Deus ama os advérbios

António Salvado Morgado, Diocese da Guarda

Com verdade ou nem tanto, mas com muito fundamento, a frase do título, «Deus ama os advérbios», é geralmente atribuída a Joseph Hall, bispo e escritor inglês [1574-1656]. Embora seja difícil discernir a autoria do proverbial dizer, verdade é que estamos perante um axioma espiritual que terá circulado por várias tradições cristãs, teológicas e filosóficas.

O filósofo espanhol Josep Maria Esquirol [n. 1963], citando Joseph Hall no pequeno opúsculo intitulado “Resistência íntima”, faz notar que a densidade da vida se encontra nos verbos e nos advérbios. E não será difícil concordar com ele, sabendo nós que os verbos exprimem processos e que, embora não seja essa a sua única função, os advérbios, veiculando informações específicas, modificam o sentido do verbo, qualificando-o. O verbo é o “processo”, o advérbio é o “como” se processa o verbo. O leitor que me lê, não só lê, mas lê em “como”. Devagar ou apressadamente, com satisfação ou fastidiosamente, integralmente ou de modo parcial, concordando ou discordando… É imenso o mundo do “como” que pode acompanhar um verbo! Agimos em “como”. E, no “como”, seja em forma de modo, seja em forma de quantidade, de tempo, de lugar ou outra, qualificamos o verbo e damos-lhe um sentido ou um sentido novo. E, bem sabe o leitor, também o escritor escreve em “como”. Não só no que diz o que escreve, mas significa também no modo como, escrevendo, o diz. E o modo fica a fazer parte do que diz. É a dança do par forma e conteúdo do dizer e do escrever. E do fazer.

Há frases que nos despertam particular atenção e nos lançam no mundo do pensar, seja pela novidade da ideia, seja pela beleza sintética do dizer, seja pelo contexto, discursivo ou vivencial, em que elas aparecem. Uma síntese que bem nos pode estar a dizer que a beleza é a manifestação da unidade do ser, como é a expressão da sua verdade e bondade. Metafísica? Seja, mas aqui fica o dito. Porque creio, e muitos já o disseram há muito, parecendo-me mesmo já o ter escrito aqui alguma vez, que a crise por que tem passado o Homem da contemporaneidade é uma crise provocada também pelo abandono da metafísica.

«Deus ama os advérbios», é uma dessas frases que nos faz pensar. Simples no dizer, mas admirável e bela na riqueza comunicativa. Ela desafia o nosso pensar. Pensando-a, estamos a entrar na gramática da língua, e isso é o menos, mas entramos também numa poética teológica ao pretendemos entrar na mente Deus. Arrogância e falta de humildade? Prefiro antes crer que é uma resposta a um chamamento do Criador. Deus chama para a descoberta. Chamamento de Deus que ressuscitou o Seu Filho com o advérbio mais silencioso e eficaz da História. Jesus Cristo ressuscitou silenciosamente, no mais profundo silêncio da Terra. Sem ruídos nem deslumbramentos. Na humildade e sem espavento. No silêncio da noite. Só silêncio. Um silêncio da Palavra de Deus. Anuncia-se, depois, a Maria disfarçadamente como um jardineiro. Disfarçadamente ou, melhor dito, no esplendor do Ser. Estará aqui a evidência do poder adverbial do amor de Deus pelos advérbios.

Era uma vez, assim reza a parábola [Lc 18, 9-14], um Fariseu entrou no Templo para rezar e, colocando-se bem lá acima, orava vangloriando-se das suas obras e jejuns, colocando-se acima dos outros homens, considerando-os injustos e ladrões. Era também um Publicano que entrara no Templo e, ficando à distância e sem sequer levantar os olhos, assim rezava enquanto batia com a mão no peito: «Tem misericórdia de mim Senhor, que sou pecador.»

Não será necessário lembrar que a parábola do Fariseu e do Publicano é um ensinamento de Jesus sobre humildade, oração e justiça divina: o Publicano saiu absolvido e o Fariseu não. E a parábola conclui: «Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.» E aí está. O verbo é a acção externa. O “como” é o advérbio e revela o coração e a alma do desempenho verbal.

«Deus ama os advérbios». Será isso também o que diz o eloquente Paulo [1 Cor 13, 1-3]. Conhecer todas as línguas dos homens e dos anjos, dominar o segredo de todos os mistérios e dar em esmolas a própria riqueza, de nada serve se não tiver caridade.

Do Novo Testamento, passemos novamente ao Velho Testamento onde o dizer de Deus se traduz na criação.

«Deus ama os advérbios» em nós, Ele que fez tudo bem, lá no início intemporal, onde se maravilhou com as obras realizadas pela Sua palavra. Maravilha das maravilhas: Deus maravilha-se na contemplação das suas obras! «E viu Deus que tudo era muito bom», lembra-nos o primeiro livro da Bíblia [Gn 1, 31], onde o poder simbólico de um mito abre caminho para a poética da vida humana, aí, onde «Deus ama os advérbios» em nós, tal como Ele amou o Bem do Seu dizer para nós. Deus coloca o seu amor no «como» do dizer e seu fazer humanos. Tal como colocou o Seu amor no «como» do Seu fazer criador.

«Deus ama os advérbios» em nós. Mas, como pode Deus amar os advérbios em nós, se tantas vezes fazemos mal o bem ou fazemos bem o mal? Especulações, dir-se-á, e, por isso, por aqui me fico, mas sempre acrescentarei, mesmo assim, que, como creio, o mal, se é mal, só muito impropriamente se pode dizer bem feito. Fazer o mal com “perfeição” aumentará a maldade do acto. Será a unidade da dança do par forma e conteúdo, já acima referida. O ideal será fazer bem o bem, em que forma e conteúdo convivem em perfeita harmonia.

Leão XIV, no início da «Conclusão» [MH, 229] da Encíclica «Magnífica Humanidade», evoca a exortação de São Paulo aos cristãos de Corinto «Veja cada um como edifica» [1Cor 3,10] para lançar o desafio de nos interrogarmos sobre «o mundo que estamos a construir, perguntando-nos o que significa salvaguardar a pessoa humana, na era da inteligência artificial

«Veja cada um como edifica». Do «como» «cada um» se posiciona no «grande estaleiro de obras da nossa época» [MH 90], resultará a torre de Babel ou a construção de Jerusalém. É a escolha decisiva em que se encontra hoje a «Magnífica Humanidade». O desafio é total e de todos: não se trata de pesar o negativo e o positivo da inteligência artificial [IA], mas, sabendo que a IA não é «moralmente neutra», trata-se de cada um contribuir, a seu modo, e com um discernimento ético, moral, social, partilhado e comunitário para um desenvolvimento controlado desta nova tecnologia de modo que ela contribua para o desenvolvimento integral da pessoa humana: «Para que a IA respeite a dignidade humana e sirva verdadeiramente o bem comum, é essencial que as responsabilidades sejam claras em todas as etapas: desde quem concebe e treina os sistemas até quem os utiliza e decide confiar-lhes escolhas concretas.» [MH 105]

A olhar para o fazer dos seres humanos no mundo de hoje – e no de ontem – onde verbos e advérbios parecem andar por aí tão mal conjugados, neste momento em que a IA parece invadir todos os âmbitos do viver, é bem forte a necessidade de lembrarmos que «Deus ama os advérbios» e que importa tomar a sério o desafio de São Paulo: «Veja cada um como edifica», sabendo que no «como» se constrói o edifício: Babel ou Jerusalém.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina, e vinculam apenas os seus autores.)

Partilhar:
Scroll to Top