D. Virgílio Antunes foi eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, numa assembleia plenária que eleigeu mais de metade dos coordenadores dos vários setores da pastoral
Agência ECCLESIA – Disse na primeira mensagem após a eleição como presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), e repetiu na conferência de imprensa que não há dossiers fechados, enumerando uma série deles, desde as questões fraturantes, dos abusos sexuais, a liturgia, a renovação da Igreja. A partir da forma como olha para a Igreja Católica em Portugal, se tivesse de escolher um deles, por onde é que começaria?
D. Virgílio Antunes – Na Igreja há uma história, muito longa. Há uma história feliz, com alguns atropelos pelo meio, todos conhecemos, e que lamentamos, não gostaríamos que fosse assim, mas a História da Igreja é toda voltada para a evangelização, para o anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo. Esse é que é o nosso foco central. Depois, a Igreja tem uma dimensão social, tem as pessoas que fazem caminho, também tem as dificuldades que se vão sentindo, tem os tempos da história, que vão sendo diversos, não são todos iguais: desde o século I d.C. até o século XXI d.C. já se passou por muitos momentos grandes, também por muitas turbulências. Aquilo que eu destaco como fundamental e que dá o contínuo à história da Igreja é o anúncio do Evangelho, disso não há dúvida absolutamente nenhuma, porque esse é o mandato e que tem vindo a ser renovado de um modo especial no século XX e no século XXI para a sociedade que nós somos, para a humanidade que nós somos e com os contornos que nós conhecemos a partir, sobretudo, dos documentos pontifícios.
AE – Há questões, há problemas que é necessário resolver, caso contrário esse mandato essencial fica comprometido…
VA – Toda a gente sabe que nos últimos tempos, nos últimos anos, em Portugal e no mundo, aquilo que tem marcado de uma forma mais visível e mediática a agenda da Igreja e da sociedade é a questão dos abusos e, portanto, é aquilo que temos tido entre mãos, de uma forma mais direta, mais próxima, também mais decidida, mais empenhada e é absolutamente incontornável.
AE – Há uma determinação muito firme por parte do episcopado da Igreja Católica em Portugal de enfrentar o problema, de afirmar essa tolerância zero, mas não haverá uma perceção adequada, ou pelo menos correspondente à determinação da Igreja Católica?
VA – As perceções são muito variadas, desde o interior da Igreja, que nem toda a gente vê exatamente da mesma forma o tratamento que tem sido dado a todas as questões, inclusivamente a esta, e depois por parte da sociedade. E na sociedade também há diversidade de perspetivas.
AE – Mas aí, o papel da comunicação é determinante?
VA – É determinante, mas não é o único. Às vezes nós pensamos que é tudo comunicação. Há factos, há acontecimentos, há realidades, há procedimentos, e depois também há a comunicação mais assertiva, menos assertiva, que traz mais informação, menos informação… E as pessoas, diante das questões mais prementes e que marcam muito a sua vida e aquilo que é o sentido comunitário, de algum modo exigem, e ainda que exigem, que haja comunicação adequada. E isso acontece umas vezes mais, outras vezes menos.
AE – Neste capítulo em concreto, poderia ter sido diferente a comunicação das várias etapas do processo?
VA – Eu tenho dificuldade de ver qual seria a outra forma de comunicação. Nós às vezes pomo-nos neste papel: “o que seria se tivesse sido?”. Mas, dado que é uma questão tão relevante, tão dramática, mesmo com a melhora das comunicações, haveria sempre perceções diferentes da realidade, dos acontecimentos e da própria comunicação. E, portanto, temos de aceitar que o mais importante são inclusivamente os acontecimentos, são os factos, e nesses é que nos devemos debruçar. E são as pessoas, sobre elas devemos dedicar toda a nossa atenção, o nosso cuidado.
Às vezes tenho dito que era muito difícil a Igreja ou qualquer outra instituição ou entidade ou sociedade sair-se sempre bem no meio de uma questão como esta.
AE – Vamos voltar a este tema dos abusos… Mas este tema da comunicação na Igreja Católica: nos tempos de hoje, e diante da prioridade de evangelização que falou, o púlpito hoje não são os meios de comunicação social?
VA – Há muitos púlpitos, não há um único púlpito. É evidente que há uma comunicação interna, para dentro da própria igreja e que tem, sobretudo, grande lugar ao domingo, na homilia da missa e outras informações, tem a catequese, tem os momentos de evangelização explícitos ou implícitos, e tem, com certeza, os meios de comunicação, a que a Igreja tem vindo a dar muita atenção, praticamente há um século para cá. Mas, nos dias de hoje, com o desenvolvimento rápido que temos vindo a ter no que diz respeito aos meios de comunicação, às formas de comunicação e à comunicação universal e global, o assunto é evidentemente mais premente. E, nesse aspeto, penso que a Igreja, tanto a Igreja de Roma, que tem uma máquina de comunicação, que tem muitos meios, tem muitas pessoas e tem um programa bem definido, até há comunicação dentro de cada um dos países, onde existem as dioceses… Nas próprias dioceses, tem-se vindo a fazer caminho, às vezes com dificuldades pela falta de meios e de recursos e de pessoas. Nem sempre nós temos conseguido fazer a comunicação que nos pede a própria Igreja e que foi realçada, de uma forma muito especial, no último sínodo sobre sinodalidade, comunhão, participação e missão, ao dizer que a Igreja tem de estar nos diferentes fóruns onde se faz comunicação, seja do ponto de vista da informação, seja do ponto de vista da formação e a tal finalidade primeira e última que é o anúncio.
