Antigo reitor da Universidade de São José, em Macau – a única universidade católica na China continental -, regressa a Portugal após oito anos em território chinês, fazendo um balanço positivo da experiência. O novo diretor do Departamento das Relações Ecuménicas e do Diálogo Inter-Religioso no Patriarcado de Lisboa sublinha o pragmatismo do Vaticano, na renovação do acordo com Pequim, sobre a nomeação de bispos, sublinhando que em 2030 a China pode ser «o maior país cristão do mundo».

Entrevista conduzida por Henrique Matos

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Agência Ecclesia (AE) – Se os números estão corretos a Universidade de São José tem cerca de 1700 alunos. Pode-se dizer que é um importante pólo de criação de saber, alinhado com os princípios da ética cristã e dos valores, numa oferta de ensino na República Popular da China?

Padre Peter Stilwell (PS) – No extremo Oriente são 1200 alunos neste momento. Tem vindo a crescer ao longo dos últimos anos. Consta-me que neste ano letivo que começa, há um ligeiro maior número porque houve algum receio por parte das famílias. Era previsível enviarem os seus filhos para o estrangeiro – trata-se de um hábito tradicional em Macau, enviar os filhos para estudar nos Estados Unidos da América, Canadá ou Inglaterra e também para a China continental.

O medo do vírus, os inconvenientes de ter de fazer quarentenas pelo caminho, levou a que as pessoas retivessem os seus filhos, ou os próprios estudantes preferiram fazer os seus estudos localmente.

A Universidade tem os princípios de uma Universidade Católica. Só uma pequena percentagem dos alunos é que serão cristãos ou católicos – em Macau é menos de 3% da população que é cristã ou católica – entre os professores também, embora a percentagem seja maior, porque os professores são recrutados de fora de Macau. Há muitos professores que não são cristãos ou batizados.

Como é que se pensa a questão dos valores e porque é que se chama Universidade Católica? Tem um curso de Teologia, de Filosofia, formação de padres e tem outras áreas de Gestão, Arquitetura, Design, Serviço Social e Educação. O princípio que eu fui seguindo é que as pessoas deviam perceber que a mundividência da Universidade era cristã; ao aceitarem ser alunos ou professores sabiam quais eram as regras da casa e foi esse o desafio que lancei aos professores.

À medida que o tempo fosse passando, que eles fossem analisando quais os valores de fundo das suas áreas de saber. Quando a pessoa está a ensinar Direito ou Gestão, qual a visão do mundo que está por detrás do tipo de gestão que se está a ensinar? E gradualmente fui vendo que houve inflexão nos objetivos que as pessoas colocavam ao desenvolvimento das suas Faculdades, dos seus departamentos e isso, penso, era o objetivo de longo prazo.

A curto prazo havia gente que achava que devia haver umas disciplinas especiais de ensino sobre a ética cristã, mas essas disciplinas extracurriculares ou têm um professor brilhante que atrai os alunos por causa do seu magnetismo pessoal ou acabam por ser contraproducentes porque são aceites como uma «seca» pelos alunos e não vão na linha das matérias que eles estão a estudar.

 

AE – O ex-responsável governamental pelos assuntos sociais e pela cultura, Alexis Tam, reforçou uma estreita colaboração entre a Universidade de São José e a Universidade Católica Português (UCP), como reforço da estratégia de Macau, enquanto plataforma de cooperação entre a China e os países lusófonos. Falar desta Universidade é falar de uma ponte com o Ocidente, com Portugal concretamente?

PS – Há uma expectativa por parte da sociedade e por parte do governo de que a Universidade de São José se desenvolva para ajudar Macau a ser o que o governo central deseja, que é uma plataforma de encontro entre a China e os países lusófonos.

Penso que há ainda um caminho a percorrer para sermos capazes de responder a essa expectativa mas, sem dúvida, a Universidade foi criada pela UCP e a Diocese de Macau. São as duas entidades que são donas da Universidade de São José, existe no seu ADN essa ligação a Portugal.

É preciso, no entanto, que as matérias do ensino do português e da cultura portuguesa se desenvolvam e isso conseguimos nos últimos anos: primeiro a criação de alguns cursos, e o curso que tem tido mais sucesso é o de tradução chinês-português. Temos outra licenciatura sobre literatura lusófono, mas tem pouca procura.

 

AE – A Universidade de São José não pode abrir candidaturas no território da China continental?

