Vaticano: «Há riquezas desproporcionadas que permanecem nas mãos de poucos» – Leão XIV

Papa fala num «cenário injusto» e lembra populações desfavorecidas em todo o mundo

Foto: Vatican Media

Cidade do Vaticano, 10 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa lamentou hoje, no Vaticano, o aumento de pessoas em situação de pobreza e condenou que a riqueza esteja na mãos de poucos, defendendo a sua distribuição.

“No mundo existe, no geral, muita riqueza; no entanto, o número de pobres continua a aumentar. Centenas de milhões de pessoas em todo o planeta vivem em situação de pobreza extrema e não têm acesso a alimentos, habitação, cuidados médicos, escolas, eletricidade, água potável e serviços de saneamento essenciais”, afirmou Leão XIV, segundo a intervenção divulgada pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

No discurso proferido numa audiência com dirigentes e funcionários do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) italiano, na Sala Clementina, o Papa salienta que, no entanto, “há riquezas desproporcionadas que permanecem nas mãos de poucos”.

É um cenário injusto, perante o qual não podemos deixar de nos questionar e de nos empenhar em mudar as coisas. Não existe um determinismo que nos condene à desigualdade”, disse.

Leão XIV realça que “na base das disparidades não está a falta de recursos, mas a necessidade de enfrentar problemas resolvíveis relacionados com a sua distribuição mais equitativa, a realizar com sentido moral e honestidade”.

O Papa lembrou a atenção dada pela Igreja Católica às necessidades concretas das pessoas, tanto no que diz respeito ao mundo do trabalho como à ajuda aos necessitados, evocando Leão XII, São João XXIII e Francisco.

A intervenção fez referência ao magistério social do antecessor de Leão XIV, em particular à Encíclica Fratelli tutti, onde o Estado-providência surge como um verdadeiro direito universal, e também ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja.

“Neste contexto, em Itália, deve ser sem dúvida reconhecido ao vosso Instituto um papel de protagonista, que orienta a sua ação em diversas direções, implementando políticas de segurança social geradoras de bem-estar e de desenvolvimento social efetivo, a partir da proteção dos mais vulneráveis e do investimento nos jovens”, disse o Papa aos participantes.

Segundo o Papa, mesmo perante a necessidade de garantir a sustentabilidade do sistema, o empenho dos presentes “deve estar sempre voltado também para salvaguardar o seu tecido solidário e a equidade” dos mencionados, “tanto a nível das pensões como do acompanhamento do trabalhador ao longo da sua trajetória profissional”.

Leão XIV verifica que “os cenários típicos do mundo do trabalho do século XX mudaram”, indicando que as causas são múltiplas: a financeirização das empresas, a externalização da produção à escala mundial, os elevados custos da mão-de-obra”.

Foto: Vatican Media, Papa com o presidente do INPS, Gabriele Fava

O Papa destacou sobretudo “o desenvolvimento tecnológico acelerado, com o forte impacto da inteligência artificial, cujas múltiplas — e, em parte, inexploradas — facetas ainda estão por analisar e avaliar”.

“Os percursos profissionais, que durante muito tempo foram na sua maioria lineares, com postos de trabalho frequentemente ocupados ao longo de toda a vida, caracterizam-se agora por uma maior precariedade e variabilidade, com o crescimento de modelos de trabalho a termo, a tempo parcial, temporário, por chamada, muitas vezes independentes, nas formas mais variadas e híbridas”, declarou o Papa.

Leão XIV ressalta que daí resultam novas necessidades, com novas responsabilidades para o Estado e para o indivíduo, “cuja satisfação não pode deixar de envolver as instituições de segurança social, e o INPS em particular”.

No final, o Papa recuperou as palavras do Papa Francisco que dirigiu ao Instituto há mais de dez anos: “Não esqueçam o homem: este é o imperativo. Amar e servir o homem com consciência, responsabilidade e disponibilidade”.

“Trabalhar para quem trabalha e, não menos importante, para quem gostaria de trabalhar mas não pode. […] Apoiar os mais fracos, para que a ninguém falte a dignidade e a liberdade de viver uma vida autenticamente humana”, citou.

LJ/PR

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