AE – Não referiu a comunicação na Conferência Episcopal, também é necessário?
VA – Evidentemente. A Conferência Episcopal também tem de ter, e tem procurado, alguns meios, que no passado não existiam, para fazer comunicação. Nós hoje estamos muito melhor do ponto de vista comunicacional na própria Conferência Episcopal do que estávamos noutras décadas mais para trás.
AE – É fundamental que a Igreja Católica em Portugal possa dialogar com a sociedade, com os outros interlocutores da sociedade a uma voz e tenha na Conferência Episcopal essa voz?
VA – É muito importante que a Igreja tenha uma voz, mas é naquilo que são os aspetos fundamentais da vida da própria Igreja. Depois, cada pessoa, cada comunidade, cada diocese, cada instituição tem a sua liberdade, felizmente estamos no tempo da liberdade de comunicação. E na Igreja também existe: as pessoas podem pensar, podem raciocinar, podem dizer, podem informar… Naturalmente há um conjunto de parâmetros, mas o último reduto, por assim dizer, seria aquilo que é a ortodoxia da fé, e aí não devemos tocar, não podemos tocar, mas no que diz respeito à vida, aos procedimentos, às realidades de cada dia, tem que haver pluralidade de informação e de comunicação.
AE – A questão será mais da comunicação para o exterior, por parte da Igreja Católica: que o exterior encontre uma referência por parte da Igreja Católica…
VA – As pessoas às vezes ficam perturbadas se ouvem dizer num lugar uma coisa e no outro lugar o seu contrário. Em todas as matérias! Mesmo em matéria de fé, em matéria de costumes, em qualquer setor. E, portanto, tem de haver alguns parâmetros fundamentais. No caso da Conferência Episcopal Portuguesa, que é uma conferência episcopal, não pura e simplesmente a soma de um conjunto de bispos, embora os bispos, cada um com a sua individualidade, de representantes das suas comunidades, temos de tender para a comunicação a uma voz, mesmo admitindo a pluralidade de perspetivas.
AE – Ainda sobre esta eleição, na última Assembleia Plenária, mais de metade das comissões episcopais foram renovadas, muitas delas com bispos de idade jovem. Que expectativa têm para o dinamismo nesses vários setores e, claro, também nos outros, onde permanecem os coordenadores dessas comissões?
VA – Quando entrámos nesta última Assembleia da Conferência Episcopal, vimos um panorama muito diferente de outras Assembleias Plenárias da Conferência.
AE – Houve uma renovação da Episcopal?
VA – Houve, evidentemente. Nos últimos anos foram nomeados bastantes bispos, alguns bispos diocesanos, um grupo bastante grande de bispos auxiliares e que trazem, inclusivamente, uma formação teológica diferente dos mais velhos, trazem uma inserção na sociedade também diferente, um modo de ver a Igreja também diferente, respeitando, com certeza, aquilo que é a unidade de todos. Há sangue novo, há ideias novas, há perspetivas novas, há sensibilidades novas. O facto de, para as comissões episcopais, terem sido eleitos bispos mais novos, alguns até de muito recente nomeação, só pode trazer aquela novidade do Espírito Santo, quer que exista na Igreja de hoje.

Proteção de menores
AE – Retomemos o tema dos agudos sexuais. Está em cima da mesa o modelo que vai continuar, após o mandato do Grupo Vita. Defende a continuidade de um grupo externo à Igreja Católica para acompanhar estes casos?
VA – A Igreja, ao longo destes anos, foi ensaiando um caminho. Era um caminho que nós desconhecíamos, tínhamos algumas ideias bem definidas e bem determinadas, de acordo com as indicações da Santa Sé, através dos diferentes documentos que foram sendo publicados, particularmente pelo Papa Francisco e agora reforçado o seu valor e a sua importância pelo Papa Leão XIV. Há um conjunto de indicações bem claras! E nós, os bispos portugueses, aceitámos desde o primeiro momento que era para levar por diante todas as indicações que a Igreja de Roma, o Santo Padre, os dicastérios e a comissão da tutela dos menores nos iam indicando. Essa determinação é clara, está bem definida, ninguém, com certeza, pensou nem pensa afastar-se daí.
O caminho que fomos trilhando foi o nosso caminho. Também conhecemos aquilo que se passou noutras Igrejas, noutros países do mundo, praticamente tudo diverso, porque os países são diferentes, porque as dioceses são diferentes… Mas, também eles e nós, procurámos respeitar as mesmas indicações fundamentais. É um caminho que não conhecíamos, tínhamos esta determinação!
