoas com deficiência levou aos palcos «Via Sacra», representada por utentes e colaboradores

«A verdadeira alegria, que o povo nos deu, foi fantástica, foi maravilhoso», destacou João Paulo Silva

Vila do Conde, 28 mar 2026 (Ecclesia) – O Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência (CARPD), da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde (SCMVC) em Touguinha, marcou a Quaresma com a Via Sacra ao vivo, representada por utentes e funcionários, sete vezes.

“Nós, dentro do palco, somos fantásticos, somos amor. Cativamos o público a transmitir a água viva, a transmitir o amor verdadeiro e não as redes sociais; não vamos por máscaras, não é a aparência que faz do ser humano o que ele é, é o coração, o sentimento. É o tratar o outro igual, com amor”, disse João Paulo Silva, à Agência ECCLESIA.

A encenação dos passos da Via-Sacra do CARPD nasceu em 2005, da motivação dos utentes e de uma instituição que se adapta a cada um, este ano foi apresentada em Esposende, Ermesinde, Aveleda, e Vila do Conde.

“Foi fantástico, foi um carinho enorme, um abraço enorme. Sentimos o verdadeiro amor, o verdadeiro carinho, o verdadeiro entusiasmo. A verdadeira alegria, que o povo nos deu, foi fantástica, foi maravilhoso”, acrescentou o entrevistado, “um dos atores mais antigos da Via Sacra”.

“Têm sido espetaculares, espetaculares. Temos tido sempre casa cheia, e depois o carinho do público é maravilhoso.  Virem ter connosco, dizer que a mensagem passou, que levam algo com eles, isso é a melhor coisa”, acrescentou a funcionária Paula Pereira, que recorda, quando começaram, em 2005, “o preconceito, muitas das pessoas iam fazer um favor, ver os deficientes, hoje não”, nem precisam de divulgar, o público é que vai perguntar quando “é o vosso espetáculo, o vosso espetáculo, atenção”.

A ajudante de lar, antes de concluírem a série de representações da Via Sacra 2026, há uma semana, realçava que ia “ser um dia daqueles, duas atuações”: “Eles acabam o Natal, estão logo ansiosos que comecem os ensaios da Via Sacra: ‘Dr. Sérgio, já escreveu a Via Sacra?’. Estão ansiosos para decorar e, no entanto, começamos a decorar, e já estamos em cena, e hoje é o último, isto é tudo muito rápido.”

Emídio Silva tem 47 anos de idade e está no CARPD “há mais ou menos cinco ou seis anos”, e faz parte da Via Sacra ao vivo desde que chegou, este ano foi o ‘guia 2’, e recorda também a reação “muito boa” de quem os foi ver, receberam “imensos elogios, muitos aplausos”, e tiveram “quase sempre a casa cheia”.

“É bom, temos aquelas pessoas todas ali à frente a ver aquilo que somos capazes de fazer. Não somos aqueles coitadinhos que são deficientes, não sabem fazer nada. E quando estamos ali, estamos a mostrar que realmente não somos aqueles coitadinhos que eles pensam” salientou.

A funcionária Ana Paula Silva, irmã de João Paulo Silva, também integra a Via Sacra ao Vivo, este ano pertenceu ao grupo do ‘povo’, e afirma que “é bonito”, aconselha “mesmo a todas as pessoas a ver”, lembrando que é uma representação anual que passa por várias localidades, porque esta peça “é mostrar que é possível, ou seja, eles são capazes de muita coisa, embora a sociedade ache que não”.

Este ano a Via-Sacra teve como tema ‘dá-me de beber’, inspirou-se no diálogo entre Jesus e a Samaritana, com textos originais escritos por Sérgio Pinto, o diretor do CARPD, que os começa a preparar no início de cada ano, e envolveu 47 pessoas, utentes e funcionários.

Ana Paula Silva participa na peça “há uns seis, sete anos, este membro do ‘povo’, “neste momento, dava de beber à sociedade que não aceita a deficiência, entre aspas, os coitadinhos”, mas “não são, eles surpreendem-nos”.

“Era a sociedade que devia, todos os dias, vir cá ver, mesmo o voluntariado passar aqui um ou dois dias para ver o que eles fazem. É lindo, lindo, lindo mesmo”, observou a funcionária do lar.

João Paulo Santos Silva, 39 anos de idade, explicou que este tema da água viva relaciona-se também com “as redes sociais”, e recorda que, no primeiro excerto da Via Sacra, diz: ‘Num mundo com tantos avanços tecnológicos experienciamos tantos apagões da humanidade’.

