Portugal/Envelhecimento: «Todos somos poucos para olhar este problema de frente» – José Carlos Batalha

É hoje nosso convidado presidente da Federação das Instituições de Terceira Idade (FITI) — que faz parte da CNIS — e responsável pelo Centro Social Paroquial da Azambuja. É também presidente da Assembleia Geral do Centro de Dia e Lar de Santa Ana de Azinha, conhecido como Lar dos Afetos, o “berço” da ideia do projeto GuardAfetos

Foto: Ricardo Fortunato/RR

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Antecipando já o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, que se assinala na próxima semana, conversamos a propósito do projeto GuardAfetos, que a Federação está a promover na região da Guarda, com foco nas pessoas mais velhas do concelho. Como e quando é que nasceu este projeto para “despertar esta aldeia”, e qual é o seu principal objetivo prático?

É um gosto estar aqui na Rádio Renascença e poder falar deste projeto, e não só, e falar também deste imperativo, que é olharmos para a nossa sociedade e percebermos como ela está cheia de rugas, uma sociedade cada vez mais envelhecida.

Este projeto nasceu exatamente em Santa Ana da Azinha, no Centro de Dia e Lar de Santa Ana da Azinha, também conhecido e muito bem pelo Lar dos Afetos. De muitas conversas que tive a ocasião de ter, depois de ter sido convidado para visitar este equipamento social, nesta aldeia do Concelho da Guarda, percebi que num equipamento, numa instituição de solidariedade social e neste equipamento em concreto, de facto se respira ternura, respira-se afeto. Há gestos concretos de afeto e eu creio que percebemos também que, apesar de vivermos um tempo espesso, de grande densidade, é também um lugar de memórias. Deixei-me conquistar por este espaço.

Fui falando muito com a presidente da instituição, Rosária Santos, que também ela me transmitiu este seu empenho, esta sua luta diária no sentido de transformar uma instituição num lugar cada vez mais humano, num lugar onde os idosos são tratados como pessoas.

 

Nós sabemos, aliás, que isso é cada vez mais raro, que a situação não é fácil, há poucos lares, há muitas situações de ilegalidade. Falamos deste projeto em concreto porque achamos importante também falar de bons exemplos. É um projeto que envolve várias entidades, que procura criar uma rede sólida. Quão importante é esta colaboração de vários setores, até também técnica, mas de vários setores no terreno?

É extraordinariamente importante. Conhecendo esta realidade e sobretudo estas aldeias desertificadas no nosso interior e numa zona que também me é particularmente querida porque já lá vivi, tenho família e, portanto, há aqui um apelo a este torrão natal, apercebi-me da dificuldade que é chegar junto das pessoas. O facto de procurarmos ir ao encontro das necessidades concretas das pessoas, aliás, é a verdadeira razão de ser das Instituições de Solidariedade Social. Elas nasceram exatamente para isto. Foi exatamente com este terreno de base, com esta estrutura de base, que, falando com a presidente da instituição, equacionamos como é que poderíamos melhorar o serviço que prestamos às pessoas.

 

E isso passou por envolver a comunidade?

É exatamente aqui que nasce o envolvimento da comunidade. Desde logo, o desafio feito à autarquia. E é aqui que nasce o primeiro “sim”, porque isto é um projeto de “sim”, é um projeto em que as pessoas acreditam. Desde logo, o senhor presidente da Câmara, que me foi apresentado, com quem comecei a falar desta ideia, da ideia de ir ao encontro das pessoas, mas com um duplo olhar. Não com o olhar só da prestação do serviço social.

 

Que já existia, não é? O apoio domiciliário e outras valências.

Exatamente.

 

Esse duplo olhar tem em conta a saúde, não é?

Tem em conta a saúde e tem em conta, sobretudo, uma linha de atuação que me parece que é extraordinariamente importante, a prevenção.

Aliás, esta entrevista, permitam-me que diga, é extraordinariamente oportuna porque, há pouco vinha a falar com dois protagonistas desta ideia e da equipa clínica, que é o Dr. José Valbom e a enfermeira Carla, que estão no terreno – a tal inovação, que é uma equipa clínica acompanhar, com a articulação no terreno, as ajudantes da ação direta, que já vão às casas das pessoas, fazer a higiene, levar a refeição, nesses cuidados já do paradigma do serviço de apoio domiciliário, como ele está pensado. Numa das visitas, constatam uma situação gravíssima ao nível da glicémia de uma utente e o médico fez logo toda a diferença.

