Portugal: Governo e Comunidade de Santo Egídio assinam protocolo de entendimento, visando colaboração em processos de paz

Paulo Rangel destaca importância de conhecer cenários de conflito, apontando ao mandato no Conselho de Segurança da ONU

Andrea Riccardi (E) e Paulo Rangel Foto: Agéncia ECCLESIA

Lisboa, 10 jul 2026 (Ecclesia) – O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) e a comunidade católica de Santo Egídio assinaram hoje, em Lisboa, um protocolo de entendimento, que visa potenciar a colaboração em processos de paz e na defesa dos Direitos Humanos.

“Podemos ser parceiros e, sendo entidades muito diferenciadas, partilhamos valores. Temos valores comuns e isso permite que, no terreno, possamos ter uma grande convergência e maximizar o papel muito positivo de ambos”, disse Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, em conferência de imprensa, após a assinatura do documento.

O membro do Governo apontou, em particular, ao mandato de Portugal como membro não permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, a partir de janeiro de 2027

“Esta cooperação visa não só fazermos a diferença nos sítios onde estamos, mas também podermos criar um conhecimento que permita que os processos de paz, de estabilização, de consolidação da democracia, de respeito aos direitos humanos, possam ser verdadeiramente melhorados”, precisou.

O ministro português destacou a “longa tradição” de colaboração com a Comunidade de Santo Egídio, em particular no processo que levou à assinatura do Acordo Geral de Paz em Roma, a 4 de outubro de 1992, pondo fim à guerra civil em Moçambique.

Paulo Rangel destacou a ação humanitária da instituição católica, com presença em países como Guiné-Bissau e Timor-Leste, bem como em cenários de conflito no continente africano.

“Tendo nós uma vocação de relação muito forte com a África, na nossa política externa, e também com uma presença conhecida pela defesa dos Direitos Humanos e das organizações internacionais, das organizações do desenvolvimento, da cooperação e da assistência humanitária”, sublinhou o membro do Governo, “é algo muito importante ter um acordo assinado com a comunidade de Santo Egídio”.

O documento dá enquadramento oficial a “contactos regulares, de troca de informação, e de convergência na ação”, entre as duas partes, algo que acontecia, até agora, de modo espontâneo.

O responsável do MNE referiu que, para Portugal, é importante uma parceria que permite “conhecimento do terreno, dos atores e, em particular, das necessidades nos vários palcos de conflito”, falando num acordo de “alcance global”.

A ideia foi partilhada pelo fundador de Santo Egídio, Andrea Riccardi, realçando que a comunidade acompanha situações “fortemente problemáticas”, como a Ucrânia, onde distribuiu 30 milhões de euros em ajudas, e Cuba.

“O espírito com que trabalhamos é o de não isolar ninguém e manter de pé todas as pontes e caminhos de diálogo”, sustentou.

O responsável elogiou as “relações históricas” com Portugal e a “visão africana” da política nacional, que considerou mais completa do que outros países europeus.

“Não tem uma visão hegemónica, mas uma visão que se abre à colaboração com todos”, justificou.

Riccardi considerou que A “paz deixou de ser um valor e foi reabilitado o paradigma da guerra”, sustentando que todos têm “a responsabilidade de abrir caminhos de diálogo”.

O fundador da Comunidade de Santo Egídio assumiu que Moçambique é um “país central” para a CSE” para a instituição e pediu “uma presença solidária e de cooperação, a todos os níveis”.

Questionado sobre o assassinato de D. Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane, morto a tiro no dia 6 de junho, Andrea Riccardi convidou a “refletir sobre o recurso à violência, em Moçambique, que infelizmente contagiou também os ambientes da Igreja”.

“Tenho confiança no futuro deste país, confio que Moçambique vai ter um futuro melhor”, concluiu.

A Comunidade de Santo Egídio foi fundada em 1968, na cidade de Roma, e está presente em 70 países, incluindo Portugal.

Segundo a instituição católica, “a oração, os pobres e a paz são os alicerces da vida destes leigos e leigas, unidos por um laço de fraternidade e empenhados no serviço voluntário e gratuito aos mais vulneráveis”.

OC

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