O nome na tua rua

Lígia Silveira, Agência ECCLESIA

A inspiração destas linhas nasce de um «Postal do dia», com assinatura de Luís Osório, onde o seu olhar repousou no nome de uma rua, num bairro onde esteve a jantar com um casal amigo.

A toponímia chamou a atenção do jornalista e escritor sobre quem seria Maria Telles Mendes, tendo descoberto o sacrifício que, no verão de 1979, realizou ao salvar a vida de uma pessoa que atravessava a linha de comboio, em Paço d’Arcos; salvou uma senhora cujo sapato ficou preso na linha, mas não impediu que o comboio a projetasse, tendo falecido horas depois no hospital.

A minha proximidade com o local fez-me recordar a toponímia da minha rua, que enaltece Joaquim Quirino, salva vidas, assim indica a placa, cuja vida entre 1861 e 1930, ali está recordada.

Os nomes nas ruas são tantas vezes formas de recordar e homenagear, mas os anos passam e para as novas gerações que percorrem as ruas e procuram direções, tornam-se referências geográficas apenas, que quando repetidas, esvaziam as vidas ali significadas.

Despertei para Joaquim Quirino, nadador salvador de uma praia que não é destino turístico, muito menos conhecida pela salubridade da sua água que desagua na foz do rio Tejo, quando o meu filho me questionou sobre quem seria esta figura, e me impactou sobre vidas que nos precederam e que nos chegam apenas como nomes na rua.

O que sabemos nós dos espaços que nos circundam, onde decorre a nossa vida, dos nomes hoje transformados em localizações? Não se trata apenas de conhecimento histórico, ainda que importante, mas de reconhecer – até agradecer – gestos que salvaram vidas, ações que marcaram a sociedade, percursos que abriram caminhos para ser o que somos, como comunidade.

Agrada-me que num pequeno bairro, em Oeiras, as ruas que o compõem recordem pessoas anónimas que como Maria Telles Mendes ou Joaquim Quirino salvaram outras vidas, permitiram que outros vivessem e para que gestos de bondade fizessem honrar a sua memória.

E o nome na tua rua? De quem te fala?

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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