Luiza Sarsfield Cabral, detida durante quatro meses, foi torturada e esteve em isolamento, tendo sido libertada pouco antes do 25 de abril de 1974

Lisboa, 30 abr 2021 (Ecclesia) – A resistente política Luiza Sarsfield Cabral regressou a Caxias 47 anos depois de ter sido detida, torturada e interrogada pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), antes da revolução do 25 de abril de 1974.

“Agora que aqui estou é tudo tão diferente que quase não associo. Há muita coisa construída. Nunca tinha visto o rio, e estamos muito perto. Aqui é o reduto sul, onde aconteceram os interrogatórios e a tortura do sono. No reduto norte eram as celas e não reconheci bem e se calhar ainda bem”, diz em entrevista à Agência ECCLESIA recordando a sua detenção.

Durante cerca de dois anos, Luiza Sarsfield Cabral guardou em sua casa, num anexo, a pedido do arquiteto católico Nuno Teotónio Pereira, arquivo e documentação que seria impressa no Boletim Anticolonial, tendo sido presa pela PIDE, em novembro de 1973.

Esteve presa em Caxias durante cerca de quatro meses, primeiro em isolamento, e meses depois, partilhando uma cela com Maria da Conceição Moita, Fátima Pereira Bastos e a Maria José Campos.

O tempo que passou na prisão não faz parte da sua vida presente, nem a ele regressa com frequência, mas a professora indica ser importante preservar a memória do que se passou naquele tempo para que os jovens saibam que a democracia deve ser cuidada.

“É completamente um dever com os meus sobrinhos, netos, amigos, gerações novas, e não tão novas porque muitos não sabem muita coisa. Os tempos são difíceis e a democracia não podemos pensar que vai ser para sempre. É bom que as pessoas tenham bem nítido este marco que não pode acontecer. É isto outra vez”, vaticinou.

Caxias é um passado para o qual Luiza Sarsfield Cabral não quer voltar porque, explica que o caminho tem de ser feito com os olhos em frente, com os jovens a perceber que todos os dias “é preciso lutar contra a ditadura”.

As “Conversas na ECCLESIA” desta semana, online às 17h00 e apresentaram reflexões e testemunhos sobre o 25 de abril de 1974.

LS

«Conversas na Ecclesia»: «A liberdade que experimentamos deixa-me inquieta» – Helena Valentim (c/vídeo)

«Conversas na Ecclesia»: Maior justiça social e menos desigualdade são caminhos para continuar abril – José Leitão (c/vídeo)

«Conversa na Ecclesia»: «O poder local é um pilar nos valores de abril» – Carla Madeira (c/vídeo)

«Conversa na Ecclesia»: «O 25 de abril era a história de dormir lá de casa e era contada por protagonistas» – Ana Vasquez (c/vídeo)

Partilhar:
Share