Toda a gente conhece o caminho que foi feito na Igreja em Portugal: uma comissão independente para que se conhecesse a realidade sem qualquer tipo de interferência, fosse de quem fosse, independente na totalidade dos seus objetivos e do seu modo de trabalhar, como eles sempre aceitaram e reconheceram, e estamos muito gratos. De outra forma não teríamos uma perceção desta realidade tão nua, tão crua e tão real como agora temos. Depois houve aquele momento, podemos dizer crítico, da abertura dos arquivos, que nos levou a pedir à Santa Sé que nos autorizasse a abrir os arquivos das dioceses. E os arquivos foram abertos, as pessoas puderam fazer a investigação, difícil de fazer, reconheçamos, mas fizeram com a seu profissionalismo, uma vez que eram profissionais.
Depois houve a questão da conclusão desse processo e a nomeação do Grupo Vita porque se achava que não estávamos ainda em condições para levar por diante este trabalho só enquanto Igreja, precisávamos de outras entidades, de outra entidade concretamente, para ouvir, para dar um rosto, em que as pessoas confiassem… E isso tem vindo a acontecer com o Grupo Vita.
Houve outro momento muito importante, aliás correspondendo às indicações da Santa Sé, que foi a nomeação das comissões diocesanas para a proteção de menores e adultos vulneráveis, que se criaram em todas as dioceses, com profissionais, sem a participação ativa dos membros do clero, como foi aliás pedido, para que pudesse haver uma abertura, uma isenção, para reforçar a confiança de todas as vítimas que quisessem dar a conhecer a sua história.
E depois chegámos a este momento das compensações, que é um projeto grande, um projeto arrojado, um projeto bem compreendido por uns, por outros mal compreendido.
AE – Um projeto necessário na sua opinião?
VA – Um projeto absolutamente necessário! Porque uma coisa são palavras, é o reconhecimento público ou privado, pessoal, no diálogo com as pessoas, e outra coisa é dar-se um com algo que custa à própria Igreja, que é o desembolsar alguns quantitativos, alguns montantes, para manifestar às pessoas que isto não são só palavras, isto é uma atitude determinada que nós queremos levar por diante, enquanto Igreja, tendo em conta o sofrimento que essas mesmas pessoas viveram em primeira pessoa e que, em alguns casos, se arrastou por muitos anos, até ao momento da coragem de falar.
AE – Sobre as compensações, é público que 50% é suportado pela Conferência Episcopal, o restante entre as CIRP e as dioceses. Cada católico vai sentir também que está a contribuir para este fundo?
VA – Nós nunca pensámos em fazer nenhum ofertório, nem nenhum peditório. Vão ser os fundos de cada uma das dioceses que vai ter que retirar de outras verbas, que teriam outros destinos, para prover esse fundo com esses 50% atribuídos às dioceses e à CIRP e à CNISP, completado com o fundo da Conferência Episcopal. Agora, é o dinheiro dos fiéis, porque a Igreja em Portugal não tem outras fontes de financiamento que não o dinheiro dos fiéis e alguns pequenos rendimentos de algumas obras que realizam.
AE – É a história de todo este processo, até esta fase… Agora, daqui por diante, seja em novos casos que possam aparecer, seja em relação ao Grupo Vita. Defende esse modelo de grupo externo à Igreja Católica?
VA – Como dissemos na última Assembleia Plenária ou na conferência de imprensa, vamos reunir-nos com as comissões diocesanas e com o Grupo Vita para definirmos exatamente o modelo que devemos seguir nos tempos futuros, porque achamos que é muitíssimo importante dar o lugar que devem ter as comissões diocesanas, que são um órgão existente em cada uma das dioceses e que nos foi pedido pela Santa Sé. Não significa que não haja outras pessoas, outras pessoas que não pertencem às comissões diocesanas, que que não sejam chamadas a dar o seu apoio. Mas é uma realidade que procuraremos definir mais concretamente quando nos encontrarmos com as comissões e com o Grupo Vita.
AE – Não se defende um outro grupo? Defende que as comissões diocesanas seriam a instância onde dar continuidade?
VA – O caminho futuro vai ser esse, porque a Igreja tem de cuidar das vítimas da própria Igreja.
AE – Mas não será necessário alguém externo que possa catalisar a confiança de todos?
VA – Eu não sei o que vai acontecer. Mas, um outro grupo com uma identidade semelhante, uma terceira comissão, não sei se irá existir. Agora, outras pessoas que não estão envolvidas nas atividades da Igreja e que não são, por assim dizer, das fileiras da Igreja, embora, tanto nestes grupos todos havia gente de identidade cristã, de identidade católica, gente de boa vontade e profissionais…Mas nós também temos profissionais nas comissões diocesanas, temos psicólogos, temos pedopsiquiatras, temos juristas, temos juízes, temos pessoas que trabalham nas Forças de Segurança. Esse tipo de profissionais acaba por estar presente em todas as instituições que foram sendo criadas, Grupo Vita e comissões diocesanas. Mas veremos como é que vai ser a evolução nos próximos tempos.
