A pouco mais de um ano da Jornada Mundial da Juventude de Seul e no mês em que se realiza em Lamego o ‘Rejoice’, é convidado da Renascença e da Agência ECCLESIA o diretor do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
O Rejoice vai levar centenas de jovens a Lamego, sob o mote da unidade, num tempo de polarização. Também surge na continuidade da JMJ Lisboa, em resposta a mensagens de Leão XIV. Que apelos concretos são estes do novo Papa e de que forma é que o Rejoice, marca o fim do tempo de uma saudade da JMJ de Lisboa e passa a uma ação no presente?
O Rejoice é a Jornada Nacional da Juventude, que é um encontro em que se celebra a fé, reúne a juventude católica portuguesa e promove uma experiência de alegria, comunhão, missão, de encontro com Cristo vivo, em Lamego, de 24 a 26 de julho. Este foi um desafio lançado então pelo Papa Francisco aos Bispos de Portugal para que houvesse em Portugal uma Jornada Nacional da Juventude.
E nós estamos a cumprir isso. A primeira foi uma celebração, uma celebração de um ano pós-Jornada Mundial da Juventude 2023 e nós achámos por bem continuar este encontro. Depois posso falar do programa em geral, mas vamos falar sobre a paz, que é um tema caro ao Papa Leão. Vamos querer ler a paz com o cardeal Pizzaballa, que do centro da guerra vem para Lamego dialogar com os jovens sobre a paz.
Portanto, se é esta a alegria de viver uma Jornada Nacional e de começarmos a despedir-nos da Jornada Mundial da Juventude, também passamos e fazemos esta ponte para a paz. Penso que é um bom mote, entre Papas.
E então, Pedro, o que é que esperam ouvir do cardeal Pizzaballa? O que é que os jovens portugueses podem retirar de alguém que, como dizem, não fala de paz em abstrato, mas no meio da guerra?
O cardeal Pizzaballa, entre outras propostas que vamos fazer, está incluído na tarde de sábado em que temos pensado um programa que é “diálogo com a Cidade”, com a cidade de Lamego, onde temos vários workshops, oficinas para falar e refletir.
A nossa inspiração vem do manifesto que tivemos em Roma; o manifesto da juventude de Portugal, e que fala de paz.
Para quem não se lembra, agosto de 2025, em São Paulo fora de muros…
Foi aí que falámos no manifesto da juventude e que fala sobre a paz. Ler a paz deste momento. Nós queremos ouvir de viva-voz, o cardeal Pizaballa porque diariamente vive em clima e na própria pele a situação da guerra. E porque nós estamos muito distantes, queremos saber e perceber o que se passa e o que é que nós também podemos fazer enquanto cristãos, no nosso dia a dia, para celebrar a paz, para fazer paz.
Já voltaremos um pouco ao detalhe do Rejoice, mas olhando para 2023, três anos depois de Lisboa, o que é que está a mudar, efetivamente, na relação da Igreja Católica com os jovens?
O ano 2023 foi um ano muito especial. Foi onde nós tivemos uma experiência muito profunda. E deixámos um legado de fé, de participação e missão.
E, portanto, eu não sei se está a mudar ou a aprofundar, mas o que eu sinto é que estamos preocupados em levar o Evangelho a mais jovens. E levar este encontro com Cristo vivo a mais jovens em Portugal. E isso eu sei que estamos a fazer.
Nós, por exemplo, no Departamento Nacional, percebemos que existe um grande desafio na formação. E, portanto, criámos uma oficina-gerador, onde já começámos com dois laboratórios, em que queremos que os jovens sejam protagonistas, e prepararem o futuro, já e agora.
Uma igreja jovem em saída….
Sim, é isso mesmo. Terminou no fim de semana passado o Laboratório de Liderança Jovem, em que os jovens são os protagonistas dos próprios projetos, e queremos nós que sejam os protagonistas do futuro.
Estamos também a apostar na formação de novos formadores em pastoral dos jovens. Nós percebemos com a Jornada Mundial da Juventude, e as estruturas e os agentes pastorais, que era muito importante apostarmos na formação. E escutar também os jovens ao longo do tempo, foi o que fizemos com o quadro de referência.
Portanto, numa frase, a Jornada Mundial da Juventude 2023, trouxe-nos uma igreja alegre, disponível, participativa e em missão, e que eu acho que estamos a prolongar este legado.
