Somos livres… Somos?

Henrique Matos, Agência ECCLESIA

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Neste 52º aniversário da revolução de abril, que tradicionalmente festeja a liberdade conquistada aos que a entendiam como um devaneio perigoso, recordo Ermelinda Duarte.

Naqueles dias, no embalo da revolução, entoava-se uma música cujas duas primeiras estrofes poucos recordam e cujo registo de marca revolucionária abria depois, com os arranjos de José Cid, para uma melodia que ficava no ouvido. A menção a uma gaivota que voava, voava… ajuda a identificar ao que me refiro porém, aquela que todos recordam como a música da gaivota, tem por título “Somos livres”.

A expressão, apresentava-se naquele momento como uma evidência que traduzia a nova realidade dos portugueses depois de décadas de controlo político hegemónico. A ousadia e o risco que alguns correram para usufruto de todos, não podem ser ignorados e essa atitude, deve permanecer como valor a revisitar.

Se a ditadura foi longa, o período da liberdade já a supera em anos, 48 contra 52. Na evocação anual de abril, temo que nos fechemos em demasia na evocação histórica e menos no questionar se somos hoje fiéis ao legado recebido. Se porventura não temos vindo a desbaratar este bem, pelo facto de o considerarmos garantido e evidente.

Sendo a liberdade, ingrediente obrigatório da democracia, sendo esta última uma conquista civilizacional, talvez valha a pena perguntar porque crescem hoje movimentos que a questionam sugerindo soluções simplistas e imediatas para problemas complexos?

Será que a democracia se descuidou? Que a liberdade afinal é limitada sempre que as necessidades elementares de cada um não são asseguradas? Quando o direito à habitação, ao trabalho digno, a uma vida previsível e com oportunidades, continua uma ficção?

Em Portugal, 52 anos depois do Abril da liberdade, 9 em cada 100 trabalhadores são considerados “pobres”, totalizando quase meio milhão de pessoas que, apesar de terem emprego, não superam o limiar da pobreza.

Esta circunstância, gera os desiludidos da liberdade e os descontentes da democracia,  acendendo neles, quanto mais não seja, o benefício da dúvida perante as promessas populistas. A distância temporal que apaga a memória, faz o resto do trabalho.

É proibido proibir, gritava-se em 68 em Paris, apregoando uma liberdade idílica onde qualquer limite lembrava censura e regresso ao passado. Anos antes, em 1945, na obra A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, Karl Poper formulava o paradoxo da tolerância, defendendo que a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se a sociedade tolerar os intolerantes sem restrições, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles.

Isto para lembrar que a liberdade tem custos e é exigente, é um direito cheio de deveres. E a democracia não pode ser apenas uma aparência e um chavão a servir apenas um pequeno grupo. Deve ser uma mesa grande onde todos têm lugar, no usufruto e na contribuição.

Importa a memória, mas é fundamental o seu confronto com o presente. Lembrar a liberdade é também ter consciência das bolhas digitais que nos dividem e aprisionam, dos algoritmos que alimentamos com devoção mas que nos roubam a identidade, daqueles que não se mostram, mas que edificam um sistema de controlo implacável capaz de fazer corar ditadores de outros tempos.

Somos um povo que cerra fileiras
Parte à conquista do pão e da paz
Somos livres, somos livres
Não voltaremos atrás

A estrofe de Ermelinda Duarte, apela a que façamos por isso sabendo que, como há 52 anos, nada se conquista sem ousadia e sem risco.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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