Na conferência de imprensa de apresentação da Peregrinação do Migrante e Refugiado, em Fátima, esteve também Eugénia Quaresma, que referiu que Igreja luta para que os migrantes não deixem de ter voz

Fátima, 12 ago 2026 (Ecclesia) – O presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana afirmou hoje, em Fátima, que a Igreja deve ser clara relativamente ao tema da imigração, defendendo que quem assume posições extremistas, de xenofobia e de exclusão social, está fora da tradição da sensibilidade cristã.
“Não pode haver ambiguidade e temos que ajudar, aos vários níveis, os membros das nossas comunidades cristãs a perceberem isso. Não há espaço para preconceito, discriminação negativa, xenofobia, para aqueles que se dizem cristãos”, afirmou D. Pedro Fernandes, na conferência de imprensa, no Santuário da Cova da Iria, em resposta aos jornalistas.
Fátima acolhe hoje e quinta-feira a Peregrinação do Migrante e do Refugiado, que vai ser presidida pelo Núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, e que se insere na Semana Nacional das Migrações, com o tema “Da fragilidade à esperança”.
O responsável católico defende que todas as questões relacionadas com a migração também têm que ver com o que se passa a montante, nos países de origem, considerando que este caminho de “desenvolvimento integral de todas as sociedades” deveria fazer parte “da responsabilidade da comunidade internacional e, em concreto, dos países europeus”.
“Depois, localmente, parece muito importante que nós tenhamos um papel muito proativo na estimulação da sociedade e também dos Estados e do Governo e dos Governos, no sentido de que o trabalho que se faça neste campo seja um trabalho realmente criador de sinergia”, disse.
O bispo de Portalegre-Castelo Branco realça a importância de escutar associações, entidades envolvidas com as minorias, para que todos tenham voz e para que as soluções encontradas possam ter em conta todas as sensibilidades.
Senão corremos o risco de apresentar propostas que acontecem em gabinete ou que respondem simplesmente a agendas muito parciais de interesse partidário e isso é o pior que pode acontecer”, advertiu.

Na apresentação da Peregrinação do Migrante e Refugiado esteve também a diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), Eugénia Quaresma, que deu conta que o serviço que dirige tem, desde 2023, divulgado as orientações pastorais para a interculturalidade.
“A igreja está atenta, sabe que é preciso trabalhar nesse sentido e é preciso ter pontes entre as comunidades em Portugal e as comunidades lá fora”, afirmou, referindo-se à necessidade de promover, junto da emigração portuguesa, reflexão e formação sobre integração relativamente a chega de fora.
Na intervenção, a responsável abordou o início do trabalho na OCPM, lembrando que a Igreja foi caminhando com os migrantes e que hoje a luta é para que estes não deixem de ter voz e possam contribuir com “para as políticas mais inclusivas”.
“Uma coisa muito importante para a integração e que temos que trabalhar, e é por isso também que estamos aqui, é o nosso coração. A capacidade de integração também passa pelo coração, passa pela visão que eu tenho daquele que está ao meu lado, do vizinho, do trabalhador, do estudante”, mencionou.
Em conferência de imprensa, D. Pedro Fernandes evocou o Papa, que muitas vezes se tem referido às pessoas em situação de imigração não como problemas, indicando que este é o caminho a seguir: “Elas são pessoas e, portanto, é assim que deve ser tratado este assunto”.
O presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana considera que “é importante perceber que as capacidades de acolhimento crescem se houver investimento nesse sentido”. No centro de imprensa no Santuário de Fátima, o bispo evidenciou que é importante que as pessoas que escolhem Portugal para viver e trabalhar sejam vistas como “um dom”, enfatizando que a sua presença no país enriquece a sociedade em “muitos sentidos”. “Pela diversidade cultural e espiritual, pelo contributo que trazem à nossa economia, que tanto precisa de gente, mão de obra, de produtores, de consumidores. Portanto, são efetivamente uma riqueza, mas são também um desafio. Não podemos receber estas pessoas em Portugal de qualquer maneira”, frisou. O bispo apelou que se criem condições para que se apliquem os verbos fundamentais que a Igreja tanto valoriza – “acolher, proteger, promover e integrar” – e que o caminho para a sua efetivação tem de ser “positivo” e não funcionar a partir da negação. O bispo deixou também uma palavra aos portugueses que vivem no estrangeiro, referindo que têm uma riqueza que pode ser “muitíssimo útil”, realçando “o contacto com outras realidades culturais”. “[Emigrantes portugueses] vivem na própria pele esta tensão entre a integração noutra realidade e a permanência na própria identidade, que não pode ser desvirtuada, mas enriquecida”, indicou. |
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