A primeira edição do Rejoice, em 2024, juntou 5 mil jovens em Lisboa, e funcionou como o grande motor de mobilização para o jubileu dos jovens de 2025 em Roma, de que já há pouco falaste. Agora, em 2026 estamos em Lamego a fazer o mesmo, mas a olhar também para o próximo ano, para Seul. Podemos oficializar que o Rejoice deixou de ser apenas um eco nostálgico da Jornada de Lisboa, para se instituir definitivamente como a grande Jornada Nacional, que vai marcar o ritmo da juventude católica portuguesa no futuro?
Sim, no futuro nós queremos passar para a frente e olhar com olhos o horizonte, queremos que as próximas edições do Rejoice que venham a acontecer sejam as jornadas de encontro dos jovens em Portugal. Este, em Lamego, é o primeiro ano fora de Lisboa, e sublinho que as pessoas de Lamego, a cidade de Lamego, estão de braços abertos para receber os jovens que querem viver este momento. E queremos “prototipar”, se podemos dizer assim, uma jornada nacional que dialogue com as pessoas e com o território.
Este é um território do interior, e queremos que os jovens de Portugal conheçam outra realidade eclesial, e que também conheçam outras propostas. Esta reunião de jovens em Lamego é com perspetivas do futuro, e que nós depois no final também vamos avaliar como é que vamos fazer e qual é a cadência.
E que expectativas de participação é que tens nesta altura?
Penso eu que nesta altura já passámos as 1000 inscrições. As inscrições correspondem aos jovens que querem viver toda a experiência em Lamego, desde o alojamento, à alimentação e à participação em todo o programa. Ainda falta de quase um mês, e a nossa perspetiva é que haja uma mobilização de jovens para Lamego.
Além de todos os que vão aparecer espontaneamente….
Exato.
Olhando agora para a Coreia do Sul, nós sabemos que Seul vai acolher a JMJ de 2027. O Departamento Nacional da Pastoral Juvenil estima que a viagem que é longa custe entre 1900 e 2300 euros, e eu pergunto o que é que está a ser feito em termos práticos para evitar que a JMJ de Seul seja um evento acessível apenas a quem o pode pagar?
Em tom de brincadeira, nós não podemos comprar aviões para as coisas ficarem mais baratas. Não é isso.
Mas o que nós estamos a tentar fazer e o nosso diálogo com todos tem sido minimizar este impacto destes custos. E já estamos a preparar. Neste momento iniciámos esta caminhada. O que nós podemos dizer é que vamos fazer tudo, por tudo, para baixar este preço. Agora, nós não temos mão nas guerras, nas bolsas do petróleo…obviamente, que é um custo, mas por aquilo que temos visto, é que há mobilização dos jovens; sabemos que estão a mobilizar-se nas próprias paróquias, já na angariação de fundos, e já passámos as 600 inscrições.
Podemos dizer à data de hoje que é a maior peregrinação para uma jornada mundial da juventude que não seja na Europa. Mas vai ser difícil baixar estes custos e vamos tentar fazer tudo o possível para que seja um custo menor para os jovens poderem participar.
O plano para Seul não prevê apenas os dias centrais, mas também uma experiência prévia num contexto de uma diocese asiática. Como é que o programa “Caminho 27” vai preparar os jovens para o diálogo intercultural com uma igreja que é minoria e que tem uma vivência muito diferente da nossa?
Agora, e nesta preparação, e no Conselho Nacional de Santarém avançamos alguns princípios orientadores para esta peregrinação: “vamos juntos”, é este o grande desígnio, é que Portugal vá junto. Logo, à partida um caminho espiritual, que vai ser “o Caminho 27”, depois esta cultura de encontro, esta interculturalidade. Nós percebemos o que é que a Igreja de Seul nos pode aportar enquanto jovens portugueses. Uma caminhada também ela sinodal. Ou seja, nas nossas decisões queremos falar com várias pessoas, para fazer boas propostas.
E também queremos aproveitar este momento para a capacitação e liderança dos jovens. Eles que sejam protagonistas de alguns projetos que estejam a ser realizados nesta peregrinação.
