«Há nos jovens adultos, e até alunos já mais crescidos, de mestrado e doutoramento, que procuram estes espaços de desconexão. E uma desconexão com sentido» – Padre Fernando Calado Rodrigues

Lisboa, 23 set 2026 (Ecclesia) – A capelania da Universidade Politécnica de Bragança (UPB) vai dinamizar o primeiro ‘Offline Weekend’ do ano académico 2026/2027, de 16 a 18 de outubro, um fim de semana onde os estudantes desligam o ‘smartphone’ e as redes sociais.
“Esta iniciativa de desafiá-los a passarem um fim de semana sem telemóvel achei que não ia ter muito sucesso, que não ia ter muitas inscrições, mas logo na primeira edição inscreveram-se 58 alunos. É claro que num universo de 10 mil é pouca gente, mas eu fiquei surpreendido, porque são atividades que só resultam entre 15 a 20 participantes, e tivemos que fazer seleção”, disse o padre Fernando Calado Rodrigues, em entrevista à Agência ECCLESIA.
Ao ritmo de dois ‘Offline Weekend’ por ano académico, todos os encontros tiveram “sempre dezenas de inscrições, e muitas pessoas interessadas”, que vão passando a palavra uns aos outros; o capelão católico da UPB adianta que vai realizar a quarta edição no próximo mês de outubro, do dia 16 ao 18, e já tem várias inscrições; e repete em abril de 2027, nos mesmos dias, no Centro de Formação de Malhadas, cedido pelo Município de Miranda do Douro.
“Vejo que há nos jovens adultos, e até alunos já mais crescidos, de mestrado e doutoramento, que procuram estes espaços de desconexão. E uma desconexão com sentido, não é desconectar só para desconectar”, observa.
“É uma desconexão para se conectar mais consigo mesmo, conectar-se com os outros. E é interessantíssimo, as atividades que surgem espontaneamente, jogos, conversas, diálogo, quando as pessoas não têm o telemóvel. Depois também promovemos o contacto com a natureza, e para aqueles que são crentes, o contacto com Deus, o contacto com a transcendência.”
Os ‘Offline Weekends’ são retiros sem smartphones e sem redes sociais, por isso, quando chegam ao local da atividades os alunos colocam os telemóveis inteligentes deles num saco numa mala “e são fechados à chave”, enquanto o padre Fernando Calado Rodrigues troca o seu “por um telefone de teclas, para não ter também internet”, é o ‘contato de emergência’ dado aos familiares.
“Também tem sido uma experiência interessante para mim, dois dias com o velho telemóvel Nokia, deixando passar a publicidade, com o velho telemóvel só a receber chamadas e mandar mensagem”, assinala o sacerdote.
Sobre o programa desta atividade, os estudantes, após o “número de entrada em que se despedem do telemóvel”, a primeira iniciativa “é um contacto com a natureza”, e depois vão “treinar o silêncio, treinar a interiorização”, em sala têm uma proposta com “pistas de reflexão, uns 5 ou 10 minutos”, “um pouco decalcado da experiência dos Exercícios Espirituais Inacianos”, fazem 40 minutos de interiorização e segue-se “um tempo de partilha em sala”.
“Foi outra das surpresas, eu achei que as pessoas não iam guardar silêncio, que não iam fazer estes tempos de interiorização, mas têm respeitado de uma forma extraordinária, têm vivido aqueles momentos; à noite, depois de jantar, é mais tempo de convívio, em que jogam cartas, jogam tênis, fazem essas atividades que, habitualmente, distraídos com o telemóvel, acabam por não fazer, conversam uns com os outros. É um tempo também muito interessante”, desenvolveu.
Segundo o capelão católico da Universidade Politécnica de Bragança esta “é uma proposta aberta a crentes e não crentes”, toda a atividade tem essa abertura, e, em todas as reflexões, “só há uma pista de reflexão para aqueles que são crentes”, que, no último dia do ‘Offline Weekend’, “normalmente são três ou quatro participantes”, podem participar na celebração da Eucaristia, “o único momento especificamente católico”.
Estes retiros têm sido “sempre em português”, para já não há oferta em inglês, por isso, os participantes são sobretudo dos Países de Língua Oficial Portuguesa: “os brasileiros quase sempre 50% do grupo”, enquanto os africanos aderem em grupos organizados de “5 ou 6” pessoas, de Cabo Verde, São Tomé e moçambicanos.
“Uma coisa que me entristece é que os portugueses participam pouco, presumo porque têm outras propostas ao fim de semana, têm outras preocupações. Estamos a tentar estudar estratégias que os levem também a aderir a esta iniciativa”, partilhou.
O sacerdote da Diocese de Bragança-Miranda recorda que esta iniciativa é “exclusivamente para os estudantes”, e surgiu desafiado por alguns professores da UPB, quando comunicava que “ia para retiro, que ia estar sem contacto, para uma desintoxicação digital”.
“Depois há um percurso que tentamos induzir, que vamos abrindo, quer à comunidade académica, quer à comunidade. Há uma sessão, que eu promovo, que ajuda as pessoas a conectarem-se mais consigo, a autoconhecerem-se, a investirem no seu crescimento humano e espiritual”, acrescentou o capelão universitário.
O capelão da Universidade Politécnica de Bragança adiantou que já criaram a ‘Associação dos Offliners’, que é um grupo “vai continuando a refletir estas questões”, a promover até a ideia é conseguirem “um dia offline na universidade, em que envolva mais pessoas do que só os 14 ou 15 que participam habitualmente nestes encontros, e que promovam reflexão”.
“Não somos contra as tecnologias de todo, queremos desenvolver esta atitude crítica em relação às tecnologias e, sobretudo, aos seus malefícios. Esta dependência, este controlo, este problema que se vai verificando cada vez mais, o ataque que as redes sociais fazem, por exemplo, à democracia liberal, isso é algo que deve preocupar. Eu acho que todos devemos tornarmo-nos ativistas desta causa, nomeadamente, a Igreja, as universidades, e mesmo o Estado.”
A capelania da UPB dinamiza também as bênçãos do caloiro e dos finalistas, promove o acompanhamento espiritual, confissões e celebrações, e já tiveram orações ao estilo de Tazié, a comunidade monástica francesa; e criaram na universidade transmontana um espaço inter-religioso que é usado, atualmente, por muçulmanos, e pelos escuteiros.
CB/OC
