Igreja/Media: João Miguel Tavares desafia católicos a «mudar o chip» e a abandonar posição defensiva na comunicação

Jornalista e D. Alexandre Palma, presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, promoveram debate sobre «reaprender a arte de conversar»

Foto Agência ECCLESIA, Jornadas Nacionais de Comunicação Social 2026

Leiria, 24 set 2026 (Ecclesia) – O jornalista João Miguel Tavares defendeu hoje que a Igreja Católica tem uma mensagem relevante a comunicar, desafiando a instituição a afastar-se de um discurso “excessivamente negativo”.

“A Igreja tem um produto incrível para comunicar”, disse, no debate de abertura das Jornadas Nacionais de Comunicação Social, que decorrem em Leiria.

Numa conversa sem mediação com D. Alexandre Palma, presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, o comentador propôs uma mudança de “chip”, assumindo a urgência de comunicar uma Igreja feita de “pecadores” e de pessoas “frágeis”.

“A mensagem é espetacular”, sublinhou João Miguel Tavares perante os participantes, lembrando a “popularidade gigantesca” da figura de Jesus mesmo fora das fronteiras eclesiais e diagnosticando que o problema institucional reside, sobretudo, em “deficiências de comunicação”.

“As histórias podem ser a frase certa no momento certo”, exemplificou.

Num olhar sobre a sociedade contemporânea, que descreveu como um “mundo de gente perdida”, o convidado realçou que “as pessoas sentem profunda falta do mundo espiritual” e da sua “verticalidade”.

Para chegar a estes “buscadores”, defendeu João Miguel Tavares, “a Igreja tem de ter a capacidade de se tornar sexy”, o que exige uma postura apaixonada: “Quem comunica tem de vibrar”.

“Mostrem-me vidas, não me mostrem palavras”, pediu o jornalista, alertando para os perigos de um tempo focado apenas na performance.

Apesar dos obstáculos, o comentador reconheceu que se regista hoje um maior acolhimento às propostas católicas, fruto de uma “mudança decisiva” protagonizada pelo Papa Francisco.

Já D. Alexandre Palma admitiu que muita da comunicação católica continua a ser excessivamente “reativa” e limitada ao plano “informativo”.

“Às vezes estamos com o paradigma de comunicação de há 30 anos”, reconheceu o bispo auxiliar de Lisboa, advertindo que a menor relevância social da mensagem na atual era de pós-Cristandade exige uma transição que supere a preocupação do “curto prazo”.

Para sair deste “labirinto” e evitar o mero “tacticismo”, o responsável católico apelou à ousadia dos comunicadores: “Precisamos de exploradores, de profetas”.

Em sintonia com o jornalista, D. Alexandre Palma sublinhou que a Igreja tem de “contar histórias reais, de gente ferida”, para chegar a um mundo de “pessoas à deriva”.

“O Evangelho é a legenda do que estamos a viver hoje”, sustentou.

O presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais lembrou que a mensagem cristã exige mais do que a simples transmissão de dados: “O Evangelho não é apenas informação, é mais do que isso”.

“É preciso saber jogar o jogo”, indicou D. Alexandre Palma, convidando a conhecer a lógica das redes sociais sem “ceder à instrumentalização”.

O encontro nacional do setor decorre ao longo desta quinta-feira no Seminário de Leiria, sob o lema ‘Por uma gramática do encontro’, reunindo responsáveis diocesanos, profissionais de comunicação institucional e jornalistas com o objetivo de desenhar um “mapa conjunto” para a Igreja em Portugal.

O programa da tarde avança com dinâmicas de grupo divididas por eixos práticos, desde a gestão de secretariados diocesanos e a criação de conteúdos digitais, até ao acompanhamento jornalístico do fenómeno religioso.

Os trabalhos abordam ainda o impacto da inteligência artificial, que a comissão episcopal exige colocar “ao serviço da promoção da dignidade da pessoa humana”, para garantir uma comunicação “de humanos para humanos”.

OC

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