Sinodalidade: “Está nas vossas mãos”
AE – No encontro de janeiro das equipas sinodais, numa conferência que fez, disse “está nas vossas mãos”, dirigindo-se precisamente a quem lá estava, a dezenas ou centenas de participantes. Quer isto dizer que a ideia está transmitida? É a concretização que agora está em causa?
VA – Tive uma grande graça que foi participar no sínodo, sobre sinodalidade.
AE – Nas duas assembleias em Roma…
VA – Nas duas assembleias, no mês de outubro. Foi uma grande graça, foi uma experiência única na vida de um bispo, ou na vida de qualquer cristão, uma vez que naquela assembleia estavam bispos, estavam presbíteros, diáconos, consagrados, leigos, portanto, era uma assembleia plural de todo o mundo. E esta troca de experiências foi uma autêntica maravilha. Agora, o trabalho está feito, a mensagem está passada? É evidente que não! Está em parte, mas esta mudança…
Há muitíssimo trabalho feito, há muitíssimas pessoas que estão convertidas a esta Igreja sinodal e da sinodalidade, que veem, como o Papa disse, o caminho da Igreja no futuro, e há pessoas que ainda podem estar um pouco reticentes. Isso é razoável, é normal, porque não apanhamos todos ao mesmo tempo e não temos todos também a informação ao mesmo tempo, ou as condições para fazer o caminho ao mesmo tempo.
Em Portugal, há uma atitude de abertura fabulosa. Nas duas assembleias que realizámos, por iniciativa da Conferência Episcopal, em Fátima, onde participaram membros de todas as dioceses, dos conselhos pastorais diocesanos e das comissões sinodais, via-se não só uma abertura, mas uma alegria, inclusivamente, muito grande…
AE – De compromisso com esta forma de ser igreja?
VA – De compromisso com esta ideia de ser Igreja, esta forma e com a sinodalidade. E nas dioceses todos temos acompanhado, tanto ao nível diocesano, das estruturas diocesanas, como ao nível das paróquias, das unidades pastorais, dos movimentos, um gosto grande das pessoas poderem manifestar o seu modo de ver, o seu modo de pensar, de serem escutadas, de poderem ter a sua palavra e de se envolverem na edificação da Igreja. É um caminho feito. Não podemos concluir que o trabalho está realizado, que agora é só esperar os frutos.
“Está nas nossas mãos”, era o que queria dizer nessa conferência que tinha por título “A espiritualidade sinodal”, para que não nos esqueçamos que isto da sinodalidade não é uma técnica, não é uma tática, não é uma estrutura, mas é sobretudo um espírito que se absorve, que se desenvolve e que nos leva a queremos ser Igreja tal como está a ser definida na sua concretização real nos nossos dias.
Sinodalidade na Diocese de Coimbra
AE – Podemos tomar por exemplo aqui a Diocese de Coimbra, onde desde cedo o D. Virgílio tentou implementar este espírito sinodal na pastoral. Acredito que em muitas regiões as estruturas estejam constituídas, os conselhos pastorais estejam constituídos, com a presença de leigos, jovens… A forma de trabalhar, para além das estruturas, a forma de ser Igreja já é, de facto, sinodal?
VA – Em muitos aspetos já mudou. Concretamente, alguns desses aspetos que manifestam a existência dos conselhos pastorais, das unidades pastorais ou das dioceses e das paróquias, nalguns casos existiam, outros não existiam e às vezes existiam um pouco adormecidos. Estão todos a ser revitalizados e as dioceses estão todas a fazer um esforço grande para que se levem por diante. Depois as equipas pastorais ou as equipas de animação pastoral em cada paróquia, em cada unidade pastoral. Na Diocese de Coimbra estão praticamente constituídas em todas as unidades pastorais e tenho estado a fazer a visita a cada uma delas ao longo deste ano. E existem!
O próprio modo de exercer o ministério sacerdotal, que estava quase exclusivamente centrado na figura do padre, que pensava, que refletia, que decidia, que rezava e que ouvia também, com certeza, hoje tem à sua volta um grupo de pessoas, de leigos ou de outros sacerdotes ou de diáconos, que refletem juntos, que rezam juntos e que programam juntos e que vão definindo os passos a dar em cada um destes lugares, por cada uma destas comunidades em conjunto, liderados naturalmente pelo pároco, que tem sempre essa responsabilidade de ser pastor.
AE – E na sua análise, o que poderia ser o negativo de uma pastoral não sinodal, que era um espírito clerical, uma lógica de poder, não reveste estas estruturas, nas unidades pastorais?
VA – Não, as unidades pastorais ajudam a ultrapassar. Às vezes, quando se fala de lógica de poder, não significa que fosse uma lógica de poder pelo poder, nem que as pessoas quisessem o poder pelo poder. Era assim, era o modo como nós vínhamos.
AE – Era sempre a mesma pessoa que decidia?
