Nascida em 1983, cresceu a conjugar o valor «liberdade», conciliando a fé e a procura de direitos iguais

Foto: Durante um evento no Comparte, projeto em que trabalhou, na área da Integração dos Migrantes, Refugiados e Requerentes de Asilo

Porto, 29 abr 2021 (Ecclesia) – Ana Vasquez, nascida em 1983, disse que o 25 de abril de 1974 “era a história de dormir” em sua casa e quem a contou foram protagonistas que lhe davam conta das lutas contra a ditadura, a guerra colonial, e a procura de igualdade de oportunidades para todos.

“O 25 de abril não era só um feriado. Cresci com histórias de pessoas que lutaram contra a ditadura e a guerra colonial, o papel dos católicos na sociedade; Tenho na família exemplos de pessoas que estiveram presas porque lutaram ativamente contra a guerra colonial. Até me custa entender do ponto de vista cristão porque é que não havia mais gente a fazê-lo e a ser mais ativo. Suponho que o medo tenha sido importante nisto e o abdicar de privilégios”, afirma em entrevista à Agência ECCLESIA.

Foto: Ana Vasquez e Luiza Sarsfield Cabral

Ana Vasquez lamenta uma “certa indiferença” entre as gerações mais novas perante a conquista de liberdade e a construção da democracia e afirma faltar “disposição para abdicar de privilégios” em defesa ativa desses direitos.

“Eu não sei se isto é claro para toda a gente na minha geração, mas é só a minha experiência que me diz isso: Tudo é adquirido, há muitos que não põem a hipótese de ter de escolher, apesar do perigo estar à porta e isso aflige-me. Continuo a ver muita gente a dizer que antigamente é que era: «Que exagero, as pessoas viviam bem, podiam fazer o que queriam, éramos um país rico que dava cartas no panorama internacional». Ainda ouço muita gente da minha geração a dizer isto”, lamenta.

Com 38 anos, a trabalhar na área da Comunicação e Marketing, Ana Vasquez afirma que a liberdade sempre acompanhou o seu crescimento, fruto de uma grande diversidade na sua família nuclear e alargada, e na pessoa do seu pai, a quem reconhece a capacidade de fazer escolhas, criar pontes, e ser “o não católico mais cristão” que conhece, percurso que a levou, em determinada altura da sua vida, depois de muitas perguntas, a “escolher a fé”.

“Este exercício da fé livre, refletida, virada para fora, que não foge de questões, que aceita fases de aproximação e afastamento, que não entende tudo, que tem de ser paciente e esperar por respostas, foi a forma como me adaptei e me moldei a estas realidades sem ter de cortar com nenhuma”, explica.

Para Ana Vasquez “a vida de Jesus” é o testemunho de “amor ao próximo, braços abertos, acolhimento na diferença, participação, perdão, tolerância, liberdade” e, por isso, afirma ter dificuldades em entender “conservadores que se colocam ao lado de forças políticas” ameaçadores da democracia, indica, “porque as há”.

“Não entendo como é que sabendo como foi a vida dos cristãos e de Jesus, como é que não é automático aceitar que se faça o que for preciso dentro dos valores da tolerância, do acolhimento, perdão, liberdade, amor ao próximo, para acabar com a pobreza, ter salários justos, ter condições dignas de trabalho. Do ponto de vista da Igreja católica não posso deixar de reparar que o caminho tem sido lento”, avança.

Reconhecendo “passos importantes, sobretudo com o Papa Francisco”, Ana Vasquez sonha que os católicos possam ir mais longe em questões “de defesa da casa comum, cuidar do planeta, acolher os refugiados, defender salários mais justos, apoiar sindicatos”.

As “Conversas na ECCLESIA” ficam online às 17h00 e apresentam, ao longo desta semana, reflexões e testemunhos sobre o 25 de abril de 1974.

LS

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