 

Portanto, é levar profissionais de saúde a fazerem também estas visitas.

Exatamente. E isto tem ainda um alcance um pouco maior: evitamos que esta utente, neste caso concreto, descompensasse, pudesse ir parar à urgência do hospital. Para além disso, quando voltasse do hospital, vinha provavelmente mais rica, porque trazia mais uma ou duas bactérias para casa. Manter a pessoa no seu espaço de afeto, porque a casa destas pessoas é o seu espaço de afeto, é um dos objetivos fundamentais.

Obviamente, a Câmara, voltando um pouco atrás, depois de fazer este parênteses, a Câmara Municipal acolheu muito bem a ideia, obviamente, e depois a Junta de Freguesia local também.

 

E o Centro de Saúde?

O Ministério da Saúde entrou já numa segunda linha, quando nós colocámos a questão à senhora secretária de Estado, numa entrevista que tivemos com ela, a professora Ana Povo, e lhe explicámos esta ideia, esta ideia de juntar o olhar da saúde com o olhar social, neste caso, naquele terreno concreto.

Nós estamos a fazer, com o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, com alguns dos professores, alguns dos investigadores, liderados, por exemplo, pela professora Carla Ribeirinho, o diagnóstico sociodemográfico do Concelho da Guarda, para percebermos que tipo de pessoas em concreto temos.

A Guarda é um território extraordinariamente envelhecido, território onde vivem mais idosos em solidão. Isto resulta de um estudo feito pelos censos do Comando Distrital da GNR, com quem também estamos em articulação. Eles detetaram isto. Se a nossa sociedade já é uma sociedade absolutamente envelhecida, se somos o terceiro país mais envelhecido, se um em cada quatro idosos vive sozinho, se a população idosa cresce a um ritmo de 5% superior ao da população em idade ativa, se na última década o número de idosos que vivem sozinhos aumentou 33% estamos a falar de números esmagadores. Todos somos poucos para olhar este problema de frente, por isso foi necessário encontrarmos esta sinergia.

Obviamente que a senhora Secretária de Estado disse que sim, que queria monitorizar e de alguma forma acompanhar esta ideia, articulou com a senhora presidente da ULS da Guarda, com quem começámos a falar, e ela própria nomeou uma equipa para ir para o terreno.

 

Estamos a falar de um projeto específico para o Interior, uma região que tem condicionantes próprias, de envelhecimento, mas há muita gente nas cidades que também sente essa solidão e essa espécie de abandono. É possível replicar este projeto em contextos mais urbanos e do litoral?

Claro que sim, claro que sim, obviamente que a solidão não é uma característica específica do nosso interior. Em Lisboa vivem pessoas sozinhas, este vírus da solidão é transversal ao país inteiro, é obviamente, mas provavelmente ao nível do nosso Interior, das nossas aldeias, das nossas pequenas vilas, há um isolamento mais físico, mas existe também, e felizmente que existe, uma rede de solidariedade de vizinhança, de vizinhança, que te faz toda a diferença.

 

Que às vezes na cidade já não existe…

É verdade, é verdade.

 

Este trabalho vai ser avaliado, ainda está a decorrer, mas há condições, há pretensão de o alargar a outras regiões do país?

Há pretensões em alargar, por exemplo, na FITI, na Federação das Instituições de Terceira Idade, o nosso presidente do Conselho Fiscal tem uma instituição em Valpaços, Vila Real, e o município já manifestou vontade de conhecer mais em profundidade e de acolher esta ideia.

Eu creio que temos de ir fazendo este caminho devagar, obviamente, queremos avaliar, queremos, por isso também, envolver o Governo, envolver o governo local que está envolvido desde a primeira hora.

 

As autarquias, não é assim?

As autarquias são fundamentais, porque eles também têm, como nós, Instituições de Solidariedade Social, um olhar de proximidade.

O presidente da CNIS, padre Lino Maia, diz muitas vezes que nós sentimos o cheiro das pessoas. E nós olhamos as pessoas nos olhos, isto faz toda a diferença. Estamos a falar de políticas públicas e se não tiverem esta matriz, este objetivo, duvido que tenham sucesso.

 

Segundo dados da PORDATA, até 2070 um milhão de idosos em Portugal estará sem ninguém para cuidar deles. Ou porque não têm filhos, ou porque não têm irmãos. Isto tem de ser uma prioridade política? Como é que se faz no terreno: é preciso repensar as instituições sociais? É preciso criar mais instituições? Ou trabalhar mais em rede?