VA – Mas era o modo como vínhamos a ser igreja. Nem nos questionávamos muito… As pessoas aceitavam tranquilamente que era assim. E hoje, as pessoas já perceberam, o povo de Deus já percebeu que tem um lugar ativo e que tem não só o dever, mas também tem o direito de participar ativamente na edificação da sua comunidade.
E isso transforma o próprio modo de as pessoas se relacionarem. Este capítulo das relações, que é tão importante na sociedade, entre nós e também dentro da igreja, das relações com os sacerdotes, com os pastores e também das relações entre os próprios leigos, dentro das comunidades, um capítulo a desenvolver.

Consistório em junho
AE – Vejamos ainda dois aspetos, sobretudo relacionados com a Igreja Universal e com o propósito do Papa Leão XIV, a partir de duas referências. A primeira, de convocar um consistório para junho. Foi uma metodologia que o Papa Leão desde cedo comunicou, consistórios anuais para convocar os cardeais, sendo este próximo de junho para olhar o tema de evangelização e a partir do documento do Papa Francisco “A alegria do Evangelho”. O que é que diz esta decisão do Papa Leão, não só da atualidade do pontificado do Papa Francisco, mas da afirmação da continuidade?
VA – É uma atitude plenamente sinodal, em conformidade com o espírito sinodal. O Papa Francisco tinha ensaiado já aquele grupo de cardeais que o assessorava na reflexão. Agora o Papa Leão, que também esteve no sínodo e que, portanto, está imbuído do mesmo espírito, da mesma visão da Igreja, alargou, e alargou de uma forma que eu acho que é muitíssimo mais produtiva, que envolve muito mais pessoas. É uma belíssima ideia para dar continuidade a tudo isto que está entre mãos, na Igreja nos dias de hoje.
AE – A permanecer essa marca da proximidade da Igreja, ao estilo do Papa Francisco?
VA – Permanece! Ainda agora: tudo aquilo que vimos na viagem pastoral do Papa Leão XIV à África, nós ficamos admirados com à-vontade, com a proximidade, com o encontro, numa pessoa que ainda não está, por assim dizer, rodada nesta forma de ser Papa. Um ano não é muito tempo para aquilo que é a responsabilidade e para aquilo que é a evolução da própria pessoa, que vem de outros serviços, que vem de outros contextos. Ele tem-no dito… Ainda ontem, a propósito do primeiro aniversário da morte do Papa Francisco, todos gostámos de ouvir aquela relevância que ele pôs à figura do Papa Francisco, à doação da sua vida, à sua entrega, ao serviço da igreja.
Família: A Igreja não se pode isolar na norma
AE – Uma outra decisão do Papa Leão XIV foi convocar os presidentes das conferências episcopais para uma reunião, em outubro, sobre a exortação apostólica pós-sinodal “Amoris Laetitia”, um documento sobre a pastoral familiar, publicado há 10 anos. De que forma é necessário revisitar o documento? Em 10 anos, a transformação neste tema da pastoral familiar foi ainda maior, na sua opinião, e criou-se um estilo de pastoral “positiva e acolhedora”, como queria o Papa Francisco?
VA – Eu não pensava que fosse participar… Neste caso, em princípio, estarei lá!
É um documento, como todos os outros documentos que se referem à questão da família, que implica sempre um conjunto de aspetos de carácter ético, tem a ver com a sociedade atual, tem a ver com as transformações… É sempre um documento polémico, bem aceite por uns, menos aceito por outros, porque parece que vem pôr em crise algumas daquelas ideias fundamentais para algumas pessoas, mas a Igreja não pode ficar parada, nem fechada, àquilo que é a realidade que se passa no nosso mundo.
AE – Não se pode isolar na norma…
VA – Não se pode isolar na norma… Foi isso que o Papa Francisco quis dizer quando, em vez da Pastoral da Família, começou a falar nas famílias. E as famílias têm alegrias muito grandes e têm desafios, mas também têm dificuldades, têm transtornos… E a Igreja não pode deixar de estar atenta àquilo que são as famílias, nos dias de hoje, para lhes anunciar o Evangelho, para lhes ajudar a crescer, do ponto de vista ético e moral e para abrir horizontes, mas com as famílias. Não pode ser, simplesmente, do alto da norma que se realize esta transformação interior de uma sociedade.
AE – D. Virgílio é biblista, investigou as ciências bíblicas. E este acolhimento de todas as pessoas, na sua história, nas suas circunstâncias, na sua fragilidade, aproxima a Igreja das origens?
VA – Hoje, essa palavra está em cima da mesa: a palavra escuta e a palavra acolhimento. Penso que ninguém duvida que toda a pessoa, independentemente da sua história, que, mais de acordo com os padrões e com as normas ou menos de acordo, tem o direito de ser acolhida pela Igreja porque é acolhida pelo próprio Deus, por meio de Jesus Cristo e é o que lemos nas páginas do Evangelho.
