Claudia Montuschi explica que Biblioteca Vaticana tem «um património de cerca de 80 mil manuscritos e 100 mil unidades arquivísticas», textos de diferentes línguas, religiões, tradições, épocas e culturas

Cidade do Vaticano, 02 jul 2026 (Ecclesia) – A diretora do Departamento de Manuscritos da Biblioteca Apostólica Vaticana afirmou que “a beleza e a importância do património cultural” ultrapassam fronteiras “e situam-se acima de qualquer divisão”, após participar no encontro ‘Do Manuscrito ao Diálogo’, em Lisboa.
“O estudo ou mesmo a simples contemplação do património cultural colocam-nos numa dimensão transversal, que não acentua fronteiras, mas antes acolhe as diferenças culturais como ocasião para compreender, aprofundar, admirar, e, por vezes, permite-nos inclusive captar elementos de contacto e até raízes comuns”, disse Claudia Montuschi, em declarações enviada hoje à Agência ECCLESIA.
Para a entrevistada, promover projetos de investigação sobre o património cultural significa “tornar possível uma colaboração natural entre estudiosos de diferentes origens, línguas e religiões”, e salientou que “a beleza e a importância do património cultural”, o desejo de pesquisa que uma obra de arte, um manuscrito antigo ou um achado arqueológico suscitam “ultrapassam qualquer fronteira e situam-se acima de qualquer divisão”.
Claudia Montuschi participou na mesa-redonda ‘Do Manuscrito ao Diálogo: O Papel do Património Cultural na Promoção da Coexistência Pacífica’, organizada pelo Centro Internacional de Diálogo KAICIID com especialistas em manuscritos religiosos, história, património cultural, teologia, filologia e diálogo inter-religioso, na sede da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.
A especialista afirma que o título deste encontro, realizado no dia 26 de junho, “espelha uma realidade”, que os manuscritos são “exemplos por excelência de coexistência de elementos heterogéneos”, que constituem o seu valor, a sua beleza e a sua singularidade, e isso verifica-se a vários níveis.
“Do ponto de vista do conteúdo, podem ser portadores de diferentes tradições (os casos mais flagrantes são os textos traduzidos, que transmitem conhecimentos de uma civilização para outra); do ponto de vista material, podem ser compostos por partes de proveniência diversa; a produção do próprio manuscrito e a sua fruição implicam a interação entre várias pessoas”, desenvolveu.
Segundo a ‘Scriptor Latinus’ da Biblioteca Apostólica Vaticana, o manuscrito é em si mesmo “portador de um diálogo entre as pessoas que o concebem, o realizam, o estudam e o copiam nos séculos posteriores”, e explicou que a filologia reconstrói, analisando a relação entre manuscritos, “a história da tradição dos textos”, que são copiados uns dos outros e comparados.

Claudia Montuschi realçou que estudar manuscritos significa regressar às origens dos textos de cada cultura, compreender a sua génese, a sua beleza e os seus conteúdos, “entrando numa dimensão cultural partilhada, em vez de permanecer encerrado na lógica de separação, divisão ou defesa, e que renovar e cultivar a abordagem filológica ao texto “significa apostar num saber universal, que ultrapassa os obstáculos de natureza doutrinal, religiosa e ideológica”.
A mesa-redonda com participantes especializados em tradições textuais islâmica, cristã e judaica, bem como sobre as regiões e contextos históricos em que estas tradições se encontraram, foi organizada pelo KAICIID, com a Faculdade de Teologia da UCP e os seus Centros de Estudos de História Religiosa (CEHR) e de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (CITER), em Lisboa.
CB/OC
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A diretora do Departamento de Manuscritos da Biblioteca Apostólica Vaticana concorda que se pode afirmar que os seus manuscritos representam o mundo inteiro, “um património de cerca de 80.000 manuscritos e 100.000 unidades arquivísticas” orientado para a universalidade, “manuscritos que transmitem textos de diferentes línguas, religiões, tradições, épocas e culturas”. Ao percorrer as estantes do depósito de manuscritos da Biblioteca Apostólica observam-se formatos e suportes diversos – madeira, cera, papiro, pergaminho, papel, folha de palmeira, casca de árvore; tábuas, rolos, códices, fascículos, folhas soltas -, “cada um dos quais remete para civilizações e épocas diferentes” – do Século II até aos dias de hoje –, e textos de várias disciplinas, nas denominações dos fundos contam-se “27 alfabetos e, portanto, inúmeras línguas”. “Esta heterogeneidade não é casual, não foi determinada pela simples acumulação de coleções, mas é fruto de uma escolha deliberada que está na origem da própria Biblioteca: uma escolha humanística, orientada para reunir os melhores testemunhos úteis para reconstruir os textos de cada disciplina”, explicou Claudia Montuschi
A Scriptor Latinus’ da Biblioteca Apostólica Vaticana salientou que o Papa Nicolau V “estava a sonhar e a concretizar” uma biblioteca pública, universal, com textos em grego e latim, para utilidade de quantos estudam, “o bilinguismo clássico tornar-se-á muito rapidamente — já no final do século XV — multilinguismo (hebraico, árabe, etíope…)”, como se conclui dos inventários antigos. A locução ‘pro communi doctorum virorum commodo’ («para utilidade e interesse comum dos homens de ciência»), que se lê no breve ‘Iamdiu decrevimus’ de 1451, de Nicolau V, ainda encontra-se “vigente Estatuto da Vaticana”, traçando uma ponte entre o passado e o presente, para “testemunhar que alguns valores são eternos precisamente porque dizem respeito a todos e incluem todos”. “Conservar, cuidar e estudar manuscritos significa entregar ao futuro uma herança que estará sempre em condições de falar aos homens e às mulheres de cada época”, afirmou a diretora do Departamento de Manuscritos da Biblioteca Apostólica Vaticana.
O cardeal português D. José Tolentino Mendonça já foi o responsável pela biblioteca mais antiga do mundo, o Papa Francisco nomeou-o bibliotecário da Biblioteca Apostólica e arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano, a 26 de junho de 2018, elevando-o então à dignidade de arcebispo.
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