“Eu acho que a humanidade está a ficar sobrecarregada com tanta coisa eletrónica, com tanta rede social, com tanto artificial, não estamos atentos a nós, humanos e na criação; Precisamos de uma mensagem de algo maior, de uma água viva, de um restauro que nos preocupe mais connosco em vez com as redes sociais, com a fantasia. E nós, na Via Sacra, transmitimos essa fé, e transmitimos com o maior coração, com a maior dedicação, com a maior entrega, com o maior sofrimento”, desenvolveu o guia número 1 da Via Sacra 2026.

Paula Pereira é ‘Jesus’ na Via Sacra ao vivo do Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência, e afirma que que não é preciso “ir muito longe” para ver a quem é preciso dar de beber, “basta olhar à volta, às vezes na própria família, um amigo”.

“Um abraço, ‘dá-me de beber’ pode ser a falta de um abraço, pode ser a falta de uma palavra. O dar-me de beber tem muito significado: não é só sede de matar a sede, é matar a sede de outra forma, de chegar às pessoas. É amor, no fundo, sede de amor, porque se precisa de um abraço, se precisa de uma palavra, precisa de amor, precisa de afeto, precisa de atenção”, desenvolveu a trabalhadora, que “todos os dias” dá de beber, mas recebe muito mais de beber dos utentes, porque entra-se em Toguinha e “é algo especial, eles é que dão de beber”, e bebe “muito do amor deles”.

Ana Paula Silva, a irmã de João Paulo Silva chegou ao centro primeiro, trabalha ali há 31 anos, e relata que “é uma família”, quando chega é recebida “com carinho” por utentes que “todos os dias surpreendem em várias situações”.

“Adoro o meu trabalho, e é gratificante trabalhar com eles; eles a fazer a peça surpreendem-nos, a gente não diz aquele utente tem estas limitações que eles surpreendem-nos em palco, não sei, nasce ali uma estrela, é gratificante”, salientou a ajudante de lar.

Segundo João Paulo Silva, que pertence ao Movimento Fé e Luz da Paróquia de São João Batista de Vila do Conde, “a Via Sacra é transformadora”, e apareceu na sua vida “como um passaporte”, porque “a cruz não é sofrimento”, mas, para si, “é salvação”.

“Salva, restabelece, cura. Porque Jesus morreu na cruz, mas ressuscitou, se ele ressuscitou, nós também do sofrimento vamos ressuscitar. Eu acredito muito na alma e acredito muito na fé”, realçou o utente que chegou ao centro em 2003, onde é telefonista, o animador da rádio, e ainda trabalha na Cooperativa Agrícola de Vila do Conde.

 

Emídio Silva, que é também telefonistas do centro onde conheceu “pessoas novas” e tem “mais atividades” no dia-a-dia, faz fisioterapia, o que gosta mais da preparação para a apresentação da Via-Sacra “é o convívio entre todos”.

“Tanto rimos, como choramos, como… É isso, é o convívio entre nós. Estamos ali todos concentrados naquilo, a preparar a Via Sacra e esquecemos o que se passa à nossa volta; Jesus, para nós, é sempre aquele homem que está ali na cruz, que nos salva de muitas coisas”, desenvolveu.

Maria Emília, em declarações após uma sessão de fisioterapia, sublinham que mostram que os “utentes também podem participar” nesta representação, e as pessoas “sejam inválidas ou não sejam, podem participar, ou sejam coxas ou que não sejam, eles podem participar em tudo”.

Com 65 anos de idade, “28, salvo erro,” foram vividos no Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência, onde gosta “de bordar, e de fazer muitos teatros e Vias-Sacras”, este ano pertenceu ao grupo dos fariseus, mas não gosta, “porque os fariseus são maus, são eles que vão crucificar Cristo”, mas tem de fazer.

“Desde que comecei a fazer a Via Sacra, tenho participado nelas todas”, observa, acrescentando que é bom para os tirar “um bocado” dos seus pensamentos, do seu “destino”, e para “tirar o caruncho todo da cabeça”.

A funcionar desde 1994, o CARPD, em Touguinha, Vila do Conde, nasceu para dar resposta às pessoas com deficiência, sentida na altura, e que hoje continua a existir, e apresenta resposta em Lar Residencial para 97 pessoas, acolhe 120 pessoas durante o dia no Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão e apoia 20 pessoas no domicílio.

O Programa ‘70×7’ deste domingo, dia 29 de março, é dedicado ao Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência, da SCMVC, e à sua Via Sacra ao Vivo 2026, a partir das 07h28, na RTP2.

CB/OC

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