«Uma igreja não é um cenário», alerta padre Miguel Neto
Lisboa, 24 set 2026 (Ecclesia) – O diretor da Pastoral do Turismo em Portugal alertou hoje para a mercantilização dos espaços sagrados, avisando que “uma igreja não é um cenário” e criticando o impacto dos algoritmos que ditam as rotas dos viajantes.
“Uma digitalização injusta agrava as desigualdades: quem vive num território sem rede fica duas vezes de fora. A resposta não é desligar, é aprender”, escreve o padre Miguel Lopes Neto, na mensagem para o Dia Mundial do Turismo (27 de setembro).
O documento alinha-se com os avisos da Santa Sé sobre os riscos da inteligência artificial (IA) e exige literacia turística para evitar que os templos se transformem em meros panos de fundo, onde “fica a pedra e perde-se a comunidade”.
A reflexão arranca com o exemplo da Capela dos Ossos, em Évora, onde os visitantes fazem fila para fotografias, ignorando frequentemente a meditação sobre a vida e a morte deixada pelos frades há quatro séculos, que “não cabe em quinze segundos de vídeo”.
Abordando o tema proposto pela ONU para a efeméride deste ano, ‘Agenda Digital e Inteligência Artificial para redesenhar o turismo’, o texto constata que as escolhas das máquinas empurram “milhares de pessoas para a mesma rua de Alfama, para o mesmo miradouro do Porto ou para a mesma hora na Cova da Iria”, deixando na sombra o património das localidades mais pequenas.
“O que não aparece no ecrã deixa de existir”, ilustra a mensagem.
O diretor da Pastoral do Turismo nacional faz eco das preocupações do Dicastério para a Evangelização (Santa Sé), sublinhando que a experiência de viagem não se pode “reduzir ao que o algoritmo prevê como agradável” e exigindo regras claras para que os dados recolhidos pelas aplicações não se tornem num “instrumento de controlo”.
A estrutura católica denuncia o esvaziamento de sentido provocado por uma digitalização irrefletida, criticando a proliferação de roteiros escritos por uma máquina que troca séculos e santos e santuários vendidos apenas como “atração imperdível”.
O padre Miguel Neto adverte que, nestes casos, se “perde a comunidade que ali reza, casa os filhos e chora os mortos”.
Como contraponto, o documento propõe a aposta na “educomunicação e literacia turística” e reconhece que a tecnologia pode ser uma aliada na audiodescrição de retábulos ou na distribuição equitativa de visitantes, desde que a inteligência artificial permaneça “um instrumento ao serviço da pessoa”.
A mensagem pede aos párocos que “não entreguem a outros” a história dos seus lugares e recomenda à autarquias e entidades regionais que expliquem “para que serve” uma igreja quando a promovem.
“Aos criadores de conteúdos: antes de filmar, perguntem. E a cada visitante: baixe o telemóvel durante um minuto. Há coisas que só se veem assim”, conclui a mensagem.
Na sua mensagem para a celebração deste ano, divulgada em junho, o Vaticano apela à criação de quadros normativos internacionais vinculativos para impedir que a IA se converta num sistema de controlo sobre os turistas.
“A recolha massiva de dados sobre os comportamentos dos viajantes, se não for devidamente regulamentada, pode tornar-se um instrumento de controlo incompatível com a liberdade e a dignidade da pessoa”, adverte o Dicastério para a Evangelização.
O organismo da Santa Sé rejeita a mercantilização humana na indústria das viagens, criticando a perspetiva económica que trata o indivíduo como um mero objeto e transforma o encontro cultural num espetáculo de consumo.
OC
