«Não estamos a discutir as religiões, estamos a convidar os líderes religiosos a unirem-se dentro daquilo que é comum a todas as religiões, na nossa perspetiva, a promoção da paz e a promoção da dignidade humana» – António de Almeida-Ribeiro

Lisboa, 26 jun 2026 (Ecclesia) – A organização intergovernamental KAICIID – Centro Internacional de Diálogo promoveu o encontro ‘Do Manuscrito ao Diálogo: o Papel do Património Cultural na Promoção da Coexistência Pacífica’, com especialistas nacionais e internacionais, hoje, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.
“Nos dias de hoje, em que vivemos uma polarização e uma radicalização de muitas sociedades, pareceu-nos que era especialmente importante ver como os manuscritos, a história, no fundo, das religiões, nos mostram que sempre houve uma ligação entre as várias religiões”, disse o secretário-geral do KAICIID, em declarações à Agência ECCLESIA, na UCP.
António de Almeida-Ribeiro acrescentou que os manuscritos mostram que “houve um diálogo entre religiões desde séculos”, e isso é o tema deste Centro Internacional de Diálogo, o KAICIID tem o objetivo de “promover a criação de pontos entre as várias religiões”.
“Não estamos a discutir as religiões, estamos a convidar os líderes religiosos a unirem-se dentro daquilo que é comum a todas as religiões, que é, na nossa perspetiva, a promoção da paz e a promoção da dignidade humana”, acrescento o antigo embaixador português.
O KAICIID, com sede em Lisboa, reuniu especialistas, professores e investigadores especializados em manuscritos islâmicos, filologia árabe e judaica, cristianismo oriental e estudos religiosos, do mundo árabe, do Vaticano e de Portugal, e, segundo o secretário-geral, vão partilhar os “seus conhecimentos históricos e de investigadores”, e contam muito com a sua participação e “a transmissão daquilo que é a experiência e o conhecimento deles sobre o que foi no passado, a ligação entre as religiões através dos manuscritos”.
O teólogo e historiador Najib George Awad explicou que quando leem os textos árabes antigos sobre o diálogo cristão-muçulmano encontram “não só polémicas ou defesas apologéticas, mas também interações pacíficas, construtivas e verdadeiramente mútuas”, lições positivas que são “realmente valiosas hoje”.
“Dizem-nos que, tal como as pessoas no passado, podiam sentar-se e conversar sobre as suas diferenças religiosas em paz, com tolerância e aceitação do outro. Provavelmente, podemos criar um espaço hoje, aprendendo estas lições do passado, para criar também um espaço de diálogo pacífico, mútuo e amigável semelhante”, acrescentou o especialista sírio-americano, à Agência ECCLESIA.
O diretor do Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Faculdade de Teologia da UCP realçou que tem todo o sentido colaborar e participar nesta rede de reflexão dos manuscritos ao diálogo, porque as grandes tradições religiosas abraâmicas “todas se referem ao livro, no caso dos cristãos, à Bíblia”, e como académicos e como academia, “cujo objetivo é contribuir para o bem-comum da sociedade”, esta variante do diálogo interreligioso “é também muito importante”.
“Também sabemos, e isso faz parte da nossa tradição e cultura moderna em que vivemos, que houve todo um percurso, desde a escrita até à fixação, à tradução, à apropriação do texto, em várias línguas e em várias culturas, que nos obrigam e convidam sempre a um estudo crítico desses mesmos textos fundadores das tradições cristãs. E se isso é hoje uma evidência e um critério dentro da reflexão teológica católica e cristã em geral, também o é de modos diversos noutras tradições religiosas”, desenvolveu o professor Paulo Fontes.
“Os cristãos e a tradição cristã têm muito a oferecer e a ganhar neste diálogo de reflexão de como é que, a partir dos escritos e das suas interpretações, é possível estabelecer uma lógica de diálogo entre as várias religiões.”
‘Do Manuscrito ao Diálogo: o Papel do Património Cultural na Promoção da Coexistência Pacífica’, foi o tema do encontro de especialistas, no Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), na Sala dos Descobrimentos, da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.
Para Najib George Awad, diálogo é a “palavra-chave”, porque essa é a especialidade do KAICIID, instituição que trabalha na área do diálogo inter-religioso e intercultural há muitos anos, e destaca que se deve saber que “o diálogo inter-religioso e intercultural não é uma moda recente no mundo”, mas é muito antigo “e remonta a tempos imemoriais”.
“No passado, temos nestes manuscritos uma herança destes diálogos, que cristãos e muçulmanos, por exemplo, realizaram em conjunto. E estes ricos textos foram preservados nestes manuscritos. o KAICIID espera pegar nestes manuscritos, extrair deles, estas lições de diálogo inter-religioso e intercultural, (1:09) e tentar relacioná-las diretamente com o que precisamos hoje para fomentar o diálogo inter-religioso”, desenvolveu o teólogo e historiador.
O diretor do Centro de Estudos de Religiões e Culturas, da Universidade Católica Portuguesa, explicou que o trabalho de investigação começa ao nível do estudo de equipas, entre académicos, e vai dando origem a produções científicas, a livros, a artigos, a debates, como o que acolhem organizado pelo KAICIID, e “tudo isso, a pouco e pouco, vai em ondas sucessivas, comunicando-se também à própria sociedade”.
