Haiti: «Onde o mundo vê ameaças, nós vemos crianças»

Paola Moggi, Irmãs Missionárias Combonianas

As Irmãs Missionárias Combonianas chegaram ao Haiti em 2010, integrando uma comunidade intercongregacional organizada pela CLAR (Conferência Latino-Americana da Vida Religiosa) para prestar assistência material e espiritual logo após o grande terramoto.

Uma vez superada a emergência, tornou-se evidente que a comunidade intercongregacional das Irmãs tinha condições para oferecer algo mais: começou então a acompanhar pessoas deslocadas, deportadas e migrantes. Inicialmente, trabalhou em estreita colaboração com o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), concentrando-se nos deslocados pelo terramoto; posteriormente, passou a dar atenção aos «deportados», os haitianos repatriados da vizinha República Dominicana.

 

Missão entre fronteiras

Em 2021, após o assassinato do presidente Jovenel, gangues armados tomaram o controle da capital, Porto Príncipe. Devido à crescente insegurança e aos sequestros, a comunidade mudou-se para Anse-a-Pitres, na fronteira com a República Dominicana.

Desde 2023, a Ir. Luigia Coccia, missionária comboniana, integra a comunidade intercongregacional. Mora em Refugiés, um assentamento criado por haitianos deportados da República Dominicana, ficando apenas a 10 minutos de distância da fronteira.

Para conter a violência, em 2024 foi enviada pelas Nações Unidas uma missão internacional de apoio à segurança (MSS) para o terreno, de que não resultou qualquer melhoria significativa da situação.

«Nos últimos quatro anos», diz a Ir. Luigia, «aprendemos a viver a nossa missão “na fronteira”: com as pessoas que vivem “entre dois países diferentes”, Haiti e República Dominicana, atualmente em tensão. A maioria dos haitianos é considerada ilegal por não possuir documentos; nós também vivemos a dificuldade de obter documentos para cruzar as duas fronteiras de forma regular e legal. Tentamos compreender o que significa viver com um povo deslocado em fuga da violência dos gangues, cruzando a fronteira em busca de um futuro melhor, mas que na realidade continua a ser rejeitado ou deportado após ter vivido por vários anos, ou mesmo ter nascido, na República Dominicana.»

 

Ajudar a construir oportunidades

Segundo um relatório recente do Banco Mundial, o Haiti continua a ser o país mais pobre da América Latina e das Caraíbas, e um dos países mais pobres do mundo. O seu desenvolvimento é prejudicado pela instabilidade política, pelo aumento da violência e por níveis sem precedentes de insegurança.

A Ir. Luigia confirma: «estamos num contexto de extrema pobreza que não oferece oportunidades para construir um futuro. A maioria das pessoas está apenas à espera de poder sair do país. Além de responder a emergências humanitárias, a nossa missão é ajudar a encontrar oportunidades que dêem vida. Organizamos iniciativas de microcrédito com grupos de mulheres e participamos em projetos educativos.

Graças às bolsas de estudo, as crianças podem frequentar a escola e ser ajudadas nos programas extracurriculares. Também implementamos cursos de alfabetização para adultos e damos aulas no Instituto das Irmãs Salesianas. Somos uma ajuda a construir oportunidades para que as pessoas não devam fugir e, ao tentarem atravessar fronteiras, sofram rejeição.»

Esta é a Igreja desejada pelo Papa Francisco e reafirmada pelo Papa Leão XIV: «A Igreja, como uma mãe, caminha com aqueles que caminham. Onde o mundo vê ameaças, ela vê crianças; onde se constroem muros, ela constrói pontes. […] E ela sabe que em cada migrante rejeitado é o próprio Cristo que bate às portas da comunidade» (Dilexi Te, n.º 75).

Paola Moggi, IMC

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