PS – Foi uma limitação. Somos a única instituição de ensino superior em Macau que não pode recrutar na China continental. Temos tido sempre, ao longo dos meus tempos como reitor, palavras simpáticas por parte dos representantes do governo central, ninguém quer ser obstáculo, todos dizem que o problema não está com eles, mas o facto é que a autorização para recrutar tem demorado.

Penso que no ano letivo passado houve um avanço legal, uma vez que Macau assinou um acordo com Portugal e outro com a China continental para que todos os títulos concedidos em Macau fossem reconhecidos diretamente.

Os títulos dados em Macau pela Universidade de São José são reconhecidos na China, portanto a questão está em saber até que ponto é que o governo central irá colocar na lista de Universidade aceites a Universidade de São José, para que os governadores locais deem visto aos estudantes para poderem entrar em Macau, porque – não sei se têm consciência – uma pessoa da China continental não pode entrar em Macau ou Hong Kong sem ter um visto, apesar de ser território chinês, a travessia da fronteira faz-se só com autorização dos governos locais.

 

AE – Em 2018 a Santa Sé assinou um acordo provisório com a República Popular na China. Era por dois anos, termina agora a 22 de outubro. Será altura de o prolongar ou renovar. Esperava-se que este acordo poderia dar um impulso a esta questão da Universidade no sentido de ter maior penetração na China continental?

PS – Tínhamos essa expectativa e em janeiro fui a Beijing com o que veio a ser meu sucessor, o professor Stephen Morgan, e a vice-reitora, a professora Rochelle Ge. Fomos visitar uma das Universidades importantes e também visitar a entidade responsável por tutelar as religiões, passando pela sede da Conferência Episcopal Chinesa para falar com o seu presidente – chamo-lhe assim embora não tenha aprovação como Conferência Episcopal pela Santa Sé, mas funciona como tal.

Em todos esses lugares tivemos ótimo acolhimento. Inclusivamente por parte da Conferência Episcopal mostraram muito interesse em que a Universidade de São José servisse de espaço para formação de alguns alunos com maiores capacidades do interior da China, a fim de se poder fazer avanços no estudo sem ter de deslocar alunos para a Europa ou EUA.

 

AE – E a formação de sacerdotes?

PS – A formação de sacerdotes acontece na China. Isto seria para candidatos na formação dos seminários da China continental que fariam estudos acrescidos na Universidade de São José em vez de se deslocarem a Roma, à Alemanha ou EUA, como tem acontecido.

 

AE – Mas não se põe a questão de fazerem a formação teológica?

PS – Seria a formação teológica. Não sabemos se isso será possível. A Conferência Episcopal mostrou interesse em cursos de formação dos bispos porque dizem que depois do acordo com a Santa Sé, os bispos da China têm sido convidados para participar em colóquios e visitar dioceses fora da China e percebi, da maneira como colocaram a questão, que se sentiam talvez fora dos discursos e da conversa da Igreja universal. E gostariam, por isso, de ter algum espaço de formação connosco em Macau. Mas ficou ao nível da conversa e vamos ver o que acontece.

 

AE – Será isso indiciador de um clima de alguma distensão? Resultado do acordo provisório estabelecido pela Santa Sé? Houve críticas fortes a este entendimento. Pelo que tenho acompanhado da sua reflexão, é mais pragmático sobre este acordo e menos crítico.

PS – Não sou ingénuo. Sei que as coisas são difíceis e sei que há dificuldades nas comunidades que sempre foram fiéis ao Papa e algumas têm sido maltratadas, outras vivem na clandestinidade com grandes dificuldades. Mas é preciso não perder de vista a grande imagem e os grandes objetivos; a Santa Sé tem de olhar para a Igreja na China em termos de longo prazo, não apenas no presente.

Havia o risco de a China desenvolver uma Igreja que se viesse a tornar cismática. Havia a Igreja oficial cismática, que não estaria em ligação com o Vaticano, e havia a Igreja clandestina, cada vez mais acossada pelo regime à medida que ele procura controlar todos os sectores da sociedade.

A Santa Sé tratou pragmaticamente do assunto. Uma das áreas chave para o desenvolvimento da Igreja é a nomeação dos bispos, se eles puderem ser reconhecidos pela Santa Sé, se puderem, por isso, visitar dioceses no exterior, ir a Sínodos de bispos, visitar o Papa em Roma, tudo isso é capaz de, a médio e longo prazo, produzir efeitos positivos.

