Ricardo Perna, Diretor de Comunicação da Diocese de Setúbal

A Nota Episcopal do Cardeal D. Américo Aguiar “Cuidar com o coração” traz uma reflexão muito importante sobre uma área da evangelização que a Igreja tem, nos últimos tempos negligenciado ou, na melhor das hipóteses, subestimado como área de evangelização essencial para o futuro.
Os tempos de maior fragilidade são aqueles onde é mais difícil a aproximação, mas são também aqueles onde a necessidade de uma palavra amiga, um gesto afetuoso ou até de uma presença silenciosa se torna essencial para a pessoa que o recebe, e o que temos visto é uma “desligar” da parte do clero e dos agentes de pastoral perante esta fase da vida das pessoas.
Os funerais que acontecem sem hora marcada e “estragam” agendas, o acompanhamento das pessoas no hospital ou a presença na fase de luto dos seus paroquianos são desafios que importa assumir como basilares naquilo que é o exercício da caridade cristã, na busca de uma esperança que deve chegar a todos, todos, todos.
É importante notar que começam a ser mais frequentes os relatos de pessoas que preferem “despachar” os funerais sem a presença de um sacerdote, em particular quando a experiência anterior com esse sacerdote foi fria, sem empatia, um “servico” prestado e pago, sem mais. Ou pior, quando impedem a realização do funeral por questões financeiras ou conflitos familiares. Não pretendo julgar as razões individualmente, mas antes exprimir uma necessidade de procurarmos exercer a caridade cristã numa ótica de esperança e não numa ótica de vingança ou julgamento, pois foi esse o mandamento que recebemos de Jesus, e não outro. Teremos tempo para acertar tudo o resto, mas naquele momento a pessoa precisa de ser vista como o rosto de Cristo Vivo, o mesmo rosto que Veronica enxugou, ou que Simão ajudou no caminho do Calvário.
Importa formar clero e leigos nesta matéria pois, como em tudo, só uma abordagem capaz e conhecedora pode fazer a diferença na vida destas pessoas. A experiência da fragilidade na doença é dura, mas os sacramentos da Igreja podem ajudar a ultrapassar essa fase, ou a encontrar esperança numa situação que parece não ter qualquer saída.
A Unção dos Doentes precisa de ser desmistificada para que todos compreendam que este sacramento é um conforto e apoio na doença, e não uma benção que prepara a morte. As paróquias precisam de ter grupos de leigos que assumam este acompanhamento que, bem feito, ajuda a combater a sensação de inutilidade que muitos idosos e doentes sentem e os faz sentir que já não pertencem a este mundo quando, na verdade, este mundo ainda precisa de todos eles. Os hospitais precisam de ser espaços de diálogo e fraternidade, não ficando presos ao trabalho isolado do capelão, mas criando redes de diálogo entre as capelanias e as paróquias/movimentos para que os fiéis que passam por momentos de dificuldade possam ser acompanhados não apenas durante o internamento, mas na fase de recuperação em casa.
O apelo feito pelo bispo de Setúbal implica toda a Igreja. Claro que podemos achar que isto é para os outros, mas a verdade é que, mais cedo ou mais tarde, todos nos vamos ver confrontados com a fragilidade da doença, da morte e do luto. E se achamos que nessa altura é importante que alguém esteja lá para nós, como podemos nós deixar de estar quando os outros precisam de nós?
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