Por uma gramática do fascínio

Octávio Carmo, Agência ECCLESIA

Em dia de Jornadas Nacionais de Comunicação Social, convido-o a refletir sobre a forma como se comunica hoje, nas comunidades católicas. A sociologia mostra que o património cristão é, cada vez menos, uma herança cultural indiscutível e precisa, por isso, de “tradução”.

Já não é possível transmitir mensagens numa lógica exclusivista de pertença e, verdade seja dito, isso pode permitir libertar a própria experiência cristã de algumas amarras impostas pelo próprio monopólio social, já desgastado. A exigência de avançar para uma proposta do fascínio num espaço público plural e hipermediatizado não se faz com nostalgia de passados hegemónicos, faz-se com os pés no chão da realidade.

A câmara de eco mediática impõe muitas vezes, também com razões evidentes e necessárias, uma lógica de vigilância cerrada sobre o escândalo, a falha sistémica e a desconstrução de um pedestal de superioridade. Contudo, acontece um curto-circuito notável no radar mediático quando a lente desce para a realidade local, quando a reportagem esbarra na vida real.

O suor e a fisicalidade de quem carrega um andor na religiosidade popular, a resistência de um mosteiro contra a cultura do ruído algorítmico ou o serviço diário a quem foi descartado pela utopia tecnocrática, a vida concreta das comunidades, a sua ação no terreno e a vitalidade das suas tradições funcionam como uma autêntica rede de impacto perante um mundo mediático cínico e exausto na sua repetição incessante e conjunta do tema do dia.

Perante a ferida exposta e a mão que ampara, a lógica inverte-se perante a densidade de uma experiência humana genuína, acabando por operar uma validação objetiva daquilo que as comunidades católicas têm para oferecer à sociedade.

É aqui, no atrito das relações e no serviço tangível, que se escreve hoje a verdadeira gramática do fascínio. O jornalismo não se deixa deslumbrar por cartilhas doutrinais nem por estratégias de marketing digital. A Igreja volta a fascinar a praça pública não quando tenta impor uma narrativa, mas quando partilha, de forma verdadeira, a sua própria humanidade.

Partilhar:
Scroll to Top