E é preciso lembrar, como eu às vezes tenho dito, que há uma terceira Igreja. Existe a Igreja chamada patriótica, a Igreja clandestina, mas existe a Igreja que são as pessoas que neste momento procuram um sentido para a sua vida, com grande desenvolvimento económico e social em curso na China, e muitos têm procurado no Cristianismo e concretamente no Catolicismo uma resposta para as suas procuras existenciais e religiosas.

Essas pessoas estão menos interessadas nas discussões canónicas sobre se o bispo prestou ou não vassalagem ao governo ou ao Papa.  Se em Portugal, perguntássemos às pessoas nas paróquias se conhecem o nome do seu bispo, creio que nalgumas dioceses, nalgumas partes do país não saberiam. Sabem o nome do seu pároco, do Papa, o nome do seu bispo, se calhar não sabem…

Portanto a ligação com a rede dos bispos, embora para os bispos pareça muito importante, para as pessoas no terreno o que lhes interessa é batizar os seus filhos, casar e poder ir à Missa ao domingo.

Eu estive em Missas em Xangai, e noutras cidades; em todas elas eu notei que estavam a abarrotar de gente. Na última, as pessoas tinham trazido os seus banquinhos para se sentar no adro da igreja.

 

AE – Falou da atitude de descoberta, por parte dos jovens, do Cristianismo. Numa China que nos chega cá, profundamente tecnológica, muito desenvolvida num estilo ocidental de vida a ser disseminado, em especial nos grandes centros urbanos. Percebe, apesar de tudo, este interesse pelos valores e religião cristã?

PS – Diz-se que a China, no ano 2030, será o maior país cristão do mundo. Vai ultrapassar o Brasil. O crescimento tem-se dado sobretudo na área dos protestantes evangélicos, onde existe uma capacidade de penetração e de flexibilidade na evangelização que a Igreja Católica não tem.

Costumo lembrar que nós esquecemo-nos da enorme comunidade chinesa nos Estados Unidos e no Canadá, que foram desde o século XIX imigrantes nesses países para construção de infraestruturas dos comboios, por exemplo, e que aí se encontraram com o Cristianismo. Houve gente que se converteu ao Cristianismo e depois voltou à China onde se integrou na malha social de uma forma espontânea e natural.

As pessoas procuram uma resposta, como eu dizia, para o sentido da sua vida no meio do desenvolvimento tecnológico, as grandes questões existenciais sobre o sentido da vida continuam a existir – o marxismo mesmo o marxismo maoísta é uma ideologia que no fundo já não responde a estas inquietações e é preciso lembrar que a China está a ser transfigurada por duas heresias ocidentais com raízes judaico-cristãs que é o comunismo e o capitalismo, que transportam em si uma antropologia e visão do mundo, aspirações que não faziam parte da visão do mundo do Confucionismo, do Taoísmo ou do Budismo.

As pessoas quando olham à volta, de repente, sentem que há uma coincidência entre os valores que respiram existencialmente no seu trabalho e aspirações de fazer desenvolver as suas empresas e das suas famílias e aquilo que é a proposta cristã. Pelo menos em dois ou três casos com quem conversei isso foi perceptível. Tinha sido através da literatura, do visitar igrejas, que as pessoas encontraram qualquer coisa.

 

AE – Esta tensão crescente do Ocidente com a China que temos vivido ultimamente, nomeadamente por parte da administração dos EUA. Portugal muito recentemente era aconselhado pelo embaixador a esclarecer a sua posição, a escolher os seus aliados entre o tradicional americano ou o parceiro económico chinês. Como é que vê esta crescente tensão do Ocidente com a China?

PS – A China foi encarada como sendo a fábrica do mundo: as coisas eram pensadas e inventadas nos EUA e na Europa e eram produzidas na China. Todos vemos isso nas lojas – ‘made in China’ era uma coisa comum porque faziam mais barato. Entretanto a China cresceu e o sr. Donald Trump chamou a atenção para isto: aquilo que é criado e pensado no Ocidente é, depois, copiado na China. O respeito para com os ‘copyrigths’ e os direitos de autor e as patentes…

 

AE – Mas a China está a dar um grande salto tecnológico de criação própria.

PS – Começou por aí. É preciso dizer que culturalmente não faz muito sentido a ideia de respeitar – o outro inventou e eu copio o que o outro fez. Isso foi sempre a maneira de agir, só gradualmente poderá entrar na cultura atual da China a ideia de que, para estimular a criatividade, convém que as pessoas tenham esse benefício: se eu invento, tenho algum beneficio dessa invenção.