Bom, eu creio que é preciso tudo isso que disse. Eu diria, desde logo, falar de avós, falar de netos. Falando de netos, falamos da intergeracionalidade. É preciso que a sociedade pense que os nossos mais velhos, os nossos avós, são arquivos que ainda têm vida.

 

É preciso cuidar disso, não é?

É preciso cuidar disso. Dessa herança, dessa ligação. E é preciso não esconder os idosos. Por isso também esta instituição, como felizmente muitas outras, como felizmente muitas outras, mas o Lar dos Afetos promove a vinda de jovens para interagirem, para ouvirem relatos, para conviverem.

 

Para se habituarem a essa relação saudável…

Exatamente. Para ouvirem. Porque os jovens hoje também têm de aprender o ser neto é ter a capacidade de ouvir, ter a capacidade de entender as histórias. Eu próprio, neste ambiente da Guarda, recordo com muita saudade, obviamente, a minha avó, que era de lá. As minhas férias. Enfim, há toda uma viagem ao passado que é fundamental. E, portanto, se nós conseguirmos ouvir os ecos, os ecos dos barrocos – aqueles montes graníticos, pedras enormes. O Lar fica na Quinta dos Barrocos.

São estes ecos das pedras, da natureza que os mais jovens, os netos, têm de aprender a ouvir, aprender a guardar, antes que estes livros se fechem e, quando se fecharem, fecham-se e é irremediavelmente.

 

Essa era uma das questões que, aliás, gostávamos de fazer, projetando o próximo Dia Mundial dos Avós e Idosos. Leão XIV, na sua mensagem, escolheu como tema “Eu nunca te esquecerei” e desafia os jovens a retomar esta tradição de visitar os avós, os idosos que estão sozinhos. A experiência de que nos falou, de envolver os jovens, aqueles que têm disponibilidade para estarem no lar e para participarem nestas iniciativas, mostra que também há novas gerações sensibilizadas para esta oportunidade?

Graças a Deus que há novas gerações sensibilizadas, mas nós também temos de fazer a nossa parte. Temos de criar condições para que eles venham. Este projeto GuardAfetos, nasceu exatamente ali, naquela instituição, o Lar dos Afetos, na cidade da Guarda.

Nós queremos também, para além dos jovens do Secundário, apostar nos jovens universitários. Isto respondendo à sua pergunta concreta. Porque nós queremos atrair para o mundo da solidariedade social as competências que estes jovens universitários têm, independentemente de serem da área das humanidades, das sociologias, das psicologias, do serviço social, porque é preciso que venham arquitetos, médicos, enfermeiros, gestores, economistas, todos eles têm a sua competência, as suas capacidades, e temos de os atrair para este mundo.

 

E quando fala em atrair, é para trabalhar mesmo ou para serem voluntários?

É para fazer nascer neles o bichinho, este bichinho da solidariedade. É para os atrair, para serem voluntários ou para trabalharem nas instituições, porque enfim, tudo tem um começo, não é? E a gente às vezes começa por ser voluntário e depois gosta e depois fica.

 

Na sua opinião, qual deve ser também o papel do Estado tendo em conta que muitas das respostas a este nível são de facto asseguradas pelo setor social e pelas Misericórdias? O Estado tem feito a sua parte no apoio às instituições?

Para nós, o Estado tem de ser um parceiro. Tem de ser um parceiro. E como parceiro tem de estar ao nosso nível. Tem de perceber que nós estamos no terreno e, estando no terreno, conhecemos mais em profundidade as realidades e as dinâmicas. E chegamos onde o braço do Estado não chega. Porque nós temos esta rede capilar de Instituições de Solidariedade Social, desde a aldeia mais longínqua de Trás-os-Montes até à ilha mais próxima da América dos Açores.

É esta rede, esta malha de serviço público que prestamos e, não tenham dúvidas, que se não existíssemos nós, perceberíamos quão mais acentuadas eram as desigualdades sociais.

O que precisamos do Estado é que reconheça o nosso papel, que não obstaculize a nossa ação, que colabore, porque nós estamos aqui porque nascemos da dinâmica das comunidades. Nascemos para solucionar problemáticas que emergem na comunidade, seja ao nível da infância dos idosos, dos deficientes, dos sem-abrigo, das pessoas com doença.

As instituições de solidariedade social têm esta riqueza, vêm dar resposta e criam este dinamismo para fazerem aquilo que o Estado não é capaz de fazer sozinho.

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