Igreja/Migrações:«Quando se conhece, tudo é diferente» – Teresa Tavares de Almeida

No dia seguinte ao Dia Mundial da População, e dias depois do Instituto Nacional de Estatística ter atualizado o número de residentes em Portugal para 11 milhões e 424 mil pessoas, é convidada da Renascença e da Agência Ecclesia a presidente da Cáritas Diocesana de Beja, uma das regiões do país que mais tem sofrido com o despovoamento

Foto: Cáritas Diocesana de Beja

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Falamos de 11 milhões e 424 mil habitantes, com 1 milhão e 600 mil pessoas estrangeiras. Estes dados nacionais também refletem a realidade que lhe é mais próxima?

Sim, aqui no Alentejo o processo de desertificação tem sido já ao longo do tempo notório. Aldeias muito depauperadas de pessoas, pessoas já com muita idade, muita emigração portuguesa, os nossos a irem para fora, e agora nos últimos anos estamos a ver um processo de imigração. Estamos a receber e o grande movimento realmente são pessoas oriundas de outros países.

 

E é por força dessa comunidade imigrante que os números da população da região não têm descido tanto como ocorria anteriormente?

Exato. Vão equilibrando a demografia local, tanto na zona das cidades maiores, não temos muitas, temos algumas, e principalmente na zona litoral, porque aqui a Diocese de Beja tem uma costa bastante grande.

 

Da realidade conhece, quão decisiva é a força destes migrantes no desenvolvimento da atividade económica na região?

Nós temos oferta de trabalho ligada à agricultura, essencialmente, também alguma construção civil, mas não tanto. Em relação ao montante de pessoas que têm acorrido ao nosso serviço concreto do CLAIM (Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes) nós, desde janeiro até agora, recebemos 786 pessoas migrantes, sendo 544 homens e 242 mulheres. O grande grosso são pessoas brasileiras e senegalesas, temos muitos outros de África, mas o grande grosso é realmente o Brasil e o Senegal. Temos, então, aqui em Beja o atendimento no CLAIM, mas trabalhamos também sempre no sentido da descentralização, porque é difícil as pessoas virem aqui, se estão a trabalhar noutros concelhos, porque a Diocese de Beja tem 17 concelhos, são 14 que pertencem ao distrito de Beja e 3 pertencem ao Distrito de Setúbal, que são aqueles mais da zona litoral, Sines, Santiago e Grândola.

 

Antes de continuarmos, pode explicar a quem nos ouve o que é o CLAIM?

O CLAIM é o Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes e há vários espalhados no país, estão sempre em grande articulação com a AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo), estão também sempre muito articulados com os serviços de ação social, tanto das autarquias, no que respeita mesmo à parte do município, câmaras municipais como às juntas de freguesia, estão também articulados com outras IPSS e com outras associações locais, espalhadas pela nossa diocese.

 

Ou seja, esta realidade também se transforma num novo desafio para a própria Cáritas, porque muita dessa população chega a Portugal carregando também todas as suas carências e necessidades?

Exato. As pessoas chegam muito fragilizadas. Saírem dos seus países e deixarem os seus entes queridos não é fácil, não é? Nós vimos no processo contrário quando os nossos iam para fora, também a dor que deixavam atrás, não é? De saudade. Portanto, quando recebemos essas pessoas, elas estão fragilizadas. Não só do ponto de vista económico, e por vezes tocando mesmo a pobreza, mas também fragilizadas do ponto de vista emocional.

E esse apoio que se dá localmente tenta ver a pessoa no seu todo. E então para a Cáritas, que é uma instituição da Igreja Católica, que tenta sempre ser o rosto de Cristo para com o outro, atender o outro na sua dimensão integral e trabalhar para a dignidade da pessoa, é sempre o nosso desafio e o nosso propósito. A missão da Cáritas é mesmo essa.

 

Volto à questão de que tratávamos inicialmente, do impacto dos imigrantes nessa região. Concorda com a tese de que, sem imigrantes, alguns setores estariam condenados?

Eu estou convencida que sim. Porque nós estamos a ver que na faixa etária da juventude há muita saída, muita emigração. Nós começámos a ver que a ascensão social se foi alargando com a democracia, as pessoas têm mais facilidade no acesso à educação e começaram a estudar mais, a ter intercâmbios com outros países, nomeadamente em projetos de Erasmus, e depois elas acabam por ficar a trabalhar fora do país. Muita gente jovem começou a sair, e então aqui em Beja temos visto muito isso. Temos muita gente mesmo a trabalhar no estrangeiro, em quadros superiores. Há algumas até pessoas ligadas à agricultura, mas foram para fora.

