Presidente da direção do Centro de Reflexão Cristã explica que democracia constrói-se com debate alargado de ideias mas também com «políticas públicas»

Lisboa, 27 abr 2021 (Ecclesia) – José Leitão, Presidente da direção do Centro de Reflexão Cristã (CRC), apontou à Agência ECCLESIA a necessidade de se perseguir, em Portugal, “maior justiça social”, combatendo a desigualdade “muito profunda” e construindo oportunidades iguais para todos.

“Há uma desigualdade social muito profunda. É prioritário combater porque uma democracia exige que haja uma igualdade de oportunidades. Enquanto houver esta desigualdade será difícil”, explicou.

O Centro de Reflexão Cristã, instituído em outubro de 1975, “herdeiro do Concilio Vaticano II e da revolução de abril”, procura ser um espaço para concretizar a “transformação da sociedade portuguesa”.

“O CRC visava, de acordo com os estatutos, o estudo da teologia com vista à formação da consciência cristã ao serviço da evangelização e libertação do povo português”, explicita o responsável.

Espaços de reflexão são, para José Leitão, fundamentais para a consciencialização do que está por fazer, mas, indica que o “caminho de abril” não se faz apenas com debates: “Aumento de salário mínimo, contratação coletiva, intervenção dos sindicatos, rendimento social de inserção. É importante a reflexão e o debate mas são necessárias políticas públicas”.

O sócio fundador do CRC acredita que os cidadãos devem ser “naturalmente insatisfeitos” para melhorar e corrigir, e que as mudanças passam pela renovação contínua dos homens e das estruturas.

Nascido na década de 50 do século XX, José Leitão retrocede à Universidade de Coimbra para encontrar na sua participação no movimento estudantil a génese de uma maior consciência social e política.

“Estive preso durante sete dias, mas a minha convicção é que tinha feito a escolha certa. Antes de ir para Coimbra pensava na questão coimbrã do Antero de Quental. Às vezes vamos para a universidade e acontecem coisas importantes. Tenho de estar atento, pensava. A greve de 1969 foi a nossa questão Coimbra na época. Isso marcou as minhas opções, eu entendia-me como católico de esquerda. Essa prisão também contribuiu para reforçar a minha convicção”, recorda.

A vinda para Lisboa e a participação na Juventude Universitária Católica, foram o tempo e o espaço para “viver a fé em Jesus Cristo, num contexto de grande transformação social, cultural e política”.

“Os campos de férias em Peniche, onde passeávamos num barco, e passávamos frente ao Forte de Peniche… Era um período de revisão de vida, de diálogo, de confronto: tínhamos posições muito diversas já sobre o futuro; mesmo entre pessoas que se colocavam numa posição progressista havia divergências que se vieram a manter passados anos, mas era vivido em quadro de Igreja”, recorda.

O 25 de abril de 1974 foi vivido por José leitão com “muito entusiasmo”.

“Foi um dia «inicial, inteiro e limpo», como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen. Foi o princípio do resto das nossas vidas e o início de um processo de libertação em que o futuro do país está nas mãos dos cidadãos, que farão o melhor para eles próprios”.

O presidente da direção do CRC afirma a importância de se preservar a memória mas com olhos no futuro, pois, indica haver “coisas maravilhosas” a fazer.

As “Conversas na ECCLESIA” desta semana ficam online às 17h00 e apresentam, ao longo desta semana, reflexões e testemunhos sobre o 25 de abril de 1974.

LS

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