“Tudo isto, evidentemente, demora o seu tempo, não é automático, mas haver uma consciência, por parte das lideranças, por parte dos estudiosos, que os textos não são letra morta, mas, pelo contrário, são letra viva, interpretada por várias tradições religiosas, e que é nesse diálogo entre as várias tradições religiosas que se pode encontrar o melhor desses mesmos textos, como inspiração para a cooperação, para o bem comum nos dias de hoje, é o que importa”, acrescentou o professor universitário Paulo Fontes, observando que, após este “fórum de debate mais interno” existem vias de disseminação, de apropriação, “e de receção pelas diferentes comunidades religiosas”.
Segundo Najib George Awad, especialista no pensamento cristão-muçulmano inter-religioso e intercultural no período formativo do Islão, nos primeiros quatro séculos da História do Islão têm “memórias de exemplos muito positivos de coexistência, de tolerância mútua muito positiva”, muita aceitação da pluralidade, da diversidade, onde cristãos, muçulmanos e judeus, as três principais religiões abraâmicas, “foram capazes de conversar uns com os outros, de pensar em conjunto, e até utilizar as mesmas ferramentas filosóficas, teológicas e intelectuais”.
“Esta é uma grande lição para aprendermos hoje como criar uma espécie de conjunto de ferramentas comuns, onde estas três religiões, quando se reúnem, possam usá-las juntas, e depois conversar entre si, não só sobre quem são, mas também sobre como as três podem avançar para além dos círculos estreitos de cada fé, para um círculo comum onde se possam sentar em paz, em aceitação, e possam promover a diversidade e a pluralidade”, desenvolveu.
“Vivemos num mundo totalmente pluralista, não podemos negar isso. Vivemos num mundo que é cada vez mais atormentado por tensões religiosas, e penso que as mesmas religiões podem trabalhar pela paz, e essa paz pode espalhar-se para outros segmentos da vida humana, dando o exemplo.”
O investigador associado no Instituto de Estudos Cristãos Orientais (IvOC), da Universidade de Radboud Nijmegen, nos Países Baixos, acrescentou que nos manuscritos têm “lições preciosas”, mas ainda não as ligaram com a realidade atual “sobre a necessidade de paz, de aceitar a pluralidade e a diversidade”.
O KAICIID – Centro Internacional de Diálogo vai publicar as conclusões do encontro ‘Do Manuscrito ao Diálogo: o Papel do Património Cultural na Promoção da Coexistência Pacífica’, onde participaram investigadores portugueses da UCP, do Mundo Islâmico, e a diretora do Departamento de Manuscritos da Biblioteca Apostólica Vaticana da Santa Sé, Claudia Montuschi.
CB/OC
Portugal comemorou o Dia Nacional da Liberdade Religiosa e do Diálogo Inter-Religioso, esta segunda-feira, dia 22 de junho, uma data instituída pela Assembleia da República (AR) que aprovou, por unanimidade, um projeto de resolução no dia 21 de junho de 2019.
Este dia nacional remete para a data da publicação da Lei de Liberdade Religiosa – 22 de junho de 2001 -, que este ano celebrou 25 anos. “A Lei da Liberdade Religiosa em Portugal é uma das leis mais perfeitas, diria eu, da Europa e é respeitada também por isso, e Portugal é respeitado por isso. Esta semana deu-nos a oportunidade de celebrar mais uma vez a instalação deste dia e, do nosso lado, continuaremos a promover pontos de diálogo e pontos de contacto e comuns entre todos para promover a paz. A alternativa ao diálogo é a guerra, é a tensão, e não é isso que ninguém quer com certeza”, disse o secretário-geral do KAICIID. O encontro ‘Do Manuscrito ao Diálogo: o Papel do Património Cultural na Promoção da Coexistência Pacífica’ realizou-se nesta mesma semana o que para António de Almeida-Ribeiro “tem todo o significado”, e destacou que a Assembleia da República aprovou por unanimidade um voto de saudação pelos 25 anos da Lei da Liberdade Religiosa, esta quinta-feira, e o Centro Internacional de Diálogo também assistiu à sessão, com membros e representantes de diversas religiões em Portugal. “Portugal é um exemplo de boa convivência entre religiões, há um grupo de trabalho interreligioso que reúne regularmente e do qual nós fazemos parte como observadores, e aí se vê como é possível encontrar pontes e pontos comuns entre as várias confissões religiosas que estão sediadas em Portugal”, acrescentou o antigo embaixador português. O professor Paulo Fontes assinalou que, “evidentemente, há um espaço favorável”, e observa que “não é por acaso que o KAICIID, transferiu a sua sede para Portugal há uns anos”, porque “oferece hoje, pela Lei da Liberdade Religiosa, um enquadramento legal, jurídico e político favorável a este entrecruzamento”. “Celebrar-se, nesta semana, os 25 anos da Liberdade Religiosa é muito importante e é, no fundo, expressão disto mesmo, o Portugal democrático foi capaz de construir um espaço de convivência, de respeito pela diversidade e de valorização da pluralidade”, concluiu o diretor do Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Faculdade de Teologia da UCP. |







