Leão XIV/1.º aniversário: Especialistas destacam aposta em diplomacia de paz e governação sinodal

Novo Papa assumiu recusa absoluta da guerra como prioridade, no momento imediato à sua eleição

Foto: Lusa/EPA

Lisboa, 08 mai 2026 (Ecclesia) – A diplomacia de paz e a governação sinodal afirmaram-se como marcas do primeiro ano de pontificado de Leão XIV, segundo o balanço de quatro especialistas convidados pela Agência ECCLESIA.

“Logo na primeira mensagem ‘Urbi et Orbi’, a primeira saudação à multidão, ele fala da paz desarmada e desarmante”, recordou o jornalista e diretor do ‘7Margens’, António Marujo.

O novo Papa assumiu a recusa absoluta da guerra como prioridade no momento imediato à sua eleição.

“Não posso deixar de escolher a paz como imagem central, esta perceção de que ele chega à varanda trazendo a paz consigo”, afirmou a investigadora Joana Viana Lopes.

A firmeza na denúncia da violência bélica tornou-se um pilar do atual magistério da Igreja Católica, perante os conflitos globais.

“Se não se considera como defensor da guerra, tem de ser como defensor da paz, defensor da não violência como solução dos conflitos. Esse caminho é muito difícil de manter”, explicou o padre Jorge Teixeira da Cunha, docente da Faculdade de Teologia da UCP.

A independência da Santa Sé na arena internacional gerou mesmo atritos com a atual administração dos Estados Unidos.

“O Papa Leão XIV não saiu do seu lugar, não se pôs taco a taco com Trump a discutir aquilo que é o seu entendimento da doutrina, mas também não é suave em nenhum dos diagnósticos que faz”, apontou Joana Viana Lopes.

Esta estratégia do Vaticano enquadra-se no uso de uma influência global baseada no compromisso e na concertação.

“O ‘soft power’ é este poder, nas relações internacionais nós temos esta caracterização, que tem a ver com o diálogo, a concertação e a diplomacia”, indicou a politóloga Sílvia Mangerona.

No plano interno, a governação do pontífice reflete uma continuidade na aposta sinodal e na escuta ativa das bases.

“Há a vontade de inverter o sentido do poder orientativo das políticas, não de cima para baixo, mas de baixo para cima. Ouvir as igrejas, ouvir as paróquias”, acrescentou Sílvia Mangerona.

O estilo institucional de Leão XIV consolidou igualmente o poder consultivo e a proximidade do Colégio Cardinalício, convocado para consistórios regulares, no Vaticano.

“Ainda dentro da Igreja, introduziu a lógica de começar a fazer reuniões dos cardeais regularmente, em princípio uma vez por ano”, observou António Marujo.

A permanente procura de consensos é vista como uma ferramenta vital para resolver tensões e evitar ruturas na instituição.

“Ele tem feito essa tarefa de tentar manter o tecido eclesial inconsútil, como se diz da túnica de Cristo. Não dividido”, elogiou Jorge Teixeira da Cunha.

A par da coesão interna, a ação pastoral do Papa mantém o foco assistencial e espiritual nos mais vulneráveis.

“O ponto de vista do pensamento da Igreja começa sempre no pobre. No pobre sociológico, mas para lá disso. O pobre é o Cristo, em primeiro lugar”, sublinhou o sacerdote da Diocese do Porto.

O pontífice inaugurou ainda reflexões inéditas sobre o impacto e os limites éticos do avanço exponencial das novas tecnologias.

“Ele quer estar na charneira do pensamento sobre como é que se deve ou não acolher todas estas mudanças que a inteligência artificial nos traz, e não ir de arrasto”, evidenciou a teóloga Joana Viana Lopes.

A dimensão desta revolução digital e tecnológica cria expectativas sobre a publicação de documentos de fundo neste âmbito.

“Espero que o Papa pudesse finalmente propor-nos uma encíclica sobre o trabalho humano e sobre as questões da inteligência artificial”, perspetivou Jorge Teixeira da Cunha.

As entrevistas estão em destaque no ciclo ‘De Francisco a Leão’, que se encerra este domingo na emissão do Programa ECCLESIA na RTP Antena 1.

OC

 

 

Partilhar:
Scroll to Top