A tensão ocorre aí. A China nesse salta tecnológico que tem feito já é a segunda economia mundial, já ombreia com outros países na produção de chips e vimos com a questão da Huawei, a partir da grande necessidade tecnológica, que eles já assustam o Ocidente em termos da sua produção tecnológica.

 

AE – Como é que a China olha para os portugueses?

PS – Os portugueses são bem vistos. Tive a certa altura um problema que andou nos jornais por causa do despedimento de professores – infelizmente nos meus primeiros anos tive de despedir um terço dos docentes da Universidade e uma grande polémica andou nos jornais.

A certa altura fui contactado pelos serviços do governo de ligação a Beijing que me disse para não me preocupar, que não ligavam a essas coisas. ‘Os outros nós sabemos que são importantes, mas os que compreendemos são os portugueses’. Fiquei com a impressão de que eles compreendem os portugueses porque há algumas semelhanças em termos culturais e também algum ‘know-how’ dos portugueses.

 

AE – Uma longa tradição histórica.

PS – 400 anos de residência, há toda uma cultura de saber lidar com a China ou com as Chinas, porque tem diferentes culturas e sensibilidades.

 

AE – Antes de regressar a Portugal esteve a cumprir quarentena em Hong Kong e têm-nos chegado pelas notícias, os tumultos, as lutas pela liberdade dos cidadãos. A Igreja tem apelado à unidade, vai dizendo aos cristãos que não é pela violência que as coisas se resolvem. Como é que em território vizinho acompanham esta tensão que periodicamente eclode?

PS – Certamente que a maneira de eu falar sobre isso é muito limitada ao meu ponto de vista. Não há sondagens sobre isso, mas a sensibilidade que vou captando é que havia algum receio por parte de vários setores da sociedade que a inquietação dos jovens estudantes de Hong Kong e da população em geral transbordasse para Macau.

Macau tem clara consciência da sua dependência de boas relações com a China continental. São 700 mil habitantes, a economia de Macau depende praticamente, totalmente, de haver fácil comunicação com a China continental, quer por causa do jogo e da alimentação, mesmo da água e da electricidade, tudo depende da China continental.

Em Hong Kong, é uma população de sete milhões, é praticamente em termos populacionais que Portugal, embora o território seja pequeno. Grande parte daquela população, se as minhas informações estão correras, foi crescendo ao longo do século XX a partir das instabilidades na China continental, guerras internas, civis, problemas dos japoneses e finalmente a implantação do regime comunista e da revolução cultural. Tudo isso levou a que pessoas preocupadas com as suas famílias, nesse ambiente de instabilidade se tivessem deslocado em levas sucessivas para Hong-Kong. Não é tanto como Taiwan, mas um pouco, ou seja, um lugar de refúgio de gente cuja tradição familiar tem algum pé atrás em relação ao que se passa no interior da China.

Notamos esta resistência, passo a passo, àquilo que a médio prazo se avizinha que é a integração total de Hong-Kong na China continental, quando se completarem os 50 anos da transição.

 

AE – E há muitos cristãos envolvidos nestes confrontos e conquista de liberdade?

PS – Certos setores ao nível da liderança pareçam ligados a comunidades protestantes, católicos. Até certa altura as pessoas cantavam cânticos religiosos para manter a tranquilidade nas manifestações.

O cardeal Joseph Zen gosta de estar na primeira fila. A Igreja Católica procura equilibrar as coisas e dizer que é preciso diálogo entre as partes. A chefe do executivo é uma católica de Comunhão diária – antes de ir para o cargo, agora não sei se tem tempo…

Claramente o governo central tinha consciência de que esse fator religioso era importante, quando escolheram Carrie Lam para ser chefe do executivo (em Hong-Kong), foi claramente na ideia que ela pudesse ser uma ponte.

A minha impressão é que ela não tem manifestado os talentos políticos que seriam necessários para conduzir a uma pacificação da sociedade. Há uns anos, as autoridades intervieram e prenderam ou maltrataram os cabecilhas, portanto estas últimas manifestações não têm tido cabecilhas conhecidas.

Não há com quem negociar, o que é um problema e isso significa que também as manifestações estão sujeitas a ser manipuladas por gente que vem lançar bombas, invadir a assembleia legislativa. Às vezes com as autoridades locais, como a polícia, quase parece que fecham os olhos a esses acontecimentos mais violentos para que depois apareça nas notícias, uma manipulação dos factos.

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