«Até que enfim – Alguém fala comigo»

António Salvado Morgado, Diocese da Guarda

Há palavras que caem em nós como pancadas de bombos de despertar. E aquelas palavras caíram nos nossos ouvidos precisamente quando havíamos acabado de ler a encíclica papal “Magnifica Humanitas” de Leão XIV. Naqueles dias o documento papal era até a ordem do dia nos meios de comunicação social. Por pouco tempo. Hoje já pouco se fala dele, embora continue na lista dos livros mais vendidos nas livrarias.

Foi numa manhã de Junho que passámos por ali e o calor já se fazia sentir naquela rua de Lisboa situada entre o edifício de uma igreja de linhas modernas e um grande centro comercial em forma de circo estrategicamente pensado para servir um aglomerado habitacional com edifícios de dez andares. Uma urbanização desenhada a esquadro, toda ela é geometria. Também é geométrica aquela rua. Com duas faixas de rodagem separadas por uma linha verde e com passeios avantajados para peões só quebrados por linhas de estacionamento para automóveis, aquela rua, nascendo numa pequena rotunda, desemboca numa rotunda maior que circunda o centro comercial. Era para lá que nos encaminhávamos. Uma visita de circunstância e sem importância digna de nota.

Naquele dia os jacarandás floridos que alindavam aquele espaço iam pintando também de azul-lilás os passeios com pétalas que o vento fazia tombar dos ramos e que os passos dos transeuntes iam esmagando sem qualquer consideração. Lá ao fundo um trabalhador arrastava um carrinho de limpeza. Parou e começou a varrer. Do nosso lado, do lado do nosso caminhar. Era naquela direcção que seguíamos enquanto íamos olhando para os jacarandás cuja beleza desafiava a nossa atenção. A dois ou três passos de distância, fomos identificando o varredor.

Havíamo-lo conhecido há longos anos em tempos da sua juventude a lidar, no meio de outros jovens da sua idade, com os seus problemas de saúde. De saúde mental é verdade, mas a que nunca faltava aquela saúde espiritual de criança que sempre o caracterizava. O tempo passou, os amigos da sua idade foram dispersando e ele por ali ficou acabando por arranjar trabalho no município. O trabalho de varredor da rua que ele vem realizando com o empenho e dedicação que a sua situação lhe permitia. Parámos e cumprimentámo-lo com efusividade a que ele correspondeu com uma alegria transbordante, sorriso nos lábios e logo um lamento incontido:

– Até que enfim, alguém fala comigo.

Foram as primeiras palavras que lhe ouvimos, mesmo antes de mostrar sinais de que nos havia reconhecido. E, passados tantos anos, reconheceu-nos muito bem como o mostrou pela conversa de alguns minutos que com ele mantivemos. A alegria inicial sentida com o nosso encontro foi logo contrastada a lamentar-se que os amigos o haviam esquecido. Nós bem tentámos fazer-lhe entender que esses amigos viviam agora longe e que a vida não lhes permitiria os contactos desejados.

– Mas eles têm o número do meu telefone e nem sequer me telefonam. – Respondeu-nos com acentuada manifestação de tristeza, enquanto apontava para alguns nomes.

Há palavras que se ouvem no silêncio acentuado pelo barulho estonteante das ruas. Quantos varredores de quantas cidades e aldeias limpam as ruas que nós sujamos e que nunca ouvem uma palavra de saudação vinda de quem passa!

Leão XIV vem falando na importância de «desarmar as palavras» e a expressão já vem sendo cunhada como marca da sua linguagem e do seu magistério. Naturalmente ela aparece na “Magnifica Humanitas”. Há palavras e palavras. E há a palavra do silêncio.

Regressámos a casa. Abri novamente a encíclica papal. O encontro com este varredor foi a confirmação das palavras do Pontífice: «O poder das palavras é enorme e experimentamo-lo na comunicação quotidiana, quando alguém nos diz algo que altera o nosso estado de espírito, para melhor ou para pior.» [214]

Há situações em que «desarmar as palavras» é desarmar o silêncio perante as desumanidades por que passamos enquanto pisamos pétalas coloridas dos jacarandás.

Guarda, 8 de Julho de 2026
António Salvado Morgado
[email protected]

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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