Carlos Borges, Agência Ecclesia

“Eu tou no Vale, actividade
Salve, salve a comunidade
Falam mal, mas só vi coisas boas
Tipo putos craques têm muita bola
Miúdos brincam no parque depois da escola
Tal como deve ser
E é tanta beleza, só tenho que sorrir
Mesmo sem riqueza dá pra ser feliz” – ‘Trigo Limpo’, música ‘Vale da Amoreira’
Um mês dedicado à comunicação social, Maio de 2026 não foi exceção. Começou com o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, da UNESCO – 3 maio, e, a meio, destacou-se o Dia Mundial Das Comunicações Sociais, data instituída pelo Concílio Vaticano II, no domingo anterior ao Pentecostes. Este ano, no dia 17, a Igreja Católica celebrou a 60.ª edição.
“O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro”, salientou Leão XIV, na mensagem do Dia Mundial das Comunicações Sociais 2026. O Papa alerta para os riscos de uma tecnologia digital que “simula” a realidade humana.
Vou regressar a um tema que já aqui trouxe. O Vale da Amoreira. Sim, é um cromo repetido, neste artigo que são dois, fui falar com quem conhece o bairro. Esta periferia, na periferia da Área Metropolitana de Lisboa, como existem muitas que normalmente não têm vez, nem voz na Comunicação Social, os seus rostos não são conhecidos, só mesmo a excelência mediática, ou casos de polícia.
“No Vale da Amoreira, neste momento, a gente apela por uma voz por vários motivos, que não são diferentes dos outros sítios: Falta da habitação, a falta de muita coisa que o povo tem começado a dar conta. E os canais, que muitas das vezes transmitem essas notícias, não chegam até nós, ou chegam deturpadas: Chega muito mais fácil a notícia que se roubou um chouriço no Minipreço, do que termos cá um Prémio de Literatura”, disse Paulo (“Cavernas”) Ramos, em entrevista, no passado sábado.
O Vale da Amoreira, no concelho da Moita, pode não parecer o sítio mais convidativo para simplesmente ir, mas tem pontos de interesse e pessoas que o tornam conhecido pela positiva, desportistas – NBA e olímpica -, um escritor reconhecido, bons ‘graffiters’, e interessantes obras de arte urbana, quase um roteiro, músicos. E muita gente anónima conhecida pelo bem-fazer.
Para o meu entrevistado, “são demasiadas pessoas” os rostos e vozes que testemunham o bom, o belo, o bem-fazer, e o empoderamento aqui no bairro. E eu sou amigo de algumas, até estive com elas na Missa de domingo, na Capela do Vale da Amoreira, como a Alice Teixeira e a Felícia. E Paulo Ramos continua: a Avó Pepa, o tio Amílcar, a Tia Mimosa, pessoas anónimas “sem patentes”, porque, depois, existem as que têm visibilidade nacional e mundial, pela sua escrita, o Bruno Amaral Vieira, no desporto a Liliana Cá, o Pedro Pinhal “grande artista plástico”/urbano, Neemias Quetas, e “jogadores da bola que saíram daqui às pazadas”, músicos como o (Deejay) Telio: “Fazem parte da grande caderneta do Vale do Amoreira”.
O Vale da Amoreira é uma ‘matrioska’ urbana, não é um grande bairro, nem apenas um bairro, muito menos um bairro social, mas é constituído por vários bairros, tem casos sociais, e todo o género de habitação/construção. As suas pessoas, rostos e vozes são, muitas vezes, silenciados. O bom e o belo, normalmente, não encontram eco nas notícias, nos meios de comunicação social. A desgraça, o crime, a má qualificação no ranking das escolas dominam as pesquisas nos motores de busca. Não nos podemos esquecer que esta antiga freguesia tem o rótulo de ‘bairro crítico’, e ainda somos ‘ZUS’, uma ‘Zona Urbana Sensível’.
“Trouxe um sabor amargo. Por incrível que pareça, quando nos deram esse estigma, era quando o Vale da Moreira estava no mais alto nível de comunidade e associativismo. O associativismo estava tipo pipoca, tinha-se uma ideia e rapidamente a gente punha todo o movimento a funcionar, muita é a participação do povo”, lembrou.
Segundo Paulo Ramos, a iniciativa ‘Bairros Críticos’ apareceu em 2003, e, no final, fez “um make-up, várias requalificações urbanas, mas cosméticas, não foi uma transformação por aí além”, prometeram “ferramentas, muita coisa, e o que deram foi desgraça”: “Perdemos aquilo que era a essência do Vale da Amoreira, um povo de resiliência, um povo batalhador.”
“E eu pergunto agora ao sistema, ‘como é que nós, os bairros que fomos conotados como críticos, podemos limpar a nossa imagem?’; não vou cair no erro de dizer que o Vale da Amoreira é um vale encantado que aqui nada se passa, passa-se como em qualquer lado”, acrescentou.

O entrevistado pertence ao Movimento ‘Vida Justa’, que no Vale da Amoreira quer ajudar “a ser empreendedor”, quer “dar as ferramentas e ajudar a trabalhar com as ferramentas”, não dar apenas a cana. Quer ajudar a suprimir necessidades como problemas de documentação, de habitação, “vários tipos de problemas de todos os dias”.
Em abril, a ‘Vida Justa’, em parceria com a União de Freguesias da Baixa da Banheira e Vale da Amoreira, dinamizou uma Formação ‘Jornalismo de Telemóvel’, para quem quis “aprender a contar a história da sua rua, do seu bairro, ou da sua comunidade”. Também participei neste “dia para aprender, partilhar e conviver”, com informações sobre Direito, jornalismo, fotografia, vídeo. E o desafio de participar no seu ‘Jornal dos Bairros’ com as histórias e a vida concreta e real desta periferia da margem sul.
“Onde só entrar a Comunicação Social para denegrir cabe-nos a nós fazer o juízo de valor do bairro, de cada bairro. Se uma coisa que saiu não condiz à verdade quem é que tem que repor essa verdade? Ninguém melhor do que o bairro para conhecer e para saber quais são as suas características”, acrescenta o ativista, indicando que esta formação “foi e é útil para a população”, serviu para mostrar que “há caminho para fazer, um caminho certo, mais sólido”.
O artigo já muito grande, mas ‘o Vale, vale a pena’. Gosto desta frase de um antigo autarca, e o Paulo Ramos concordou com ela, nesta conversa (entrevista) no último sábado, pela manhã, no Bairro das Descobertas, no Bairro Fundo Fomento, a tal ‘matrioska’. Funcionário público, ativista, membro do movimento associativo, tem 52 anos e vive no Vale da Amoreira desde 1981. Antes passou pela Amadora, Cova da Moura/Buraca, Odivelas, Alcântara, Almada e Seixal. Foram cerca de 50 minutos de gravação, em quase três horas de conversa.
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