Não significa que seja para concordar com tudo, que tudo esteja bem, que haja um vazio da norma ou um vazio ético, mas as pessoas são, para lá de todas essas circunstâncias da sua vida. E hoje, as paróquias, as comunidades têm uma atitude de abertura, de acolhimento e de escuta que é um ensaio muito positivo em relação a tudo isto e, concretamente, em relação às famílias que aparecem para o batismo, para o matrimónio, para levar as crianças à catequese. Precisamos de ir ao seu encontro para que elas, de facto, sintam o apelo de Deus por meio da Igreja. Hoje estamos todos vocacionados para acolher e para integrar as pessoas.
AE – O que é que espera desse encontro em Outubro?
VA – Espero que seja um encontro, para já, positivo… O Papa disse que era para tentarmos desenvolver, pôr em prática, dar continuidade ao belo documento que é a “Amoris Laetitia”. Também haverá vozes em sentidos diversos, mas para isso é que as pessoas se encontram, para isso é que as pessoas partilham as experiências e as realidades vividas em cada um dos países, para isso é que se vão pôr em comum os caminhos já percorridos e estamos sempre disponíveis para continuar a acolher as pessoas, propondo a novidade do Evangelho, porque nós temos sempre a obrigação de propor aquilo que é a novidade do Evangelho, que é o encontro com Cristo e também a organização da própria vida.
AE – Por vezes a Igreja é acusada de quase impedir o acesso a essa novidade do Evangelho, fechando-se na norma, fechando-se na estrutura…
VA – A norma é necessária, a norma existe, o Direito Canónico também está publicado e é para se pôr em prática, é para se cumprir, mas o Evangelho ainda está antes da norma.
Polarizações políticas
AE – Podemos olhar agora um pouco a sociedade portuguesa nas suas diferentes expressões e nos seus diferentes setores. Perguntava-lhe como é que analisa a tendência da construção democrática em Portugal? Nos últimos seis anos, o pêndulo talvez tenha passado da esquerda para a direita, ou tocado os extremos, tanto a esquerda como agora a direita…
VA – Os pêndulos são mesmo assim, e ao longo da história…
AE – Mas é desejável que seja assim?
VA – Seja desejável ou não, é a realidade. Não nos adianta nada discutirmos se é desejável ou se não é desejável, mas é a realidade. O pêndulo já caminhou muito para um lado, porventura ficou ao centro, hoje diz-se que caminhou para o outro lado. Desde que as pessoas todas estejam determinadas a viver num ambiente de respeito pelos outros e também por aquilo que é uma conquista das sociedades modernas num regime democrático, e essa é uma palavra essencial que todos aceitamos…
AE – Acha que todos aceitam essa palavra?
VA – Eu pensava que sim… Depois cada um entende às vezes a democracia à sua maneira, mas a democracia tem na base o respeito entre as pessoas e a capacidade de ouvir os outros e inclusivamente, no que diz respeito às questões políticas, o desejo das maiorias. É assim que é constituída a democracia, como alguém diz, o melhor dos regimes que nós temos sido capazes de edificar. Temos de viver com a realidade que temos.
Nos dias de hoje, tanto na Igreja como nas sociedades, o pêndulo tem oscilado, evidentemente, mas isso faz parte dos processos históricos.
AE – Como é que reage quando vê a apropriação do discurso religioso, até evangélico, para as expressões de natureza política e, sobretudo, quando estão em causa atitudes xenófobas e racistas?
VA – A Igreja não tem partido e o Papa Leão, ainda muito recentemente, em algumas polémicas que têm surgido, tem dito concretamente que o aproveitamento da matriz cristã ou das perspetivas do evangelho para defender esta ou aquela causa política é um perigo muitíssimo grande. Melhor será que as pessoas sejam capazes, por meio da reflexão, por meio do estudo da vida das sociedades, porventura inspirados pelo Evangelho, todos podemos ser inspirados do Evangelho, tanto à esquerda como à direita como ao centro, o Evangelho pode e quer inspirar a todos, mas os aproveitamentos para fins eleitoralistas ou para fazer o argumento mais forte a favor de algumas causas sobre as quais não há consensos… Mas há causas que são universais e a Doutrina Social da Igreja tem algumas causas que considera essenciais e o respeito pela pessoa humana e pelo migrante e pelos que trabalham e pelas famílias e pela vida, são questões das quais a Igreja não pode prescindir, inclusive tem o dever de o manifestar, independentemente de serem defendidas mais à direita, mais à esquerda ou seja por quem for. A agenda da Igreja é esta defesa da pessoa humana, da sua igual dignidade e o discurso político não deve entrar no meu discurso, no nosso discurso, mas por parte dos partidos também não deve haver um discurso religioso a tentar conquistar mais adeptos para a sua causa.
AE – Quando existe a Igreja Católica, as suas lideranças devem denunciá-la?