E, portanto, a mão de obra faz falta. Agora, atrás da mão está a pessoa inteira. E nós, para além de ser só efetivos, cada um com duas mãos para trabalhar, nós temos de ver a pessoa no seu todo e trabalhar para a dignidade dela quando a atendemos. E é esse o grande desafio.

Eu gostava de falar de um projeto que ainda na semana passada foi lançado aqui em Beja pela Santa Casa da Misericórdia. É só mesmo para o concelho de Beja. É um projeto chamado LIMA, que é um laboratório de investigação sobre a mobilidade agrícola e que está a ser patrocinado pela Fundação Gulbenkian, e onde a Cáritas Diocesana de Beja é parceira, muito concretamente, com duas das suas valências: o CLAIM e o INCORPORA, que é um programa que, por sua vez, é financiado pela Fundação La Caixa.

O que é que se pretende com esse projeto? É tornar mais transparente, mais digno, mais justo, aquela relação entre o empregador e o empregado. Porque o que se tem visto é que vêm em massa. São grupos que chegam durante um período de trabalho sazonal e depois são abandonados ou têm tido problemas de empregabilidade, etc. Então, com este projeto, pretende-se arranjar plataformas digitais em que se sabe quem é quem, que tipo de formação é que precisa, porque as pessoas podem depois fazer formação no período em que o trabalho sazonal não está a ocorrer.

 

E também pode ser importante no combate ao tráfico e à ilegalidade?

Exatamente, é esse o objetivo. Depois, se tudo correr bem, porque este projeto veio para um ano e meio, mas todos vamos dar o nosso máximo e estou em crer que daqui a um ano e meio já se pode replicar noutros concelhos.

Claro que quando algo começa, há sempre aquele medo do desconhecido, medo do trabalho que as coisas dão, até como usa também plataformas digitais, há algum desconhecimento, pouca literacia digital, portanto é necessário haver quem na retaguarda vá apoiando as pessoas para saberem… mas estou convencida que a pouco e pouco, com o testemunho e com as práticas positivas que se vão ver, as pessoas vão perceber que para além de serem empregadoras, também os empregadores são pessoas, e que quanto mais dignidade derem ao outro, também mais dignas elas próprias são. E uma pessoa que tenha como objetivo na vida espalhar o bem e proporcionar o bem, não só em termos de produção e de dinheiro e de lucro que a empresa possa dar, mas puder dar e proporcionar o bem aos seus colaboradores, é uma maravilha. Olhe veja o exemplo do Rui Nabeiro, por exemplo, é uma figura de que o país inteiro gosta.

 

Ao nível do combate ao tráfico e à imigração ilegal, nota alguma melhoria ou situações como a de Odemira podem ainda vir a ocorrer num futuro próximo?

Eu tenho notado uma melhoria, porque as instâncias ligadas à polícia, GNR, Proteção Civil, estão mais despertas. Há todo um conjunto de pessoas que estão ligadas às questões de segurança, sejam elas de que nível for, em alerta. Eu não vou dizer que ficaram com um punhal em cima da cabeça, mas a verdade é que as pessoas acordaram para uma realidade que estava a acontecer, muito triste, e então começaram elas próprias a autorregular-se e também os seus efetivos.

 

Há mais consciência das empresas também?

Exatamente, estão muito mais conscientes. A própria população, apesar de se ver às vezes receio, medo, algum preconceito e tal… no fundo, há aquela sensação de que escravizar o outro e maltratar não é um bom caminho.

Por muito medo que as pessoas tenham, percebem que também não se pode fazer isso às outras pessoas. Portanto, há aqui um trabalho de sensibilização muito grande no crescimento de todos nós, de cada um.

 

Além dessas situações de exploração laboral, da precariedade habitacional, das dificuldades de integração destas comunidades na sociedade local. É preciso ter em consideração que a transformação económica, sobretudo na agricultura e na zona envolvente do Alqueva, muitas vezes tem uma fatura humana severa. Na resposta diária da Cáritas, que rosto humano tem essa fatura?

Sempre que alguém está a passar frio, ou agora com estes calores infernais que nós temos tido, é sempre terrível. Enquanto Cáritas, tentamos sempre, neste trabalho de descentralização, e sempre, sempre tendo presente que a Cáritas de Beja não é só a cidade de Beja – são os 17 concelhos, e por isso fazemos descentralização, temos programas, por exemplo, de privação material, em que vamos aos outros concelhos levar mantimentos, roupas, se for necessário. Temos as coisas organizadas, temos voluntários a fazer triagem, para também levar roupas. Agora, a questão da habitação é mesmo uma questão muito grave, porque ainda este ano houve aqui uma situação de uma casa particular, que fazia aluguer, e depois havia subaluguer, até que entrou em derrocada e foi muito complicado.

