D. Rui Valério presidiu à Missa da solenidade, na Sé Patriarcal, lembrando «guerras que parecem não ter fim» e «conflitos entre povos»

Lisboa, 04 jun 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa apontou esta manhã a Eucaristia como “o sacramento daquele amor que Se deixa partir para que os homens deixem de se dividir”, na Missa do Corpo de Deus que presidiu na Sé Patriarcal.
“Cristo deixa-Se repartir para reunir. Entrega-Se para reconciliar. Faz-Se alimento comum para recordar que todos somos chamados à mesma mesa”, afirmou D. Rui Valério, na homilia enviada à Agência ECCLESIA.
A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo celebra-se no 60.º dia após a Páscoa, uma quinta-feira, ligando-se assim à Última Ceia; nos países onde não é feriado civil, a celebração assinala-se no próximo domingo.
O responsável católico aludiu aos “tempos marcados por divisões profundas”, “guerras que parecem não ter fim”, “conflitos entre povos”, “polarizações dentro das sociedades”, “relações familiares feridas”, “solidões silenciosas”, “muros visíveis e invisíveis”.
“Sempre que celebramos a Eucaristia recebemos a força para construir comunhão. Porque a comunhão não é apenas aquilo que recebemos. É aquilo que somos chamados a tornar-nos. Recebemos o Corpo de Cristo para nos tornarmos Corpo de Cristo. E a comunhão não termina quando regressamos ao nosso lugar na igreja. É precisamente aí que começa a missão”, disse.
D. Rui Valério acredita que o Santíssimo Sacramento responde “à necessidade mais profunda da humanidade contemporânea”, tendo feito referência a uma sociedade “em que abundam alimentos, mas está cheia de fome”, “cheia de comunicação, mas cheia de solidão, “cheia de informação, mas muitas vezes sem sabedoria”, e “cheia de prazer, mas profundamente sedenta de sentido”.
Nunca tivemos tantos meios para viver e, paradoxalmente, tantos homens e mulheres perguntam para quê viver. Nunca tivemos tantas ligações e tantas pessoas sentem que ninguém as conhece verdadeiramente”, assinalou.
A intervenção destacou que o “coração humano continua a ter uma fome que nenhuma realidade deste mundo consegue saciar” e “Deus responde a essa fome oferecendo-Se a Si próprio”.
Na homilia, D. Rui Valério apresentou a Eucaristia como o “maior tesouro” que a Igreja recebeu do seu Senhor, escolhendo falar dela não como sacramento, memorial ou alimento espiritual, mas como “uma pessoa”.
“A Igreja não vive de uma ideia. Não vive de uma teoria religiosa. Não vive de um projeto humano, por mais generoso que seja. A Igreja vive de uma Presença”, sublinhou.
“Quando nos aproximamos do altar, não recebemos algo que pertence a Jesus. Recebemos o próprio Jesus. Não recebemos apenas uma recordação da sua vida. Recebemos Aquele que morreu e ressuscitou e que permanece vivo para sempre”, acrescentou o patriarca.
Ao contrário dos homens que procuram afirmar-se através da força, do poder ou da aparência, D. Rui Valério lembra que “Deus escolhe outro caminho: o da proximidade, da mansidão e da entrega”.
A Eucaristia é o sacramento da humildade de Deus. É o amor que renuncia a impor-se para poder ser acolhido livremente. É o amor que permanece silenciosamente à espera. É o amor que nunca se cansa de esperar por nós”, indicou.
Durante a tarde, vai decorrer em Lisboa, pelas 17h, a tradicional Procissão do Corpo de Deus, presidida pelo patriarca, que este ano muda de percurso, iniciando e terminando na Sé Patriarcal (o novo trajeto inclui agora a Praça do Município, a Rua do Arsenal e a Praça do Comércio), a que se referiu D. Rui Valério na homilia.
“Alguém poderia perguntar: porquê? Por que razão levamos o Santíssimo Sacramento pelas ruas? A resposta é simples. Não levamos Cristo pelas ruas para que Ele veja a cidade. Levamo-l’O para que a cidade se recorde de que Deus continua a caminhar connosco. Levamo-Lo para proclamar que a história humana não está abandonada. Que Deus não desistiu do homem”, enfatizou.

Para D. Rui Valério, “a procissão do Corpo de Deus é uma das imagens mais belas da Igreja”: “Um povo que caminha atrás de Cristo. Não atrás das modas. Não atrás dos poderes. Não atrás dos interesses passageiros. Mas atrás d’Aquele que é Caminho, Verdade e Vida”.
Na parte final da homilia, o patriarca desafiou os presentes na Sé Patriarcal a refletirem sobre uma pergunta: “Se alguém observasse a minha vida durante uma semana, perceberia que eu me alimento da Eucaristia? Reconheceria nos meus gestos, nas minhas palavras, na minha maneira de tratar os outros, a presença daquele Cristo que recebo na comunhão?”.
Ainda na intervenção, D. Rui Valério afirmou que “enquanto houver um Sacrário aceso na terra, a humanidade nunca estará órfã”, “enquanto houver uma Hóstia consagrada sobre um altar, Deus continua a dizer ao mundo: ‘Estou aqui. Não vos abandonei’”.
Ao passarmos hoje pelas ruas da cidade, Cristo não pede apenas que O acompanhemos na procissão. Pede que O levemos connosco para casa. Para o trabalho. Para as decisões difíceis. Para as feridas que escondemos. Para as pessoas que amamos”, recordou.
O patriarca de Lisboa frisou que “a Eucaristia não foi dada à Igreja apenas para ser guardada nos sacrários”, mas “para transformar o mundo através de cristãos que vivem daquilo que recebem”.
LJ