VA – É o que tem acontecido, ao mais alto nível! Não vamos meter-nos em guerras políticas com ninguém, porque isso não faz parte da nossa missão, nem do nosso modo de ser, nem de estar no mundo. A afirmação dos princípios, essa temos de continuar a fazê-la. Na Bíblia chamava-se o dinamismo profético, ou a dimensão profética que continua hoje na vida da Igreja, que também tem a ver com a denúncia daquilo com que não concordamos, porque não está de acordo, pensamos nós, com os ditamos do Evangelho.
AE – A polarização do discurso político, essa tem acontecido, tem sido repetida, nomeadamente na sede da democracia, no Parlamento. E em eventos, como seria para dignificar a democracia, como a celebração dos 50 anos da Constituição…
VA – Em todo lugar, deve haver uma linguagem adequada, respeito pelas posições dos outros… Toda a gente tem o direito de expressar o seu próprio modo de ver e de pensar, mas de uma forma civilizada, de uma forma dialogante, de uma forma adequada para as circunstâncias, e não há circunstância em que isso não deva acontecer.
Sessão comemorativa do 25 de abril
AE – Para o D. Virgílio, o que vai significar participar na sessão da Assembleia da República dos 25 de Abril?
VA – Vou com muito gosto, devo dizer, vou com muito gosto! Também há alguma curiosidade, mas é mais gosto pelo facto de manifestar que a Igreja presente nas dioceses portuguesas, que manifestou o desejo de me ver neste cargo, quer caminhar com todos, inclusivamente com aqueles que têm nas suas mãos os destinos do nosso país, do ponto de vista económico, do ponto de vista social, do ponto de vista político. Pode ser que a figura de um bispo possa ajudar a criar esses elos de unidade, de serviço ao bem comum, que é a causa que um bispo ali representa, porque, com certeza, a sua matriz é a fé, mas é manifestar o serviço que todos devemos prestar ao bem comum.
AE – Afirma também o envolvimento da Igreja Católica nestes 50 anos, 52 anos de construção democrática?
VA – A Igreja Católica é uma parceira importante na edificação da democracia, sem fazer a tal política partidária, mas tem sido uma presença grande na transformação da sociedade, e há algumas áreas que toda a gente reconhece como áreas fundamentais, como é a dimensão social da vida das comunidades e como é a assistência às pessoas em situações de maior debilidade, crianças, jovens, adultos, idosos, o ensino, que é um setor tão importante da vida de qualquer comunidade e a Igreja tem estado ali presente, mas também à criação desta consciência da responsabilidade na edificação do bem de todos e do bem comum, a Igreja tem estado lá.
AE – Que desfecho espera nesta discussão já longa do Pacote Laboral?
VA – O que eu desejo é que se chegue à melhor lei, que respeita os direitos das pessoas que trabalham e que são criadoras de riqueza e que o país conheça que também as empresas são absolutamente indispensáveis para a criação da mesma riqueza, que depois dá origem a um maior bem-estar económico, social e até espiritual às pessoas e às famílias. Felizmente, as pessoas vão dialogando e vão dialogar e o que eu espero é que se chegue a uma lei que seja justa para todos dentro da sociedade portuguesa e que permita o crescimento, o aumento da riqueza e o bem-estar social das populações.
AE – O risco da precariedade excessiva não coloca em causa essa justiça?
VA – A precariedade excessiva é sempre uma coisa negativa, porque as pessoas precisam ter algumas seguranças na vida. Também não pode ser uma ligação que seja absolutamente e sempre, em todos os casos, intocável. A precariedade em si mesma cria dificuldades às pessoas e às famílias.

O pontificado do Papa Leão XIV
AE – D. Virgílio Antunes, falemos um pouco deste pontificado do Papa Leão XIV, nomeadamente essa determinação que desde a primeira hora ele tem manifestado de um convite à paz, de um desafio à paz. Como é que analisou a troca, não digo de galhardetes, mas pelo menos na comunicação social assim que aconteceu, a troca de mensagens entre o presidente norte-americano e o Papa Leão XIV?
VA – Em primeiro lugar fiquei triste que tivesse acontecido. Espero que seja uma coisa facilmente ultrapassável. O Papa, tudo aquilo que disse e afirmou, bem na linha dos seus predecessores, concretamente do Papa Francisco, todos os domingos, todas as quartas-feiras e quando escreveu e quando fez homilias, falou a favor da paz, que deve ser edificada com base no diálogo, na justiça. As intervenções que vão contra isto deixam-nos tristes e depois quando se metem com críticas diretas à palavra do Papa, penso que seria a todos os títulos de evitar, que não devia acontecer e depois não devia haver reincidências que parece que agravam ainda mais este caso que nem sequer devia acontecer.
O Papa disse o que devia dizer, continuará a dizer, como ele afirmou, aquilo que tem de dizer e está determinado a levar por diante a sua missão, graças a Deus! Não sabíamos como iria reagir assim o Papa Leão, porque não conhecíamos a sua personalidade, mas felizmente está decidido a levar por diante a sua missão, com todos os custos que isso implicar.
AE – Estar um presidente de um país ou uma liderança política a evocar argumentos teológicos ou até do evangelho é desajustado…
VA – É desajustado, evidentemente. Assim como nós temos o dever de não nos intermeter nas questões da política partidária direta ou mesmo na política interna ou externa de um Estado, os Estados também não devem abusar, utilizando argumentos dessa ordem.