Com as intempéries, porque depois aquela chuva toda começou a estragar os materiais de construção, são fáceis as roturas e as derrocadas. Mas mesmo nestas situações, as entidades parceiras dão as mãos e rapidamente se resolveu a situação. Estou a lembrar-me de uma situação que foi mesmo aqui na cidade de Beja, em que nós temos um espaço de feiras e exposições, que é onde se faz normalmente a Ovibeja, e um pavilhão ficou imediatamente reservado para acolher aquelas pessoas que tinham ficado sem casa.

Houve um trabalho de parceria muito grande, mesmo com as outras instituições de solidariedade social.Colmataram-se os problemas. Por exemplo, aqui, na Cáritas – estou a falar da sede -temos uma comunidade de inserção onde também há camas e onde alojamos pessoas. O mesmo aconteceu noutros sítios. Eu acho que, nesse sentido, há parcerias muito boas com as entidades. Ninguém faz nada só.

 

Tendo em conta o trabalho de proximidade da Igreja Católica, como é que a Cáritas tem atuado na desconstrução de preconceitos e na mediação entre a população residente e os imigrantes, para se garantir que esta mudança demográfica gera coesão social e não fraturas, como alguns tentam expor?
Estamos sempre em unidade com o bispo. Por sua vez, ele vai aos encontros arciprestais e trabalha com os nossos padres, os nossos sacerdotes. E depois temos todo o conjunto de leigos que estão organizados na catequese, ou visitadores de pessoas em casa, ou que trabalham em várias instituições.

Temos a Cáritas nas escolas. São projetos da Cáritas portuguesa, que valorizam a Educação para o Desenvolvimento. Através desses veículos e também da comunicação social, porque a Diocese tem também um veículo de comunicação, e a Cáritas também tem para as suas necessidades, e para o seu site.

Vamos tentando chegar a todos. Temos um projeto de voluntariado que está a trabalhar fortemente para criar grupos paroquiais de ação social, que localmente vão trabalhar todas essas coisas. Nós tentamos ligar a parte da questão da evangelização e de tudo o que tem a ver com a transmissão da Boa Nova, desta forma de estar que a Igreja Católica tem. Ligamos, depois, às questões da ‘Laudato Si’, a proteção da casa comum. Isto é tudo uma multiplicidade de aspetos que têm de ser trabalhados em unidade.

 

E as recentes intervenções do Papa Leão, quer em Tenerife, quer em Lampedusa, dão força a quem está no terreno?

Muita força. Temos um Papa e uma Igreja que está aberta, e que está de olhos bem abertos, e ouvidos bem abertos, para o que está a acontecer, e com um termómetro muito preciso sobre o que é que há a fazer, é muito importante. Temos já imensos padres na Diocese de Beja que são africanos, por exemplo. É uma riqueza enorme, não é? A África já está, ela própria, também, no seu processo de evangelização, também a retribuir muito o que os portugueses também fizeram, e isso é mesmo a casa comum. Nós temos de olhar para o mundo como a casa comum, como o nosso Papa Francisco dizia.

 

E como é que os migrantes interpretam este preconceito, este discurso nacionalista e mesmo populista?

Eles têm receio. Têm receio, porque isto não é uma coisa que esteja só a acontecer em Portugal. Em Espanha passa-se o mesmo, por toda a Europa também. Porquê? Porque tudo isso se baseia muito no medo. Vão incutindo medo nas pessoas sobre o que é diferente, mas a verdade é que, quando se conhece, tudo é diferente.

Havia um provérbio africano que dizia que ninguém ama o que não conhece. E uma vez aprendi também com um senhor cigano, um patriarca de uma família, a dizer que para conhecer o que está dentro de um cesto com tampa, nós temos de levantar a tampa, porque senão nós nunca vamos saber o que é que está dentro do cesto. E o que se passa é que sempre que conhecemos outro que vem de outra terra, que tem outra forma de estar, se não nos relacionamos, se não estamos abertos ao conhecimento, não conseguimos amar bem a pessoa e acolhê-la e vice-versa. Porque nós não podemos pensar que isto é um trabalho só do português que aqui está, que vive, do autóctone, para com quem chega. É também um trabalho que se tem de fazer junto de quem vem, de estar aberto também a esta reciprocidade na relação.

Há bocado veio-me à memória João Paulo II, porque está por trás esta ideia da construção da civilização do amor, de que ele falava tanto e que já Paulo VI também tinha referido. Portanto, é isto que nós temos de fazer, é olhar para o planeta como a casa comum, como Francisco nos disse, e querer construir a civilização do amor, em que se não vamos ao encontro do outro, e se não estamos abertos para o acolher e para o conhecer, não há comunicação, não há possibilidade de construção conjunta de nada.

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