Tradição e Progresso na Igreja

Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real 

Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real

Foi indisfarçável que o Pontificado do Papa Francisco foi marcado por algumas tensões e confrontações entre os denominados conservadores e progressistas dentro da Igreja, e chegou mesmo a pairar no ar a ameaça de um cisma ou de uma profunda cisão na Igreja Católica, o que teria consequências imprevisíveis. Infelizmente, as tensões perduram no pontificado de Leão XIV. Alguns consideram que esta divisão entre conservadores e progressistas é uma forma enviesada e pouco correta de olhar para a Igreja, até revestida de alguma tonalidade política e ideológica, e pode até arrastar muitos católicos para discussões e antagonismos superficiais e despropositados. É uma armadilha, sem dúvida. Na verdade, só há uma Igreja, a Igreja de Cristo, à qual pertencemos desde o batismo, há uma só fé partilhada por todos, que não está sujeita aos humores de cada tempo, e um só Evangelho para viver, todos unidos na missão de o viver e anunciar, e de construir o Reino de Deus na terra dos homens. Por isso, na Igreja não deve haver conservadorismo nem progressismo. A Igreja não se constrói nem existe para ser subserviente às ideias pessoais dos seus membros, nem para existir a toque de caixa das ideias e modas de cada tempo.

No entanto, a Igreja caminha no tempo. Não é uma instituição parada na história. Está no mundo e vive no mundo. E o mundo pula e avança, mundo que apresenta sempre novos desafios, problemas, apelos, mudanças, modos de vida novos, transformações e inovações, e reclama caminhos novos e soluções inéditas e originais. Apesar de ser presença e sinal do eterno na história e no tempo, a Igreja tem de saber ser Igreja para cada tempo, saber viver em cada tempo e saber ir ao encontro das exigências e sinais de cada tempo, sem deixar de ser sempre a Igreja de Jesus Cristo. É o que habitualmente se diz saber adaptar-se aos tempos, sendo que adaptar-se aos tempos não é tornar-se igual aos tempos. Cada tempo traz coisas boas, mas também traz coisas más. É preciso uma filtragem e uma leitura serena, aturada e crítica de cada tempo, na escuta do Evangelho, para se promover a mudança. Aqui é que, por vezes, aparecem os conservadores e os progressistas, os que preferem manter tudo sempre na mesma, que acham que “Deus é sempre o mesmo” e que tudo tem de se continuar a fazer como sempre se fez, refestelados nas certezas, regras e dogmas de sempre, com fobia à novidade e à mudança, e os que defendem atualizações constantes da Igreja, fascinados pela novidade. A uns talvez seja oportuno lembrar que a tradição não é imóvel, deve ser criativa e saber inovar, o Evangelho é vida e movimento, como dizia o Papa Francisco, a Igreja não é um museu; a outros lembrar que o progresso nem sempre é bom e é preciso saber inovar com sensatez. Mas há mudanças que são inevitáveis, fruto de uma sensibilidade apurada pelo tempo e pelo pensamento amadurecido da Igreja.

Foi o que aconteceu com o Concílio Vaticano II. Por determinação deste Concílio, a liturgia passou a ser celebrada nas línguas vernáculas, ou seja, nas línguas próprias de cada país. É apelidada como «a grande mudança». Como sabemos, excetuando-se a homilia do presidente da celebração, toda a liturgia era celebrada em latim, língua que o povo não compreendia.

A reforma do Concílio foi orientada por um regresso aos inícios e à prática original do Cristianismo. Jesus Cristo falou o aramaico palestinense. Os primeiros cristãos falaram e usaram, sobretudo, o grego. Só no século IV é que surge a tradução da Bíblia para latim, feita por S. Jerónimo. Com o tempo, por força da reforma gregoriana na Idade Média e com o Concílio de Trento no século XVI, o latim monopolizou a liturgia e a vida da Igreja. Não é correto dizer-se, como se ouve muitas vezes, que o latim é o mais genuíno e o mais original da história da Igreja. Não é. É o vernáculo.

Mais de cinquenta anos passados da «grande mudança», a Igreja deve rejubilar pelo grande passo que foi dado, sobretudo porque foi um progresso que veio de encontro à identidade e à essência do Cristianismo, que tem na sua base a comunicação, o Verbo. A fé é a resposta do homem à iniciativa de Deus em se revelar e comunicar aos homens, para com eles viver em relação e celebrar uma aliança. «O Verbo encarnou e habitou no meio de nós». Para haver verdadeira relação é fundamental a comunicação. Não tinha sentido celebrar uma liturgia e ler leituras, que são Palavra de Deus, que a esmagadora maioria dos ouvintes não entendia. S. Paulo, na sua Carta aos Romanos, diz algo fundamental: «A fé surge da pregação». A liturgia parecia mais uma ação do padre e não de todo o povo, que se habituou erradamente a «assistir à missa» ou a «ouvir a missa». A missa era um “assunto” do padre. O povo era mero assistente ou espectador, criando até o hábito de rezar o terço enquanto o padre se virava para os altares. Agora que todos falamos a mesma língua, sentimos Deus mais próximo e percebemos que somos todos participantes. Todo o povo celebra. O padre ou o bispo presidem, mas é toda a comunidade que está a celebrar. Alguns defendem que o latim dava um certo carácter misterioso, sagrado e místico à Missa. No Cristianismo só há um mistério, que é o mistério do amor de Deus, se tem algo de sagrado é Cristo e não o rito em si, e não vejo onde há misticismo em celebrar algo que não se compreende.

Com o Concílio Vaticano II a Igreja mudou, mudou bem e mudou para melhor. Vem isto a propósito do recente conflito entre a Santa Sé e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, denominada como ultraconservadora, que resultou na excomunhão de alguns dos seus membros.  Deixando da parte de fora os contornos políticos do conflito, que são facilmente palpáveis e lamentáveis, depois de mais de sessenta anos do Concílio, não se compreende que se alimente o sectarismo e o divisionismo dentro da Igreja em nome de “birras” litúrgicas e de tradicionalismos que já tiveram o seu tempo e hoje já não fazem sentido. A tradição quando vira tradicionalismo encarniçado é uma idolatria. O fundamental da Eucaristia é acolher a palavra de Deus e a presença viva de Cristo, celebrar o amor incomensurável e eterno de Deus e não celebrar um rito em nome da tradição, ou em nome, segundo dizem, do verdadeiro e genuíno culto que se deve prestar a Deus e com que Deus deve ser adorado. Deus nos livre dos puros e verdadeiros detentores da verdade e da pureza, cujas “proezas” a história nos conta. O que Cristo não tem de aturar na sua Igreja!

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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