No “Caminho 27” temos duas vertentes. Uma que é a oração “Rezamos Juntos ao dia 27”, e que vamos começar uma parceria no dia 27 de agosto, vai ser a primeira oração com a Rede Mundial de Oração com o Papa, no “Passo a Rezar”.
E depois também estamos a desenhar as catequeses mensais, que são subsídios que o Departamento, está a desenhar com os secretariados, movimentos e congregações que estamos a trabalhar. Queremos que seja proposta uma catequese para os jovens que vão a Seul e os jovens que ficam e não podem ir a Seul. Portanto, há aqui uma caminhada espiritual para quem vai e para quem fica.
Resumidamente, é um conjunto de catequeses, são 11 catequeses e depois um encontro nacional que queremos fazer com os peregrinos que vão a Seul. Portanto, é isto que nós estamos a fazer. É um caminho muito desafiante e que exige muita coragem.
Historicamente, a Igreja tem muita facilidade em convocar os jovens para cantar, para animar, para tratar de logística, mas sente-se resistência em confiar responsabilidades de decisão e de execução autónoma. O que é que falta para que esta presença deixe de ser vista em tantos sítios como cosmética, como se fosse algo que é preciso para ficar bem na fotografia?
Primeiro temos de ser consequentes com aquilo que queremos e com os nossos objetivos. Nós já estamos a cumprir o quadro de referência que foi aprovado pelos bispos de Portugal. Que é o documento orientador da Pastoral Juvenil. Há lá uma coisa que são os órgãos de escuta.
E em Santarém, no Conselho Nacional, tivemos a primeira Assembleia Jovem de Escuta e Corresponsabilidade. Escuta, quer dizer que são só os jovens que estão a ser protagonistas dos temas e falam, numa sala ou no espaço aberto, dos temas que eles querem. E depois passam-nos a nós o seu pensamento e a partir daí prosseguimos com o nosso trabalho.
A Corresponsabilidade vem a seguir, e também é consequente, e isso significa que dois jovens desta Assembleia Jovem vêm trabalhar diretamente com o Departamento Nacional. E vão ser nossos assessores.
Isto é, vão trabalhar, perceber o trabalho que estamos a desenvolver, e depois fazer a ponte com os outros jovens de todo o país para percebermos as suas sensibilidades.
O que é que isto quer dizer? Nós temos de ser consequentes com os nossos pensamentos, temos de ser exemplo, e ser exemplo é dizer assim: Se queremos jovens protagonistas, eles têm de ser os protagonistas já. É isso que nós estamos a fazer neste momento, por exemplo, com esta Assembleia Jovem.
Também criámos o Laboratório de Liderança Jovem, em que 20 jovens de todo o país estão a capacitar-se, a empoderar-se em liderança sinodal, numa vertente de inovação, de inovação pessoal, inovação espiritual e também inovação para a liderança do impacto.
Essa mudança também é possível notá-la no processo sinodal? Os jovens estão envolvidos?
Os jovens estão envolvidos nas suas comunidades. Ainda vi há dias que em algumas dioceses, os jovens estão naquelas estruturas de sinodalidade.
No Departamento nós temos os jovens já a trabalhar connosco, porque sabemos que são eles que vão ser os jovens no futuro também a liderar. E vão ter que ser já os os primeiros a ter projetos de liderança. E voltando a Seul, queremos pegar nesses jovens que fizeram este laboratório de liderança sinodal para que sejam eles os protagonistas nos projetos, ou atividades que venhamos a fazer.
O Departamento sentiu ou impulsionou a mobilização dos jovens para recentes eventos trágicos, como as guerras ou o recente sismo na Venezuela?
Nós sabemos que nas dioceses tem havido movimentos de jovens, como aconteceu por exemplo durante as tempestades de Leiria, em que vimos essa mobilização.
O nosso trabalho nesse sentido, no Departamento é muito silencioso, é ativar e sabermos como é que podemos ativar algumas estruturas que possam trabalhar nesse sentido. Mas sublinho que temos visto os jovens a ajudar, como no caso das cheias em Espanha, e como foi agora nas tempestades em Leiria e naquela zona.
Os jovens são protagonistas no voluntariado e na recuperação das tragédias. Também sei e tenho conhecimento de alguns diálogos entre estruturas jovens de Portugal com estruturas internacionais de apoio neste caso concreto que estamos a viver na Venezuela.
