Afinal… a Fraternidade é Hiper Vanguardista!

Padre Digo Martinho, Diocese de Lamego

Normalmente as notícias que nos chegam da Suíça estão relacionadas com sorteios da UEFA ou com a vinda dos nossos emigrantes. As últimas notícias que nos chegaram dessas terras transalpinas, tal como há 5 séculos, tiveram a ver com divisões e discórdias na Santa Mãe Igreja Católica.

Há 5 séculos houve gente que achou que a Igreja Católica estava “em circunstâncias totalmente excecionais” e que as autoridades da Igreja estavam “imbuídas de um espírito contrário ao da Fé”. Hoje, como ontem, quase a papel químico, a mesma motivação.

Falamos da “ordenação” dos 4 “bispos” que a Fraternidade Sacerdotal de São Pio Décimo decidiu realizar sem, para isso, ter autorização (obrigatória) do Santo Padre.

Para percebermos, o nome “São Pio X” foi escolhido porque ele combateu vigorosamente o modernismo, mas nunca ensinou que, se um católico julgasse que o Papa ou os bispos estavam a favorecer erros, poderia agir contra a constituição hierárquica da Igreja. É difícil invocar São Pio X para justificar uma atitude que acaba por colocar um juízo privado (“Roma errou”) acima da autoridade de Roma.

Que há questões difíceis, há. Como a ligação à maçonaria de alguns dos “arquitetos” do “Novus Ordo” ou o excesso de colegialidade para o qual poderemos estar a resvalar. Mas considerar que, desde o Segundo Concílio do Vaticano, a Igreja está desgovernada será bastante presunçoso. Ora, se gostamos tanto da Tradição, provavelmente também gostamos da História e o que Ela nos mostra é que sempre que há tensões na Igreja (e é saudável que haja) elas resolvem-se efetivamente na festa do Pai Misericordioso, não na imprudência do filho mais novo nem na arrogância do mais velho.

Deveria ser óbvio que só com diálogo sério e abertura à Verdade (que nunca é apenas o que nos parece) é que a Ecclesia se edifica e prevalece. Por exemplo, na questão do Ofertório, que supostamente diminuiu a dimensão sacrificial e evidenciou exclusivamente a apresentação dos dons (beraká judaica). É preciso um olhar bastante enviesado para não saber que o Sacerdote diz nesse momento “em humildade e contrição sejamos recebidos por Vós, Senhor, e assim este sacrifício se torne agradável a Vossos olhos” bem como logo de seguida “orai, irmãos para que o meu e o vosso sacrifício seja aceite por Deus Pai, Todo-Poderoso” cuja resposta do povo é “receba O Senhor, por tuas mãos, este sacrifício, para Glória do Seu Nome, para nosso bem e de toda a Santa Igreja”.

Resumindo e concluindo, a FSSPX pode alegar que tem um ponto de vista que considera doutrinalmente mais puro, mais verdadeiro ou mais cristalino. É legítimo e saudável. Contudo, ilegítimo, desonesto e doentio é usar uma espécie manhosa de objeção de consciência, que até é uma ferramenta tipicamente modernista, como último reduto para combater o… modernismo. Isso é hiper vanguardismo! Ao alcance de poucos!

Que é que resta? Rezar fervorosamente pelo Santo Padre, mantermo-nos totalmente em união com ele e com a Hierarquia Magisterial e, no fundo, convertermo-nos, para corrigirmos as nossas incongruências, cosermos os rasgos da Única Túnica de Cristo – sempre nova – e, juntos, a fazermos resplandecer num mundo que, tão rápido é moderno como de repente é antiquado.

Padre Digo Martinho

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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