Vontade de peregrinar

Leonor João, Agência ECCLESIA

Foto Agência ECCLESIA/PR, Peregrinação de Travanca, Amarante

Nunca fiz uma peregrinação a pé a Fátima, mas este mês contactei com quem estivesse a realizar o percurso até ao Santuário da Cova da Iria para as celebrações do 12 e 13 de maio. “O que faz alguém deixar o conforto da sua casa para passar largas horas e quilómetros sem fim a caminhar? Quem são estas pessoas que durante uns dias deixam tudo para se encontrarem com Maria? O cansaço e a bolhas nos pés valem a pena?” Estas eram perguntas que pairavam na minha cabeça.

Num dos primeiros dias do mês tive a oportunidade de realizar reportagem com um grupo de 300 peregrinos e 70 voluntários de Amarante, na Diocese do Porto. Tinham começado a caminhar há dois dias. A ideia era acompanhar a chegada ao local onde iam pernoitar, no Colégio dos Salesianos, em Anadia, Aveiro. Foi por um triz que conseguimos observar os últimos peregrinos a concluir mais uma etapa do percurso. Assistimos a sorrisos, lágrimas, palmas, gritos e à emoção de quem cumpriu mais um passo até ao objetivo final.

Naquele momento percebi que não é a meta que importa, mas o trajeto até lá. É o abraço que surge quando o corpo diz para parar, a palavra de força que impede que o cansaço vença, o silêncio profundo que responde a perguntas e levanta outras, a dor dilacerante que se transforma em superação.

O caminho até Fátima é também ocasião de partilha de “revoltas”, de “sentimentos de tristeza” e “gratidão”, assim me contou o padre Cláudio Silva. O sacerdote acompanha há quatro anos o Grupo de Peregrinos a Pé de Fátima de Travanca – Amarante, porque também ele se diz sentir peregrino. Ao longo do percurso, vai à frente e volta atrás para escutar cada um dos elementos desta grande família. “Enquanto uns vão fazer tratamento aos pés, aos músculos, eu faço à alma e ao espírito, converso, vêm ter comigo e tentamos”, partilhou. Percebi que também aqui a magia da peregrinação acontece, quando cada um se permite ser vulnerável ou acolhe a dor do outro.

Neste dia conversei com vários peregrinos, que me deram motivações diferentes para caminhar até ao Santuário: promessas, agradecimentos ou o desfrutar de uma experiência. Apesar de as razões serem variadas, estavam unidos pelo mesmo propósito e esta não era a primeira vez que abraçavam esta experiência. “Quem vem a primeira vez, quer vir sempre a segunda”, disse-me uma peregrina. “Acho que o que nos leva a vir cá é tentar tornar-nos melhores pessoas e que a nossa filha se orgulhe de nós”, confidenciou um casal.

Nunca caminhei a pé até Fátima, mas confesso que no último mês ganhei vontade de me tornar peregrina. “Aqui ninguém é estrangeiro. Aqui ninguém está sozinho. Aqui todos somos filhos acolhidos pela mesma Mãe”, frisou o patriarca de Lisboa, em Fátima. Quem sabe, um dia, ganhe coragem para me pôr a caminho e vivenciar o sentimento de que muitos falam na chegada ao Santuário: encontrar paz e o colo de Maria.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina, e vinculam apenas os seus autores.)

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