AE – A América tem neste momento duas vozes com alcance global, o Papa Leão XIV, o presidente norte-americano. É claro que é inquestionável que a voz que o mundo deve ouvir é a de Leão XIV…
VA – Eu escolho o Papa Leão, evidentemente, mas é uma evidência, porque é pela paz. Quem é pela paz tem sempre o meu voto em primeiro lugar, evidentemente. É pela paz, é pela justiça, é pela equidade, é pelo tratamento respeitoso pelas pessoas e povos, é por uma economia que dá vida em vez de ser por uma economia que mata.
Ainda agora, na África, falou do extrativismo, daquela extração abusiva de minerais, etc, para proveito de alguns… Que voz é que nós precisamos de ouvir, no mundo em que nós estamos se não aquela que apela ao bom senso, à justiça, à equidade, ao respeito pelas pessoas e povos, a uma economia que dá vida a todos? É a do Papa…
AE – D. Virgílio conhece-se bem toda a região do Médio Oriente, uma região marcada por conflitos ao longo de séculos, que se estão a agudizar nos dias de hoje. Que perspetivas podemos lançar para a resolução desses conflitos, quando as guerras são cada vez mais digitais quase, com consequências reais muito efetivas?
VA – O Médio Oriente está no número e no lugar das civilizações mais antigas, o Irão, o Iraque, a Jordânia, Líbano, Síria, depois Palestina, Israel, Egito… Guerras sempre houve ali e sempre pela disputa dos territórios, sempre por motivações que não têm a ver com o bem-estar das pessoas, mas outro tipo de motivações. Eu gostaria muito que aquela região da terra estivesse pacificada, porque dá a impressão que a terra estaria mais pacificada, ou estaria mesmo pacificada.
AE – Se é o berço do cristianismo, pode ser também o berço da paz?
VA – É o berço de muitas das religiões abraâmicas, é o berço do judaísmo, é o berço do cristianismo, é o berço do islão, e não gostaríamos nunca que a questão das motivações religiosas estivesse presente em nenhum destes conflitos, como as outras motivações não deviam existir. Ali, a sã convivência entre pessoas e povos devia ser como em todas as outras partes do mundo: todos têm o direito de existir, todos têm o direito à sua identidade, à sua identidade enquanto povo, à sua identidade religiosa, à sua identidade social, evidentemente, mas dá a impressão que não estão ainda encontradas as condições para que aquela região seja uma região de paz, como modelo da paz que devia existir em toda a terra.
Papa em Portugal em 2027
AE – D. Virgílio, gostava ainda de lhe perguntar sobre o Santuário de Fátima, o acontecimento de Fátima em Portugal, não na sua dimensão religiosa, a centralidade que tem para os crentes em Portugal e os crentes de todo o mundo, mas, sociologicamente, o que representa aquele Santuário para Portugal, até para a afirmação de Portugal no mundo?
VA – Fátima, de facto, ajudou a moldar muito daquilo que é a religiosidade e a fé dos crentes, dos cristãos, dos católicos, mas inclusivamente das populações em geral. No mundo, tem uma relevância que ainda é, em grandíssima parte, desconhecida por nós. Quem tem a possibilidade de percorrer um pouco do mundo e ver o impacto que tem uma simples imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, seja onde for, e ver a ligação afetiva que as pessoas têm, que os católicos têm, e mesmo, às vezes, no contexto de outras religiões, à figura da Virgem de Fátima, é uma coisa fabulosa.
Grande parte do mundo, pelo menos em alguns contextos, conhece Portugal por Fátima, conhece primeiro Fátima e depois Portugal. Nós não somos pessoas de estar a explorar os sentimentos das pessoas, nem esta dimensão afetiva, mas é um potencial muitíssimo grande que Portugal, como país, tem, evidentemente.
AE – Para quando a presença do Papa em Portugal, na sua opinião, do Papa Leão XIV?
VA – Nós gostaríamos que fosse em 2027. Como é sabido, a Conferência Episcopal, pela mão do antigo presidente D. José Ornelas, que também é o bispo de Leiria-Fátima, já endereçou um convite, outras pessoas já endereçaram esse convite ao Papa. Ele terá com toda a certeza o desejo de vir a Portugal.
A agenda do Papa é o que é, e ele tem com certeza as suas prioridades relativamente às suas viagens apostólicas, mas eu gostaria muito que fosse nos 110 anos das aparições de Fátima e no décimo aniversário dessa comemoração.
AE – Vai, pretende articular, nomeadamente com o Presidente da República, esse convite também formal?
VA – Evidentemente, agora tem de se esperar para saber o que é que pensa o Santo Padre acerca dessa possibilidade. Estamos todos disponíveis e penso que o senhor Presidente da República também terá todo o gosto e todo o desejo de se envolver nesta questão da hipótese de uma visita do Santo Padre a Portugal.
