Coordenador da edição da Conferência Episcopal Portuguesa apresenta trabalho que envolveu especialistas de diversas áreas e está aberto ao contributo de todos os leitores

Lisboa, 23 mar 2019 (Ecclesia) – A Conferência Episcopal vai apresentar esta segunda-feira o primeiro volume da nova tradução da Bíblia em português, um texto que procura dialogar com a cultura contemporânea a partir das línguas originais.

“Temos de fazer uma tradução literal, mas não literalista, caso contrário torna-se incompreensível”, refere à Agência ECCLESIA D. Anacleto Oliveira, biblista e bispo de Viana do Castelo, que coordena a nova tradução da Bíblia em português.

A edição é promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e editada pela Fundação Secretariado Nacional da Educação Cristã; feita ao longo de vários anos, por 34 investigadores a partir das línguas originais, começa a chegar aos leitores de todo o país com a publicação de “Os Quatro Evangelhos e os Salmos”.

“É uma versão experimental e estamos à espera de reações. Tenho dito e continuo a dizer: o biblista deve ser muito humilde e aceitar outras opiniões”, realça D. Anacleto Oliveira.

O projeto tem por finalidade apresentar um texto uniforme, traduzido diretamente das línguas originais, o hebraico, aramaico e grego, para uso na liturgia, na catequese e em todas as atividades da Igreja em Portugal.

O coordenador do projeto explica que a tradução é uma resposta à necessidade de uma “Bíblia da responsabilidade” da CEP, que vem já desde o Concílio Vaticano II (1962-1965).

É uma Bíblia para uso dos cristãos, primariamente na Liturgia; em segundo lugar, em todas as outras atividades que nós dizemos formativas, como a catequese, a disciplina de EMRC – se um miúdo tem uma tradução e outro, ao lado, tem uma tradução diferente, isso cria uma confusão tremenda”.

Segundo D. Anacleto de Oliveira, esta tradução oficial não exclui as outras, que seguem “critérios” diferentes.

As mudanças são visíveis no novo texto de tradução do Pai-Nosso, na qual Deus é tratado por ‘Tu’, seguindo “uma evolução que houve na sociedade portuguesa.

“Hoje, por norma, os filhos tratam o pai por ‘tu’, porque isso implica uma intimidade muito mais profunda; a exceção são os filhos que tratam os pais por senhor ou vossemecê, como se dizia no meu tempo. Até nisso, nós achamos que era importante evoluir. Posso dizer que foi uma decisão tomada, por votação, na Conferência Episcopal. Não foi de ânimo leve”, relata o bispo de Viana do Castelo.

Agência Ecclesia/PR

O especialista no estudo da Bíblia precisa que cada proposta de tradução dos vários textos é entregue a uma pessoa especializada em Literatura Portuguesa, como um poeta, no caso dos Salmos.

“Para nós é muito importante haver uma pessoa que cuida da musicalidade, digamos, do ritmo das frases, para que seja percetível e não cause confusões”, precisa.

A apresentação de um primeiro volume, experimental, deste trabalho é vista como “mais uma fase numa tradução tão perfeita quanto possível”, num processo que passa agora por “pedir o contributo dos leitores portugueses”, através de carta ou email.

As sugestões que chegarem à CEP vão ser avaliadas pelas comissões responsáveis pela tradução.

“É uma espécie de orçamento participativo, na linguagem de hoje; na linguagem da Igreja, falaríamos de uma participação sinodal, todos os cristãos têm ocasião de apresentar propostas”, observa o bispo de Viana.

Um dos textos mais discutidos, nos estudos bíblicos, é o prólogo do Evangelho de São João, agora traduzido por “No início era a Palavra”, deixando de lado o termo “verbo” para o grego ‘logos’.

“Depois de muita discussão, até com um biblista brasileiro, optamos pelo termo ‘palavra’ e ver a reação, até porque é aquele que diz mais, embora não diga tudo. O ‘logos’ grego é mais do que uma simples palavra, mas parece-nos que em português é a que melhor exprime a relação entre Jesus, como Filho de Deus, e o Pai”, justifica D. Anacleto Oliveira.

Iniciada em 2012, com a colaboração da Associação Bíblica Portuguesa (ABP) e de especialistas países de língua portuguesa, a tradução segue dois critérios fundamentais: ser literal, ou seja transmitir o melhor possível o que os textos exprimem nas línguas originais; e, ao mesmo tempo, ser compreensível para os leitores e ouvintes de hoje.

O bispo de Viana do Castelo sublinha que a Bíblia é “um marco incontornável na cultura portuguesa” e um “património mundial”, que merece “a máxima divulgação”.

A apresentação pública da edição da tradução de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’ está marcada para esta segunda-feira, pelas 11h00, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

A entrevista com D. Anacleto Oliveira está no centro da emissão do Programa ECCLESIA, este domingo, a partir das 06h00, na Antena 1 da rádio pública.

OC

Conferência Episcopal Portuguesa lança nova tradução da Bíblia, para fazer pontes entre texto original e cultura contemporânea

 

Comissões

A Comissão Coordenadora é presidida por D. Anacleto Oliveira e composta por biblistas da ABP; a Subcomissão Científica do Antigo Testamento é constituída por José Augusto Ramos (moderador; catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Armindo Vaz e Luísa Almendra (professores de Antigo Testamento na Faculdade de Teologia da UCP), e a Subcomissão do Novo Testamento é constituída por Mário Sousa (moderador; presidente da ABP e professor de Novo Testamento no Instituto Superior de Teologia de Évora), Pedro Falcão (professor de línguas clássicas, Faculdade de Teologia da UCP) e José Carlos Carvalho (professor de Novo Testamento na Faculdade de Teologia da UCP).

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