O vendaval dos dados e o sopro da vida

Padre Marco Casquilho, Diocese de Santarém

No horizonte da doutrina social da Igreja, a relação entre a técnica e a dignidade do ser humano sempre exigiu um olhar atento e profético. Recentemente, a publicação da encíclica Magnifica Humanitas, do Santo Padre Leão XIV, a propósito da protecção da pessoa humana numa nova era onde a inteligência artificial ocupa um papel crucial veio trazer uma luz fundamental sobre esta nova tecnologia partindo da exegese de dois episódios bíblicos: Babel e Pentecostes.

O Papa norte-americano convida-nos a refletir sobre estes novos avanços tecnológicos não com receio, mas com prudência. Temos de reconhecer o engenho humano como um dom de Deus que deve ser posto ao serviço comum e respeitando uma ecologia integral.

Para compreender a dimensão da inteligência artificial temos de a comparar com a inteligência humana e refletir sobre a sua criação.

Quando refletimos sobre a criação humana, a nossa origem é inequívoca. Fomos feitos por amor, à imagem e semelhança de Deus (Génesis 1, 26-27). Fomos dotados, conforme afirma o pensamento grego clássico de uma alma (psyche), de um corpo (soma) e de um espírito (nous). Isto é, a nossa vida tem um valor e uma dignidade intrínseca, não replicável. Deus, como nosso Criador, conhece-nos plenamente e sente compaixão pela nossa fragilidade e temporalidade (Salmo 103, 13-14). Solicitou aos seus anjos que protegessem e orientassem as nossas vidas (Salmo 91, 11-12).

Porém, ao contemplarmos a inteligência artificial criadas pelo ser humano encontramos um paradoxo técnico. Criamos redes neuronais que mimetizam de forma simplificada os neurónios humanos, concedemos-lhes redes massivas de dados e fornecemos-lhe algoritmos. Não obstante, estas ferramentas de processamento formidáveis que optimizam o nosso trabalho são ainda uma autêntica “caixa de Pandora”.  Não compreendemos ainda os chamados “comportamentos emergentes”. Não percebemos as capacidades lógicas da Inteligência Artificial que não foram explicitamente programadas e que desafiam as teorias matemáticas tradicionais. Não conseguimos mapear ainda o caminho exacto dos dados quando uma rede neuronal artificial processa uma decisão complexa.

A Inteligência Artificial não tem um espírito, não tem consciência, não tem afectos, como o ser humano. Ela é apenas um reflexo imprevisível dos dados e da programação que operamos. Portanto, não foi criada à nossa imagem e semelhança; não conhecemos integralmente o seu modo de funcionamento; nem temos uma estrutura que guarde e proteja a sua existência.

Nesta diferença reside o problema de uma inteligência artificial não totalmente controlável ou rastreável. Nesta nova era a humanidade confronta-se com um desafio: ser guiada pela tecnologia que é uma obra incompreendida das suas próprias mãos ou construir o progresso com base na dignidade e valor da pessoa humana.

Actualmente vivemos no patamar da Inteligência Artificial estreita, que é fantástica no exercício de tarefas específicas. Mas caminhamos para o âmbito de uma Inteligência Artificial Geral, que se adaptará a qualquer tarefa intelectual humana. Desse degrau para uma Superinteligência ainda existe um caminho longo a percorrer, mas os riscos são avassaladores. Imaginar uma máquina que supere a capacidade intelectual humana e que possa escapar ao seu controle é uma ficção que um dia se pode tornar numa realidade inevitável.

Por esta razão, o Papa Leão XIV assinala que o progresso tecnológico deve ser acompanhado por uma reflexão responsável e orientado por princípios morais sólidos.

Que os assistentes actuais da Inteligência Artificial como ChatGPT, o Gemini, o Claude… nos ajudem a contribuir para um mundo melhor, onde valores como a solidariedade, a fraternidade e a compaixão não sejam esquecidos.

Queremos construir uma nova Babel, tentando assumir o lugar de Deus ou despertar um novo Pentecostes, onde possamos nos redescobrir como filhos e filhas de um mesmo Deus?

Pe. Marco Casquilho
Pároco de Assentiz e Paialvo

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